Por Machado de Assis (1867)
— Mas falta uma que só vem às onze horas, disse um.
— Quem?
— A Sílvia.
— Venha ou não, disse outro, eu já achei a rainha.
— Quem é?
— É a Leocádia Martins.
— Não digas isso, exclamaram alguns rapazes.
— Por quê?
— Porque é uma tolice!
— Tolice!
— Até o nome, disse Augusto. Ora vejam lá: a rainha Leocádia.
— São gostos.
Augusto voltou-se para Teófilo e perguntou-lhe:
— Mas independente de não estar completo este Olimpo, quem é Juno na tua opinião?
— Não sei: acho-as todas igualmente belas.
— Não reparaste bem. Há algumas superiores.
— Será por não reparar bem; mas até aqui pareceu-me que eram todas igualmente belas.
— Esperemos pela Sílvia. Que horas são?
— Falta um quarto para as onze.
— Esperemos.
Os rapazes conversaram sobre coisas diversas, apreciando minuciosamente as belezas do baile, e apreciando não menos minuciosamente alguns ridículos já observados durante a noite.
Teófilo não tomava grande parte na conversa. Estava absorto em reflexões. Recordava lhe sua mãe e sua irmã de coração, talvez acordadas àquela hora trabalhando à roda da modesta mesa de família. Comparava aqueles esplendores do sarau com a simplicidade e a nudez da casa em que deixara as duas criaturas cuja felicidade buscava. Uma espécie de remorso doía-lhe na consciência e um peso lhe apertava o coração.
De repente estremeceu. Augusto reparou nisso e dirigiu-se ao poeta:
— Que tens?
Teófilo não respondeu. Tinha os olhos cravados na direção da sala de dança. Todos olharam para lá.
— E Sílvia! exclamaram.
Com efeito, uma moça alta acabava de entrar e atravessava o salão, com a majestade com que Juno devia atravessar o Olimpo, nos tempos em que havia Olimpo e Juno.
— É a rainha, exclamaram todos, menos o eleitor da rainha Leocádia. Teófilo também nada disse, mas tinha os olhos cravados na moça.
Quando Sílvia, continuando no caminho, desapareceu por trás da parede divisória das duas salas, Augusto voltou-se para o poeta e perguntou-lhe:
— É ou não a rainha?
— É, respondeu Teófilo.
Aqui começou um cântico com estrofes e epodos em louvor da beleza de Sílvia. Teófilo voltou ao habitual silêncio.
Depois saíram da sala.
Augusto deu o braço a Teófilo.
— Queres que te apresente a Sílvia? perguntou-lhe.
— Quero.
Os dois moços dirigiram-se para o salão.
A recém-chegada estava então sentada junto à dona da casa, senhora de trinta e seis anos, ainda bela, mas dessa beleza do outono e do crepúsculo que ainda reúne elementos para impressionar.
Uma turba de adoradores tinha-se já reunido à roda de Sílvia. Ela respondia a todos com volubilidade e graça inefável. De todos os lados da sala os olhos estavam voltados para ela, e um observador sagaz podia apreciar a diferença da expressão que ia em todos esses olhares. Da parte dos homens era, admiração em uns, despeito de vencidos em outros; da parte das mulheres era certa vaidade mal contida e certa inveja mal disfarçada.
Sílvia sabia que era singularmente bela e tinha vaidade disso; era elegante por natureza e por educação; os homens a reqüestavam e repetiam-lhe a cada momento aquilo que o espelho lhe dizia durante o dia a cada hora.
Teófilo parou à porta vendo a turba que cercava a moça.
— Iremos depois, disse ele.
— Por quê?
— Tanta gente...
— Não sejas tolo. Anda cá.
Teófilo deixou-se arrastar.
Augusto aproximou-se do grupo.
A moça apenas o viu fez-lhe um sinal com o olhar. O moço obedeceu aproximando-se.
— Não me acha um ar de filósofo? disse ele sem largar o braço de Teófilo.
— Talvez, disse ela.
— Sou um peripatético que vê correr as horas, olhando para o céu, à espera do momento em que deve aparecer Diana para vir empalidecer as estrelas...
— Deveras? disse ela movendo voluptuosamente o leque.
Augusto fez a apresentação de Teófilo.
Sílvia inclinou ligeiramente a cabeça à saudação de Teófilo. Os seus olhos puros e grandes fitaram-se no moço. Este não pôde desviar os seus.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Possível e impossível. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1867.