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#Contos#Literatura Brasileira

Pobre Finoca!

Por Machado de Assis (1891)

— Você, que já dançou com ele duas valsas e duas quadrilhas, e jantou à mesma mesa, e ouviu francamente as suas palavras, pode ter essa opinião; a minha é inteiramente contrária. Acho que ele é um cacete.

— Cacete porque gosta de você?

— Há diferença entre perseguir uma pessoa e dançar com outra.

— É justamente o que eu digo, acudiu Alberta; se você dançar com ele, verá que é outro; mas, não dance, fale só... Ou então, volto ao plano que tínhamos: vou falar-lhe de você, animá-lo...

— Não, não.

— Sim, sim.

— Então brigamos.

— Pois brigaremos, contanto que façamos as pazes na véspera do casamento.

— Mas que interesse tem você nisto?

— Porque acho que você gosta dele, e, se não gostava muito nem pouco, começa a gostar agora.

— Começo? Não entendo.

— Sim, Finoca; você já me disse duas palavras com a testa franzida. Sabe o que é? É um bocadinho de ciúme. Desde que soube do baile e do jantar, ficou meia ciumenta — arrependida de não ter animado o moço... Não negue; é natural. Mas faça uma coisa; para que Miranda não se esqueça de mim, vá você a S. Paulo, e trate de fazer-me boas ausências. Aqui está a carta que recebi ontem dele.

Dizendo isto, desabotoou um pedaço do corpinho, e tirou uma carta, que ali trazia, quente e aromada. Eram quatro páginas de saudades, de esperanças, de imprecações contra o céu e a terra, adjetivada e beijada, como é de uso nesse gênero epistolar. Finoca apreciou muito o documento; felicitou a amiga pela fidelidade do namorado, e chegou a confessar que lhe tinha inveja. Foi adiante; nunca recebera de ninguém uma epístola assim, tão ardente, tão sincera... Alberta deu-lhe uma pancadinha na face com o papel, e releu-o depois, para si. Finoca, olhando para ela, disse consigo:

— Creio que também ela gosta muito dele.

— Se você nunca recebeu uma assim — disse-lhe Alberta — é porque não quer. O Macedo...

— Basta de Macedo!

A conversa voltou ao ponto de partida, e as duas moças andaram no mesmo círculo vicioso. Não tenho culpa se eram escassas de assunto e de idéias. Hei de contar a história, que é curta, tal qual ela é, sem lhe pôr mais nada, além da boa vontade e da franqueza. Assim, para ser franco, direi que a repulsa de Finoca não era talvez falta de interesse nem de curiosidade. A prova é que, naquela mesma semana, passando-lhe pela porta o Macedo, e olhando naturalmente para ela, Finoca afligiu-se menos que das outras vezes; é certo que desviou os olhos logo, mas sem horror; não deixou a janela, e, quando ele, ao dobrar a esquina, voltou a cabeça, e não a viu fitá-lo, viu-a fitar o céu, que é um refúgio e uma esperança. Tu concluirias assim, rapaz que me lês; Macedo não foi tão longe.

— Afinal, o melhor é não pensar mais nela, murmurou andando.

Entretanto, ainda pensou nela, de mistura com a outra, viu-as ao pé de si, uma desdenhosa, outra atenciosa, e perguntou por que é que as mulheres haviam de ser diferentes; mas, advertindo que os homens também o eram, convenceu-se que não nascera para os problemas morais, e deixou cair os olhos no chão. Não caíram no chão, mas nos sapatos. Mirou-os bem. Que lindos que eram os sapatos! Não eram recentes, mas um dos talentos do Macedo era saber conservar a roupa e o calçado. Com pouco dinheiro, fazia sempre bonita figura.

— Sim — repetiu ele, daí a vinte minutos, Rua da Ajuda abaixo — o melhor é não pensar mais nela.

E pôs mentalmente os olhos em Alberta, tão cheia de graça, tão elegante de corpo, tão doce de palavras — uma perfeição. Mas por que é que, sendo atenta com ele, furtava-se lhe quando ele a mirava de certo modo? Zanga não era, nem desdém, porque daí a pouco falava-lhe com a mesma bondade, perguntava-lhe isto e aquilo, respondia bem, sorria, e cantava, quando ele lhe pedia que cantasse. Macedo animava-se com isto, arriscava outro daqueles olhares doces e ferinos, a um tempo, e a moça voltava o rosto, disfarçando. Eis aí outro problema, mas desta vez não fitou o chão nem os sapatos. Foi andando, esbarrou num homem, escapou de cair num buraco, quase não deu por nada, tão ocupado levava o espírito.

(continua...)

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