Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Tudo isto indica que a paz ainda vem longe: a Rússia, exaltada com as suas últimas vitórias, sentindo-se fortemente apoiada pela Alemanha e tendo todas as razões para se julgar apoiada pela Áustria, alarga as suas pretensões, e quase não oculta que planeia a desmembração do Império Otomano; a Turquia, pelo seu lado, exasperada pela humilhação das derrotas, tendo adquirido com as primeiras vitórias uma extrema confiança em si mesma, animada pela atitude activa da Inglaterra, pressentindo a proximidade de uma intervenção em seu favor, objecta, mais que nunca, a meter a espada na bainha: e os sofrimentos na Bulgária e na Ásia, agora que as inclemências se vêm juntar aos desastres da guerra, ameaçam protrair-se indefinidamente. E, para haver mais uma acha na fogueira, a Sérvia acaba de lançar o seu exército de aventura sobre a Turquia meio vencida. O procedimento do príncipe Milan e do Governo sérvio é aqui julgado (mesmo pelos inimigos da Turquia) com uma severidade em que há mais desprezo que indignação. Alguns jornais mesmo afectam não tocar no assunto, como muito vil para uma pena honesta. Com efeito, a Sérvia tem-se comportado pulhamente: batida pela Turquia, quase sem esforço, tratada de covarde pelo imperador da Rússia no célebre discurso de Moscovo, aceita com reconhecimento uma paz que as nações mendigaram para ela, e obriga-se por um tratado a conservar-se neutral, forem quais forem as ocorrências: a Rússia declara a guerra, e no primeiro momento parece levar de vencida os exércitos otomanos; a Sérvia logo, com a cobardia de quem é forte para com homem derrubado, tira metade da espada fora da bainha; mas as coisas mudam, e é a Turquia que sobre toda a linha ganha vitórias decisivas; imediatamente a Sérvia esconde a espada e dá parabéns cortesãos ao sultão. Os Turcos são de novo batidos na Arménia e no Danúbio, e eis a Sérvia a menear-se num repentino impulso guerreiro; Plevna cai, e a Sérvia une-se ao imperador, que a tratou publicamente de covarde, e contra todas as leis da honra e todos os deveres da coragem vai dar na Turquia o coice do asno! Não me espanto de que o Daily Telegraph trate o príncipe Milan de biltrezito!

Estamos em férias do Natal; é esta a época das festas de família, do plum-pudding e de uma praga de versos, de publicações, de baladas, de contos alegóricos, de cromos-litografias, celebrando o velho ano, o bom Christmas, o ano novo e as doçuras do lar! O Natal dá lugar a uma singular espécie de literatura, que é para as letras o que o plum-pudding é para a confeitaria – um produto pesado e indigesto que todo o mundo gosta de ver sobre a mesa, em que ninguém toca e que a gente grande estima pela alegria que dá às crianças. E sobretudo para as crianças que são escritas estas poesias piegas e estas histórias de fantasmas, desenhadas estas vistas convencionais da neve e estas figuras grotescas da caridade. Os jornais ou revistas, todas as publicações, põem de parte o bom senso, a ciência ou a arte e dedicam um número a estas criancices, que se chama o «número de Natal», e que, pela venda prodigiosa que tem, constitui um dos rendimentos das publicações inglesas. Os teatros fazem o mesmo: e todos, sem excepção, representam nesta época a pantomima, espécie de mágica desordenada, cheia de transformação, de bailados e de glórias, onde aparecem simultaneamente actores, palhaços, cães sábios, virtuosos ilustres, feras, dançarmos célebres, habitantes de países exóticos (lapónios ou patagónios), macacos, esquadrões de cavalaria e cascatas naturais! Estas representações duram três meses, e toda a família verdadeiramente inglesa e que respeita as tradições vai ver a pantomima pelo menos três vezes, com todas as crianças e todos os criados: é uma solenidade doméstica.

De resto o tempo tem estado esplêndido, em toda a Inglaterra; neve e sol: de noite a neve cai para dar a sua beleza especial aos campos e às cidades; de dia o sol vem para iluminar a neve e fazer o ar alegre. Já se patina, porque toda a água parada está gelada. Temos tido oito a dez graus abaixo de zero (centígrados).

Depois do Natal começa a emigração da gente rica para o Sul. O lugar favorito é a formosa ilha de Wight, onde há bosques de camélias e erra no ar de Inverno uma perpétua reminiscência da Primavera. A propósito da ilha de Wight, um amigo meu que de lá veio contame uma deliciosa anedota sobre o ilustre Tennyson, o maior poeta de Inglaterra e do seu tempo, talvez.

Tennyson vive na ilha de Wight, no seu delicioso retiro cheio de flores e de pássaros: está velho agora, e a sua qualidade característica, que foi sempre a modéstia, tem tomado sempre com os anos uma intensidade exagerada: não há nada que o sublime poeta de Locksley Hall, de Mand e dos Idílios de El-Rei deteste mais do que ver um curioso contemplá-lo. Tennyson é pessoalmente uma figura poética, e os seus longos cabelos brancos, em anéis, a sua comprida barba nevada e a extraordinária doçura dos seus olhos exercem um encanto e provocam um respeito enternecedor em quem pela primeira vez o encontra. E portanto, natural que a sua celebridade, o fanatismo que os Ingleses, e sobretudo as inglesas, têm por ele, a beleza da sua pessoa, o exponham a ser muitas vezes objecto da curiosidade e de uma admiração impertinente. O que faz, pois, Tennyson quando passeia nos deliciosos caminhos da ilha de Wight? Que imaginam que faz? Traz um grande lenço na mão e, apenas sente passos, atira-o para cima do chapéu e cobre cuidadosamente o rosto!

Um inglês é sempre excêntrico, mesmo quando é sublime.

XI

Londres, 10 de Janeiro [de 1878]

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3738394041...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →