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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

O entusiasmo, respeito e admiração que excitava Itajiba, ainda mais se aumentou com a distribuição dos imensos e ricos despojos que tomara ao inimigo, e de que trazia atulhadas as canoas. Distribuiu entre os homens grande quantidade de armas de todas as qualidades, facas e punhais com ricas guarnições de prata, lanças, espadas e armas de fogo, das quais lhes ensinava o uso e o modo de servir-se delas, e mil outros objetos. Às mulheres brindava com jóias, enfeites e fazendas de toda a espécie, que elas não se fartavam de admirar com vivas mostras de alegria e satisfação.

Também para Oriçanga reservou Itajiba preciosos e magníficos presentes, que deslumbraram as vistas do velho cacique, se bem que nem de leve lhe fascinassem a alma afeiçoada à simplicidade e rudeza da vida selvática. Entre outros objetos ofereceu-lhe, preso a uma cadeia de fino e puro ouro, um lindo relógio, do qual explicou-lhe a natureza e utilidade.

— Ah! murmurou o velho em tom merencório, agradeço-te o mimo precioso que me ofertas, e que dá uma alta idéia do artificioso engenho desses que foram teus senhores; mas porventura o sol e a lua não me têm bastado até hoje para marcar no céu o tempo que vai passando? o pouco que me resta viver, que me importa medi-lo?... Tupá lá do alto do céu conta os meus dias, e quando lhe aprouver ele os cortará... Mas já te compreendo, Itajiba; tu julgas, e com razão, que o tempo que ainda me resta passar sobre a terra já não pode ser contado por sóis nem por luas, mas somente por essas pequeninas porções que estão marcadas neste instrumento.

— Não, respeitável cacique, volve-lhe Itajiba; tal pensamento não me podia passar pelo espírito; inúmeros sóis podem ainda surgir sobre teus dias, e preserve-nos o céu de ver tão cedo tombar o cedro altaneiro a cuja sombra se tem abrigado e engrandecido a valorosa nação dos Chavantes. Mas eis aqui um bálsamo divino, que te regenerará o sangue, e te restaurará as forças alquebradas pelo tempo. Prova dele, Oriçanga, e sentirás renascer-te o vigor e girar-te nas veias um sangue cheio de vida e calor como nos mais belos dias de tua mocidade.

Dizendo isto Itajiba apresenta ao cacique um copo de cristal cheio de um purpúreo e generoso vinho.

— É sem dúvida delicioso, exclamou Oriçanga depois de ter tomado alguns sorvos; tal deve ser a bebida que se serve aos heróis no mundo dos espíritos nos festins e folguedos do Ibaque! Não é um licor que me deste a beber, Itajiba, é sangue novo e juvenil que me entornaste nas veias, e que me restitui o alento e vigor dos verdes anos.

E o velho cacique, com a imaginação aquecida pelos balsâmicos vapores daquele suave licor, entrevendo no futuro mil venturas e glórias para Itajiba e para sua querida Guaraciaba, sentiu um suave languor apoderar-se de seu corpo, e adormeceu entre sonhos dourados sobre a sua enorme pele de onça.

O guerreiro vitorioso, feliz amante de Guaraciaba, pendurou com suas mãos ao colo dela um lindo colar de ouro com uma cruz crivada de diamantes, obra primorosamente trabalhada pelos afamados ourives de Vila Boa. Itajiba, que a despeito dos desvarios e excessos de sua vida desordenada conservava sempre singular aferro e veneração pela religião de seus pais, queria desde logo ir familiarizando com os objetos sagrados de seu culto o espírito daquela a quem tanto amava, e a quem esperava em breve chamar ao grêmio do cristianismo. Guaraciaba não conhecia o símbolo santo de nossa religião, mas vendo que Itajiba ao entregar-lhe o tinha beijado respeitosamente, imitou-o com cândida ingenuidade.

Deslumbrados com os brilhantes sucessos da expedição de Itajiba, e embriagados com o esplendor dos festins que os celebravam, os Chavantes quase que se esqueciam de Inimá e de seus bravos companheiros, dos quais nem a mais leve notícia havia ainda chegado às tabas. A estrela do jovem e infeliz cacique empalidecia visivelmente diante do astro deslumbrante de seu afortunado rival. O mundo, quer entre os selvagens, quer nas sociedades civilizadas, é sempre assim. O feliz e poderoso é sempre querido, festejado e aplaudido; mas aquele a quem a fortuna abandona, esse deve dar-se por contente quando lhe testemunham um pouco de estéril e fria compaixão.

Os triunfos de Itajiba foram celebrados com grandes e extraordinários festejos, que duraram por três dias. As ribas do Tocantins troaram longamente ao som de músicas selváticas, de ruidosas aclamações, de danças guerreiras e de mil variadas folganças. Três sóis volveram-se rápida e alegremente em contínuos banquetes e regozijos.

No último dia um estrado ou palanque todo enramado de palmas de coqueiro, e enfeitado de flores silvestres, tinha sido erigido bem junto à margem a espelhar-se nas águas do rio; nos quatro ângulos tremulavam-lhe vistosos penachos de longas e ondulantes penas de ema tingidas de variadas e brilhantes cores. A um e outro lado desse estrado estavam estendidas duas filas de guerreiros, revestidos de suas mais luzidas armas e garridos aviamentos, com suas lanças e tacapes emplumados.

(continua...)

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