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#Contos#Literatura Brasileira

Silvestre

Por Machado de Assis (1877)

O dr. Luís Borges morava na praia da Gamboa, numa casa elegante, ainda que pequena, construída à custa de muitas razões finais. Era homem de quarenta anos, casado com uma gentilíssima senhora de vinte e cinco, sem filhos nem parentes, quase sem amigos. A fortuna não era nem surda nem solícita aos rogos do advogado; era como a maré que ele via das janelas todos os dias; enchia e vazava. Ele tinha a virtude de não esmorecer com as vazantes nem alucinar-se com as enchentes. Laboremus era a sua máxima.

Quando Silvestre ali apareceu, no dia ajustado, acabava o dr. Borges de ler as folhas e preparava-se para ir ao almoço. O pai fez entrega do filho e saiu. O pequeno ficou trêmulo e sem voz.

— Venha cá, meu rebeldezinho, disse o advogado; venha sem medo. Com que então, em vez de copiar autos, V. M. dá-se à pintura?...

Silvestre não ousava levantar os olhos do chão. Não se sentia triste somente, mas irritado e indignado. Não falava porque não podia; mas dado que pudesse, é provável que não rompesse o silêncio.

Luís Borges caminhara para ele, com a mão esquerda ergueu-lhe a cabeça, e contemplou-lhe alguns segundos as feições finas, os olhos rutilantes de juventude e esperança, a fronte amassada de talento e ambição. Ao mesmo tempo, Silvestre, que até então não olhara em cheio para o advogado, pôde ver-lhe o rosto, que ele supunha ser peludo e tétrico e achava simplesmente franco e amorável.

— Há aqui alguma coisa, murmurou o advogado.

Silvestre corou até a raiz dos cabelos.

— Que tem pintado você?

— Quase nada.

— Alguma coisa, ao menos.

— Mas tão pouco!

— Há de deixar-me ver.

— Não posso; são esboços sem valor. Quando eu fizer uma grande obra, sim.

— Olé! Já pensa nisso?

— Não penso em outra coisa.

— Mas, menino, ninguém chega a uma grande obra sem passar por obras pequenas. Engatinha-se antes de andar. Eu quisera vê-lo engatinhar.

Silvestre não disse palavra.

— Tem o pudor do incompleto! pensou o advogado. Sabe que seu pai trouxe-o para cá, continuou ele em voz alta, para que trabalhe e se deixe de pinturas. Eu, porém, permito lhe que pinte.

Silvestre quase desmaiou. Agarrou-se às mãos do advogado, como a pedir-lhe que repetisse o que acabava de dizer. Riu-se o advogado da alegria do pequeno, e, não só lhe disse que podia pintar em suas horas vagas, mas até que, se visse algum trabalho sério, de onde pudesse concluir que havia nele talento, lhe arranjaria um professor. A alma de Silvestre respirou largamente, livre do infortúnio que a oprimia; achava um protetor, onde cuidava ir buscar um algoz. Podia enfim ser artista!

E de saber que Luís Borges, apesar dos seus quarenta anos não perdera os entusiasmos juvenis, nem algumas das ilusões da primeira idade. Cria na arte, na glória, na poesia. Quando José Vargas lhe contou desanimado a vocação do filho e a necessidade de refreá-la a fim de lhe dirigir o espírito para alguma coisa mais útil, ou menos eventual, Luís Borges alegrou-se com a idéia de haver descoberto um artista e a de concorrer para desenvolvê-lo. Tal foi o motivo da proposta que lhe fez. Também ele tivera ambições, que o tempo levou, como leva outros tantos pedaços da alma. Agora, sentado nas ruínas da juventude, contentava-se em espraiar a vista pelo mar largo da juventude alheia.

Ia pois mudar a vida de Silvestre; seu gênio achava enfim uma pátria. O advogado mandou-lhe preparar uma sala e uma alcova, que havia no sótão da casa; duas janelas davam para o mar. Ele poucas vezes vira o mar, quase toda a vida esteve confinado em sua casa do bairro dos Cajueiros. Quando estendeu os olhos pela água adiante, a alma estremeceu, como o cavalo ao ouvir o clarim da guerra. Também ele ia pelejar, a dura e gloriosa peleja da arte, que o seduzia e arrastava, e que o mataria se ele não acudisse de pronto. Silvestre encostou-se à janela e deixou-se ir ao sabor de seus pensamentos; lembrou-lhe a mãe, a irmã e o pai, de quem ia viver separado doravante, e ficou triste; mas a idéia de que lhes pagaria as saudades com muita glória o consolou da tristeza, e lhe levantou o espírito.

(continua...)

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