Por Machado de Assis (1858)
Pelas risadas com que ouvia as chufas
Do ínclito prelado, de quem era
Convencido capacho,e que esperava [11]
A posição haver de Vilalobos
Que a tribo lhe empregou dos seus parentes.
Esse era o pregador das grandes festas,
De tal quilate e tão profunda vista,
Que quando orava em dias de quaresma
Analisava os textos, e exprimia
O doutrina evangélica de modo
Que a não reconhecera o próprio Cristo.
VII
Segue-se o impávido escrivão Cardoso,[12]
Que mede nove palmos de estatura,
E tem força no pulso como gente,
E inda é mais destemido que forçoso.
O Lucas, com quem foi ingrata e avara,
Ao dar-lhe entendimento, a natureza,
Também ali com eles palestrava.
E, sem nada entender, de tudo ria;
Mas sendo sempre igual a madre nossa
Em estômago o cérebro compensa
Ao gordo comilão, que não contente
De devastar as nobres iguarias
Quando na casa do prelado come,
Com os olhos devora, inda faminto,
A tamina dos pretos da cozinha.
Vinha depois o Nunes, o Duarte,
E quatro ou cinco mais; porém faltava
Meia dúzia de padres venerandos,
Em quem poder não teve a Gula nunca,
Nem a mole Preguiça, e que enjoados
Da vida solta que viviam esses,
As sandálias à porta sacudindo,
Da aborrecível casa se alongaram
Levando n'alma a austeridade antiga
E a pureza imortal da santa igreja.
VIII
Os mais deles em frívola conversa,
Os sucessos do dia comentavam.
Ali o alcaide-mor e o seu governo,
Entre contínuas mofas e risadas,
Dos amáveis ferrões picados eram,
E bem assim o temerário Mustre
Que de si mesmo cheio, presumia
Ter o rei na barriga, e na cabeça
Toda a ciência humana concentrada.
Vinha depois algum picante caso
De monacal discórdia, ou de profana
Namoração que o Nunes abelhudo,
Para o baço espraiardo grande Almada, [13]
E fazer jus às boas graças dele,
Pelas ruas colhia, e temperava
De combinadas pausas e trejeitos.
IX
Finalmente falavam da aventura
Do almotacé Fagundes, que, dançando
Na Rua do Alecrim com suma graça
Tão derretido contemplava as moças
Que de ventas caiu no pó da sala.
Ao vê-lo na ridícula postura,
Desataram a rir as cruéis damas,
Os gemidos cessaram das rebecas
E pôs-se toda a casa em rebuliço;
Até que o triste e pálido gamenho,
O corpo levantando e mais o ramo
De flores que tio peito atado havia
Foi na cama chorar o seu desastre.
X
Iam assim as horas desfiando
Os mandriões sagrados, quando a nova
Da vitória das duas gordas culpas
Troa às orelhas da terrível Ira.
Sobre um campo voando de batalha
Ela os olhos pascia; ela no sangue
Satisfeita mirava o duro rosto;
Súbito estaca; as ríspidas melenas
Impetuosa sacode; e, sufocando
Um rugido feroz dentro do peito,
Rompe, como um tufão, da terra às nuvens,
Os ares corta e à bela terra desce
Que houve de Santa Cruz a lei e o nome,
Enfim assoma ao áspero penedo
Que a jovem Niterói, como atalaia,
Eternamente guarda. Alguns instantes
Dali contempla os tectos da cidade,
E outra vez devolvendo impetuosa
As rubras asas, atravessa o golfo,
E firma os pés na desejada praia.
XI
Tudo jazia em paz. Eis que um barbeiro
Que de um vizinho escanhoava o rosto,
De mil alheios casos discursando,
Irrita-se de súbito, e de um golpe
Acaba no freguês a barba e a vida.
Não distante, no célebre Colégio,
Dous enxadristas de primeira plana
Uma grave batalha pelejavam
Assentados na cerca. O Doutor Lopes,
Não sei se com razão, se por descuido,
Come um cavalo ou torre ao Padre Inácio.
Este reclama; aquele encolhe os ombros;
Encaram-se com gesto de desprezo,
Passam do gesto à voz, da voz ao pulso,
Engalfinham-se, rolam pela terra,
Bufam, rasgam-se, mordem-se, desunham-se,
E assim mordidos e rasgados ambos
No chão sem vida longo tempo jazem.
XII
E também ela à fresca sombra posta
Do copado arvoredo, reclinada
Sobre a urna gentil das águas suas,
A Carioca estremeceu. Nas veias
Sente pular-lhe o sangue. Rubras flores
De cajueiro e parasitas que ela,
Para toucar-se, coos mimosos dedos
Entretecia, desparzidas todas
As lançou na corrente. Qual outrora
Quando por essas praias ressoava
(continua...)
ASSIS, Machado de. O Almada. Rio de Janeiro: Paula Brito, 1858.