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#Contos#Literatura Brasileira

O último dia de um poeta

Por Machado de Assis (1867)

A carta continua; é toda no mesmo sentido; a impudência e a crueldade. Ah! se tu soubesses, Carlota, o que me fizeste e fazes ainda sofrer! ...

Sinto passos. É o médico. Fechemos a gaveta.

VII

— Bom dia, doutor.

— Viva, meu doente.

— Como me acha?

— A julgar pelas feições, melhor. Como passou a noite?

— Assim, assim.

— Mas por que não está deitado?

— Não posso. E nem quero. Seria incivilidade esperar a minha grande visita deitado numa cama.

— Que visita?

— A morte.

— Ora!

— Com certeza. Há de dizer-me que não. É o que se diz a todos os doentes. Parece que isto os anima. Mas se os anima, descuida-os; e é exatamente o que não me acontece. Estava eu agora cuidando de arranjar uns papéis, a fim de que nada me fique por arranjar quando eu mudar de domicílio...

— Deixe essas idéias.

— Entristece-se? Que faria quando eu lhe contasse a idéia que eu tive ontem?

— Que idéia foi?

— Foi a de mandar aprontar e medir eu mesmo o meu caixão...

— Faz um favor?

— Qual? doutor.

— Não fale assim.

— É fácil.

— Não fale, porque não só isso atrasa-lhe a cura, como ainda há de entristecer sua mãe.

— Mas eu não lhe digo nada...

— Não basta não dizer. É preciso mesmo nem falar. As mães são zelosas dos filhos, porque são mães. Muitas vezes andam a ouvir às portas, para ter certeza do estado dos filhos. Querem surpreendê-los na plena confiança que lhes dá a ausência delas... Tive uma suspeita: cuidei que minha mãe estivesse à porta.

Levantei-me e fui à porta. Não estava.

O doutor esperou-me sorrindo:

— Não está, mas podia estar, disse.

Voltei a sentar-me ao lado do doutor.

— Ouça bem, continuou ele, esta cisma constante de que há de morrer, estes trabalhos que tem e as suas forças atuais não comportam, tudo isso torna-o pior. Não vê como está ansiado...

— É a comoção.

— Já estava quando eu entrei. Ora pois, não pense mais em coisas tão lúgubres, e sobretudo não se ocupe de coisa alguma. Vamos lá: tomou os remédios?

— Tomei.

— E então?

— Ontem não senti melhoras algumas; agora estou melhor um pouco, apesar da ânsia.

— Ânsia é por culpa sua... Aposto que esteve a escrever versos.

— Não.

— Nem deve ocupar-se com isso. Há de ser bonito se escreve alguma poesia em que fale da morte e do que vai deixar, e depois de três meses fica-me aí são como um pero... Minha resposta foi sorrir-me.

— Ande deitar-se um pouco.

— Para quê?

— Porque a minha visita é mais longa hoje que de costume, e eu não quero que se canse. Vá deitar-se, deite-se e conte-me uma história.

— Obedeço. Que história quer?

— Uma história de meninos. As três cidras, O príncipe formoso...

Refleti um pouco e respondi:

— Contar-lhe-ei uma história interessante! um pouco velha, mas instrutiva.

VIII

Conheci um rapaz, poeta como eu, e como eu crente, a mais não poder ser, nas melhores ilusões desta vida.

Não era rico, devia viver por si; todavia, pôde alcançar meio de preparar-se para uma profissão literária. Foi estudar. Tinha ao lado das ilusões grande bom senso, e a ele deveu correr os primeiros anos de seus estudos sem cair nos laços do amor. Teve algumas fantasias, mas fantasias simplesmente, que começavam e acabavam na mesma noite. A sorte preparara-lhe... Abre a boca, doutor? A história o adormece?

— Não; pode continuar.

— A sorte preparara-lhe um golpe profundo, para castigá-lo do critério com que soube fugir às tentações que encontrou. Depois de muitas circunstâncias que não vêm ao caso, achou-se diante de uma mulher. Imagine o doutor que essa mulher era bela. Imagine mais que estava em circunstâncias especialmente romanescas. Acabava de perder o marido que na idade de dezesseis anos seus pais lhe tinham obrigado a tomar. Contava então vinte e dois, e a morte daquele homem, se não lhe matou a alma, porque a alma não se achava ligada a ele, deu-lhe certa tristeza e arrancou-lhe algumas lágrimas, o que era nela um fundo de honestidade e pureza.



(continua...)

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