Por Machado de Assis (1873)
Faz um calor insuportável; mas como eu abri a janela que dá para o jardim, estou a ver o céu “todo recamado de estrelas” como dizem os poetas, e o espetáculo compensa o calor. Que noite, minha Luísa! Gosto imensamente destes grandes silêncios, porque então ouço-me a mim mesma, e vivo mais em cinco minutos de solidão do que em vinte horas de bulício.
A Mariquinhas Rocha esteve esta noite cá em casa com o marido. Ambos parecem felizes, ela ainda mais do que ele, o que se me afigura completa inversão das leis naturais. Não se admira de me ouvir falar em “leis naturais”? A idéia não é minha, é do próprio enteado, o Dr. Alberto. Conversamos os dois a respeito das boas e santas qualidades de Mariquinhas, e eu dizia o que ela foi sempre desde criança.
– Criança é ainda ela, observou ele sorrindo. Não posso chamar de madrasta a uma criatura que parece antes minha irmã mais moça.
– Na idade, sim, tornei eu; mas na circunspecção e na compostura é positivamente mais velha que o senhor.
Ele sorriu, mas de um sorriso amarelo, e continuou:
– Meu pai é feliz; minha madrasta parece ainda mais feliz que meu pai. Não é isto uma inversão das leis naturais?
Critique, se lhe parece, a opinião do filho; mas aproveito a ocasião para dizer que na sua última carta há duas linhas em que parece um resto de suspeita. Mande-me dizer como quer que a convença de que ele é para mim uma criatura igual a tantas outras?
Ande, confesse que é cruel comigo, e disponha-se a um sermão na primeira ocasião em que estivermos juntas.
Sabe quem eu vi hoje? Dou-lhe um doce se adivinhar. O Garcia, aquele Garcia que a nam... Não, não, paremos aqui.
Raquel
XIII
D. LUÍSA A D. RAQUEL
Juiz de Fora, 10 de fevereiro
Não confesso nada; não fui cruel. Tive uma suspeita e preferi dizê-la a guardá-la. A amizade manda isto mesmo. Por que razão deixaríamos nós aquela fraqueza e confiança do tempo do colégio?
Acredito que realmente nada há, mas acredito também outra coisa. Estou a ver que é alguma figura grotesca, e que você foi antes ofendida na vaidade que no coração. Vá, confesse isso. Sabe de uma coisa? Está-me parecendo mais poeta do que era, mais romanesca, mais cheia de caraminholas. Bem sei que a idade explica muita coisa; mas há um limite, Raquel; não confunda o romance com a vida, ou viverá desgraçada...
...Um sermão! aí começava eu a fazer-lhe um sermão chocho e insulso, e sobretudo ineficaz. Venhamos a coisas mais de prosa. Meu marido quer entrar na política. Não se arrepia com esta palavra? Política e lua de mel, que duas coisas tão inimigas! Mas será o que Deus quiser. Lembranças dele e minhas a sua mamãe e a você. Até breve.
Luísa
XIV
D. RAQUEL A D. LUÍSA
Corte, 15 de fevereiro
Engana-se quando supõe que o Dr. Alberto é uma figura grotesca; já lhe disse que é rapaz elegante; e até aquele ar compassado e escultural que eu lhe achava, até isso parece ter desaparecido desde que tem intimidade conosco.
Não foi pois a minha vaidade que se ofendeu; não foi também o meu coração. Senti que você não me acreditasse, nada mais.
Eu podia fazer-lhe agora uma dissertação a respeito do amor; mas retraio a pena por me lembrar que iria ensinar o padre-nosso ao vigário.
Seu marido quer entrar na política? Vai você admirar-se da minha opinião a este respeito, que não parece opinião de uma devaneadora, como você me chama. Eu penso que a política para você tem uma onça de inconvenientes e uma libra de vantagens.
A política há de ser uma rival, mas pesadas as coisas antes essa que outra. Essa ao menos ocupa o espírito e a vida; mas deixa o coração livre e puro. Demais, eu nem sempre sou a cismadora que você tem na cabeça; sinto um grãozinho de ambição comigo, a ambição de ser...ministra. Ri se? Eu também me rio, o que prova que o meu espírito anda despreocupado e livre, livre como a pena que me corre agora no papel, produzindo uma letra que não sei se entenderá. Adeus.
Raquel
XV
O DR. ALBERTO A D. RAQUEL
18 de fevereiro
Perdoa-me a audácia; peço-lhe de joelhos uma resposta que os seus olhos teimam em me não dar. Não lhe digo no papel o que sinto; não o poderia exprimir cabalmente. Mas o seu espírito há de ter compreendido o que se passa no meu coração, há de ter lido no meu rosto aquilo que eu nunca me atreveria a dizer de viva voz.
Alberto
XVI
D. RAQUEL A D. LUÍSA
21 de fevereiro
Mamãe estava com disposições de ir visitá-la; mas infelizmente não me acho boa, e adiamos a viagem. Quando desempenha você a sua palavra vindo passar alguns dias na corte? Conversaríamos muito.
Raquel
XVII
À MESMA
5 de março
Não é carta; é apenas um bilhetinho. Não me dirá o que é o coração humano? Um logogrifo. Mistério! exclamará você ao ler estas linhas. Pois será.
Raquel
XVIII
O DR. ALBERTO A D. RAQUEL
8 de março
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ponto de vista. In: ______. Histórias da meia-noite. Rio de Janeiro: Garnier, 1873.