Por Machado de Assis (1876)
Mas com grande penitência, não?
A mais fácil de todas, acudiu Helena, olhando para o padre.
Oh! então é que os pecados são leves! concluiu D. Úrsula. Não lhe parece?
Estas últimas palavras foram dirigidas a Mendonça, na ocasião em que todos caminhavam para a mesa. Mendonça não respondeu nada. Contra o costume, falava pouco, — menos ainda que na véspera e nos dias anteriores. D. Úrsula via a diferença mas não a compreendia.
Não quero saber que pecados confessou, disse ela sentando-se; estou certa de que o maior deles não levaria ninguém ao purgatório.
Veja o que é uma tia indulgente, observou Helena a Mendonça, sentando-se ao seu lado.
Preocupado com a conversa que acabava de ter na sacristia e na chácara, Melchior pouca atenção prestou a princípio ao filho do comerciante. Analisava as circunstâncias do momento e pesava a responsabilidade que lhe podia vir de qualquer resolução que adotasse. Após um longo diálogo com a consciência, o velho sacerdote inclinou os olhos ao mancebo, que lhe ficava defronte, ao lado de Helena. Viu-os conversar. Ela mostrava-se graciosa, solícita e atenta, como uma esposa amante; ele parecia enamorado da voz e das falas da donzela; como que um clarão interior lhe desvendara à alma os horizontes infinitos da esperança. Familiarizado com Helena, tratado por ela com esquisita atenção, era contudo a primeira vez que ela lhe falava, não como a um confidente amigo, mas como a um homem que poderia vir a ser seu esposo. Alguma seriedade, um olhar submisso, uma atenção continuada, fizeram essa diferença, que antes foi sentida pelo coração do que descoberta pelos olhos.
No fim do almoço, Melchior dirigiu-se para a sala de visitas, com Helena. Mendonça acompanhou-os. A resolução do padre estava assentada de raiz; ele aceitava aquele casamento como um presente do céu. Apenas entrados na sala, travou as mãos de um e outro e lhes disse, com voz comovida:
Prometem não zangar-se comigo?
Por quê? interrogou Mendonça com os olhos. Helena baixara os seus.
Prometem?
Padre-mestre... começou Mendonça sem poder concluir a frase.
O padre olhou silenciosamente para um e outro. Talvez hesitava falar; talvez buscava o melhor meio de dizer o que tinha no coração. Urgia romper o silêncio; fê-lo com solenidade:
Serei duas vezes padre: segundo a natureza e segundo o Evangelho. Quando duas criaturas se merecem, é servir a Deus emprestar a voz ao coração que não ousa falar. O senhor ama esta menina; leio-lhe nos olhos o sentimento que o arrasta para ela; são dignos um do outro. Se é a timidez que lhe fecha os lábios, eu sou a voz da verdade e do amor infinito; se outro motivo, serei juiz complacente para escutá-lo.
Ouvindo estas palavras, Mendonça ficou aturdido e mudo. Não só a fortuna lhe chegava às mãos, quando ele menos esperava, mas até escolhera um caminho desusado e estranho. A realidade confundia-se ali com o sonho. A presença de um terceiro era suficiente motivo para acanhar os mais resolutos; acrescia a veste sacra do sacerdote, que dava aquilo um ar de solenidade e consagração. Mendonça recobrou, enfim, o uso dos sentidos; a resposta única e eloqüente foi estender a mão a Helena, gesto a que a moça correspondeu com simpleza e naturalidade.
Não se enganaram meus olhos, disse o padre. Ama-a, e pode dar-lhe a felicidade que lhe desejo a ela. Também Helena o fará venturoso, não? Perguntou ele, voltando-se para a moça.
Mas é isto um sonho? perguntou enfim Mendonça.
A vida não é outra coisa, retorquiu o capelão; velho pensamento e velha verdade. Façamos por que o sonho seja agradável e não árido ou triste. Prometem-me que se farão felizes?
Não ambiciono outra coisa, disse o rapaz; será o meu cuidado e a minha glória.
Seu amor, continuou Melchior, é mais forte que o de Helena; eu consultei-a antes, e li em seu coração. Elege-o com prazer, embora sem entusiasmo. Não é a paixão cega que a faz falar; é um sentimento brando e singelo, por isso mesmo duradouro. A reflexão de um corrigirá a violência do outro, e os dois sentimentos se completarão pela virtude especial de cada um.
Esta explicação franca de Melchior teve o condão de ser agradável aos dois. Helena estimou que ele nem lisonjeasse as ilusões de Mendonça, nem a desse como aceitando indiferente e estouvada o casamento proposto. Pela sua parte, Mendonça viu nas palavras do padre um indício da sinceridade de Helena, e aceitou o pouco oferecido, com a certeza de multiplicá-lo. O caráter de Melchior e a veneração que mereciam suas virtudes, eram fianças de veracidade e davam ao ato singelo que ali se passava, um forte cunho de santidade e elevação. Não era uma vulgar declaração de amor, sujeita às variações do espírito ou do interesse, mas verdadeiros esponsais em que a religião era inspiradora e testemunha.
CAPÍTULO XVII
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.