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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

A glória de iniciador das confeitarias na cidade do Rio de Janeiro pertence ao italiano Francioni que antes de 1824 já tinha estabelecido confeitaria na Rua Direita exatamente onde se acha a dos Srs. Santos & Ferreira; o Carceller; porém, não só anos depois comprou o estabelecimento do Francioni, como já o tinha excedido muito na sua confeitaria da Rua do Ouvidor em variedade e primor de refrescos, de lunch, que então se chamavam petiscos, e sobretudo na excelência de ceias servidas em sala discreta no fundo da casa.

O Carceller foi, pois, não o mais antigo, o mais notável, porém, dos chefes de confeitarias do Rio de Janeiro, e não lhe amesquinha a boa nomeada que deixou a simples precedência do Francioni e menos o fato não averiguado da, ainda mais antiga, saleta de pasto de Perpétua Mineira.

O Carceller floresceu na sua confeitaria da Rua do Ouvidor; refrigerando seus numerosos fregueses com água imperial e outras águas gasosas, com ótimas cajuadas e outros refrescos, e satisfazendo-lhes o apetite com empadas, pastéis, gulodices e doces; mas à noite as ceias do Carceller gozavam notável celebridade, e eram apreciadas na sala discreta por cavaleiros da sociedade distinta e de elevada posição social.

Um dos habituais fregueses das ceias do Carceller era Francisco Gomes da Silva, por alcunha o Chalaça, português de nascimento, gentil-homem da corte imperial, e amigo dedicado de D. Pedro I, que o estimava muito.

O Chalaça, quando não estava de serviço no paço, era certo com escolhida companhia naquelas ceias.

Tão sabido já era esse gozo de folgança, que uma noite, em 1828, o Imperador D. Pedro I, desejando falar ao Chalaça, não fez cerimônia, entrou de improviso na confeitaria e disse ao Carceller; que logo se apresentou:

- O Chalaça está sem dúvida ceando lá dentro; chame-o.

O Chalaça imediatamente veio apresentar-se respeitosamente, mas sorrindo.

O Imperador disse-lhe algumas palavras em voz baixa, e o Chalaça respondeu em tom mais alto e como que brincalhão.

- Senhor, eu perco hoje metade da ceia, mas em compensação Vossa Majestade me fará almoçar duas vezes amanhã.

E saiu, acompanhando o Imperador.

Este fato não teria importância se não desse idéia de certas inadvertências, aliás próprias do caráter franco e expansivo de D. Pedro I, e que mais de uma vez o prejudicaram.

Quem sabe os juízos que naquela noite fizeram sobre o caso o Carceller; seus caixeiros e os sócios de ceia do Chalaça?

Francisco Gomes da Silva, alcunhado Chalaça por muito gracejador, passou por chefe da camarilha secreta que, influindo muito no ânimo do Imperador, fazia e desfazia ministérios, e inconstitucionalmente predominava na política do Estado.

Que o Chalaça entrasse às vezes em intrigas palacianas, é provável; que fosse o mais apropriado para levá-las ao Imperador, é certo; porque este gostava de ouvi-lo chalaçar; confiava em sua amizade, e o autorizava a grandes liberdades; mas em sua influência política predominante não creio: por seu próprio gênio altivo D. Pedro I a não toleraria, e, além disso, o Chalaça, homem de espírito faceto, de algum talento, mas sem instrução e sem idéias políticas, não podia ser chefe de camarilha.

O Chalaça era dedicadíssimo criado e amigo particular de D. Pedro I; servia-o, fazia-o rir, chalaçando; aproveitou-se da sua privança para ser útil a muitos afilhados e protegidos seus; mas em assuntos de governo do Estado a sua política inalterável consistiu em julgar sempre excelente e ótima a política do Imperador; qualquer que ela fosse.

Dizem alguns dos homens da corte do Primeiro Reinado que, ao contrário do que naquele tempo a oposição liberal propalava, era o Chalaça quem mais severas e duras verdades fazia ouvir a D. Pedro I, com seu direito de íntimo e chalaçador amigo; isso eu não sei, nem posso assegurá-lo.

O Marquês de Barbacena, entrando para o ministério em 1829, com pretensões de chefe de gabinete à inglesa, conseguiu que se retirassem do Rio de Janeiro para a Europa o Chalaça e outro cortesão indicado como segunda influência de camarilha, o que não impediu sua ruidosa demissão de ministro no ano seguinte. Ainda uma informação, e a última:

O Chalaça, anos depois, conversando em Lisboa com ilustradíssimo brasileiro, diplomata mais tarde em retiro, pretendia ter concorrido com os seus conselhos mandados em cartas a D. Pedro I para a abdicação deste em 1831.

Creio nas cartas; elas, porém, não provam que o Chalaça fosse político; escrevia-as no empenho dinástico de D. Maria II, e na esperança do sonhado império ibérico, no interesse do seu amo e amigo. Os políticos estavam em Londres, e foram esses os que influíram no ânimo de D. Pedro I, levando-o às vacilações e inconseqüências de sua atitude em março e até 6 de abril de 1831.

Ora eis aí como uma idéia puxando outra meti-me em coisas de história política, quando só pensava lembrar a casa do Carceller!

Perdoem-me esta amolação.

(continua...)

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