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#Romances#Literatura Brasileira

Memorial de Aires

Por Machado de Assis (1908)

Despediu-se e saiu. Quis sair logo, mas vim primeiro escrever isto, para que me não esqueça, como lá digo atrás. E agora que o escrevi confirmo a impressão que me deixou o rapaz, e foi boa, como a principio. Talvez ele tenha alguma dissimulação, além de outros defeitos de sociedade, mas neste mundo a imperfeição é coisa precisa. Pronto; vou sair, e amanhã ou depois irei saber da paisagem ou da marinha da bela Fidélia.

28 de outubro

Nem marinha nem paisagem, não soube de nada. Fidélia não tem aparecido no Flamengo, e escreveu hoje à velha amiga um bilhete de desculpas; está tomando as contas ao tio, que voltou ontem da fazenda. Não me lembra se já escrevi que o Banco do Sul é que fará a transferência de Santa-Pia.

D. Carmo, a pretexto do estilo, deu-me o bilhete a ler. Tem graça, decerto, mas o verdadeiro motivo é a ternura que ela sente em ler a amiga e fazê-la ler aos outros. Depois que lho restitui, leu-o outra vez para si. Já devia trazê-lo de cor. Em meio disto achou modo de aprovar a minha idéia do filho pintado pela filha, ouvida ao Tristão.

— Hei de dizê-la a Fidélia.

Tristão não estava presente; fora jantar com um ministro. Francamente, era mais fácil à moça prometer que pintar a marinha. O que a boa Carmo disse que faria penso que o não fará; não irá propor à viúva que venha copiar a figura do afilhado na marinha do Flamengo. A familiaridade que haja porventura entre eles não se ajustará muito a esta ação de arte, incômoda ou não sei que diga. . .

Suspendo aqui a pena para ir dormir, e escreverei amanhã o resto da noite.

29 de outubro

O resto da noite foi passado em casa do Faria. Eram anos dele e estive lá mais tempo do que contava. Havia gente e alegria, algum canto e piano, e também conversa.

Faria, apesar do dia e da festa, ria mal, ria sério, ria aborrecido, não acho forma de dizer que exprima com exação a verdade. É um desses homens nascidos para enfadar, todo arestas, todo secura. A mulher, D. Cesária, estava alegre e tinha a pilhéria do costume. Não disse mal de ninguém por falta de tempo, não de matéria, creio; tudo é matéria a línguas agudas. A maneira por que aprovava alguma coisa era quase sarcástica, e difícil de entender a quem não tivesse a prática e o gosto destas criaturas, como eu, velho maldizente que sou também. Ou serei o contrário, quem sabe? No primeiro dia de chuva implicante hei de fazer a análise de mim mesmo.

Quando sai de lá, Faria agradeceu-me, com o seu prazer nasal e surdo,—assim defino as palavras que lhe ouvi, acompanhadas de um fugaz sorriso de cárcere.

1 de novembro

Este é o dia de todos os santos; amanhã é o de todos os mortos. A igreja andou bem marcando uma data para comemorar os que se foram. No tumulto da vida e suas seduções, fique um dia para eles... A reticência que aí deixo exprime o esforço que fiz para acabar esta página em melancolia; não posso, nunca pude. Tristezas não são comigo. Entretanto, em rapaz,—quando fiz versos, nunca os fiz senão tristíssimos. As lágrimas que verti então, — pretas, porque a tinta era preta,—podiam encher este mundo, vale delas.

2 de novembro

Mana Rita foi hoje ao cemitério levar flores aos nossos.

— Você não imagina; acordei às cinco e meia para me vestir e estar cedo em S. João Batista. Cheguei às oito e pouco; achei muita gente, não tanta, porém, como há de ser logo, à tarde. Não vim buscar você, porque sei que não iria.

— Pois eu fui à missa da Glória.

— A igreja é perto.

— Talvez fosse ao cemitério. Muitas sepulturas bonitas?

— Bastantes; entre elas a do marido de Fidélia. As coroas e flores que ela encomendou há dias lá estavam bem dispostas e faziam grande efeito; parece que o desembargador mandou também o seu ramo; estava escrito numa fita.

— Vocês falaram-se?

— Não; ela já tinha saído.

— Como sabe você que ela é que foi levar as flores e coroas?

— Adivinha-se pela disposição.

— Sim?

— Decerto, mano. A disposição, o arranjo, a combinação, tudo era de mulher. Há dessas coisas que mão de homem não faz; mão de homem é pesada ou trapalhona, e mais se é de desembargador, como ele. Por exemplo, o nome do marido, o nome próprio só, não todo, estava cercado de perpetuas; isto é coisa que só uma senhora inventa e faz. As outras flores, rosas e papoulas, distribuiam-se com tal simetria que pediu tempo e gosto. Um homem chegava ali, pegava das flores e espalhava-as à toa.

— Admira que você a não visse.

— É que foi muito cedo.

— Mas num dia como o de hoje, tendo tanta coisa que arranjar. Daquela vez que a encontramos era mais tarde.

— Era, mas o dia era outro; hoje havia muita gente, não quis que a vissem, é o que foi.

Mana Rita desenvolveu esta idéia, que achei aceitável; depois falou dos outros jazigos. Como dos jazigos passamos ao ministério e a D. Cesária não me lembra, mas falamos dele e dela com interesse, e a mana com graça. Tinham estado juntas as duas, ontem à tarde; Rita desculpara-se de não ter lá ido no dia 2%. Contou-me parte do que lhe ouviu acerca de duas pessoas que lá estiveram...

— Que lá estiveram?

— Parece que sim.

(continua...)

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