Por Machado de Assis (1892)
Sentou-se na cama um tanto reclinado, e cruzou as mãos sobre o estômago. Notou que não tinha fome, mas também comera bem no baile. Ah! os bailes que ele havia de dar, com ceia, mas que ceias! Aqui lembrou-se que ia pôr água na boca aos companheiros da Secretaria, contando-lhes a festa e as suas fortunas; mas não as contaria com ar de pessoa que nunca viu luxo. Falaria naturalmente, aos pedaços, quase sem interesse. E compôs alguns trechos de notícias, ensaiou de memória as atitudes, os movimentos. Talvez algum o achasse com olheiras. — “ — Não, responderia ele, fui ao baile . — “ — “. E continuou assim o provável diálogo, compondo, emendando, riscando palavras, mas de maneira que acabasse contando tudo sem parecer que dizia nada. Diria o nome de Ermelinda ou não? Este problema gastou-lhe mais de dez minutos; concluiu que, se lho perguntassem, não havia mal em dizê-lo, mas não lho perguntando, que interesse havia nisso? Evidentemente nenhum.
Ficou ainda outros dez minutos, pensando à toa, até que deu um salto, e pôs as pernas fora da cama.
— Meu Deus! Há de ser tarde.
Calçou as chinelas e tratou de ir às abluções; mas logo aos primeiros passos, sentiu que as danças o tinham fatigado deveras. A primeira idéia foi descansar: tinha para isso uma
excelente poltrona, ao pé do lavatório; achou, porém, que o descanso podia levar longe e não queria chegar tarde à Secretaria. Iria até mais cedo; às dez e meia, no máximo, estaria lá. Banhou-se, ensaboou-se, deu-se todo aos cuidados pessoais, gastando o tempo do costume, e mirando-se ao espelho, vinte e trinta vezes. Também era costume. Gostava de ver-se bem, não só para retificar uma coisa ou outra, mas para contemplar a própria figura. Afinal começou a vestir-se, e não foi pequeno trabalho, porque era meticuloso em escolher meias. Mal tirava umas, preferia outras; e já estas lhe não serviam, ia a outras, tornava às primeiras, comparava-as, deixava-as, trocava-as; afinal, escolheu um par cor de canela, e calçou-as; continuou a vestir-se. Tirou camisa, meteu lhe os botões e enfiou-a; fechou bem o colarinho e o peito, e só então foi à escolha das gravatas, tarefa mais demorada que a das meias. Costumava fazê-lo antes, mas desta vez estivera pensando no discurso que dispararia ao diretor, quando este lhe dissesse:
— Ora viva! Muito bem! Hoje madrugou! Vamos à cópia.
A resposta seria esta:
— Agradeço os cumprimentos; mas pode o sr. diretor estar certo que eu, comprometendo-me a uma coisa, faço-a, ainda que o céu venha abaixo. Naturalmente, não gostou do final, porque torceu o nariz, e emendou: — ...comprometendo-me a uma coisa, hei de cumprí-la fielmente.
Isto é que o distraiu, a ponto de vestir a camisa sem ter escolhido a gravata. Foi às gravatas e escolheu uma, depois de pegar, deixar, tornar a pegar e a deixar umas dez ou onze. Adotou uma de seda, cor das meias, e deu o laço. Reviu-se então longamente no espelho, e foi às botas, que eram de verniz e novas. Já lhes tinha passado um pano; era só calçá-las. Antes de as calçar, viu no chão, atirada por baixo da porta, a Gazeta de Notícias. Era uso do criado da casa. Levantou a Gazeta e ia pô-la na mesa, ao pé do chapéu, para lê-la ao almoço, como de costume, quando deu com uma notícia do baile. Ficou pasmado! Mas como é que podia a folha de manhã noticiar um baile, que acabou tão tarde? A notícia era curta, e podia ter sido escrita antes de terminar a festa, à uma hora da noite. Viu que era entusiástica, e reconheceu que o autor havia estado presente. Gostou dos adjetivos, do respeito ao dono da casa, e advertiu que entre as pessoas citadas figurava o pai de Ermelinda.. Insensivelmente sentara-se na poltrona, e indo dobrar a folha, deu com estas palavras em letras grandes: “ A narração era longa, entrelinhada; começou a ver o que seria, e, em verdade, achou que era gravíssimo. Um homem da Rua das Flores matara a mulher, três filhos, um padeiro e dois policiais, e ferira a mais três pessoas. Correndo pela rua fora, ameaçava a toda a gente, e toda a gente fugia, até que dois mais animosos puseram-se-lhe em frente, um com um pau, que lhe quebrou a cabeça. Escorrendo sangue, o assassino ainda corria na direção da Rua do Conde; aí foi preso por uma patrulha, depois de luta renhida. A descrição da notícia era viva, bem feita; Barreto leu-a duas vezes; depois leu a parte relativa à autópsia, um pouco por alto; mas demorou-se no depoimento das testemunhas. Todas eram acordes em que o assassino nunca dera motivo de queixa a ninguém. Tinha 38 anos, era natural de Mangaratiba e empregado no Arsenal de Marinha. Parece que houve uma discussão com a mulher, e duas testemunhas disseram ter ouvido ao assassino: “ Outras não acreditavam que as mortes tivessem tal origem, porque a mulher do assassino era boa pessoa, muito trabalhadeira e séria; inclinaram-se a um acesso de loucura. Concluía a noticia dizendo que o assassino estivera agitado e fora de si; à ultima hora ficara prostrado, chorando, e chorando pela mulher e pelos filhos.
(continua...)
ASSIS, Machado de. O caso Barreto. A Estação. Rio de Janeiro, 1892.