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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

Ergueu os olhos, esquecido dos seus desejos, en- levado, para aquelle céu rico de verão : era como uma forte poeirada de luz, suspensa e immovel, muito alta no espaço, com pontos mais grossos que faiscavam n'uma pulsação febril, outros fixos, n'um brilho de serenidade eterna. Desejou saber o nome de certas estrellas, desejou habital-as, e ia seguindo commovido a Via Lactea, que se estendia como uma nevoa luminosa, com tons de prata antiga, feita de atomos de soes, Então, deante d 'aquellas profundidadeg, enterneceu-se religiosamente ; sentiu-se muito puro, muito elevado ; necessidades de fé e de sacrificio passaram-lhe na alma ; pensou em Deus, n'um amor santo e immortal, em livros vagos que escreveria, consolando os infelizes, derramando a paz . . . Foi a hora mais nobre da sua vida.

Com que palpitação abriu d'ahi a dias, emfim, a resposta do Damião ! Eram duas laudas da sua letra torcida, que tinha similitudes com o seu estylo. Dizia-lhe que, pela descripção da peça — Alvaro, lyrico de profissão, vadio e cheio de chammas illegitimas b, lhe parecia inteiramente digno da policia correccional, a duqueza idem, e todo o drama, uma succursal do Limoeiro. Emquanto «á intenção democratica da obra afffrmava-lhe que essa democracia lyrica, exhalada em suspiros, com melancolias humanitanas — era odiosa, Não era uma idéa, era uma sensibilidade. Se elle, Damião, chefiasse um dia uma dictadara á Robespierre, esse democrata, não o guilhotinaria, para não deshonrar o cutelo d'aço que cortou a cabeça a Danton — derreal-o-ia á paulada «Pelo que respeita a emprezarios — accrescentava — dizem que os ha, mas parece que vivem em castellos inaccessiveis d'onde fazem fogo, e com razão, sobre os poetas romanti cos. Se o amigo tivesse uma opereta ou uma farça em calembours, não seria difficil encontrar um thea tro benigno: mas para fazer representar um drama romantico, é necessario ser ministro ou conselheiro d'Estado Accumulava outras pilherias, e ajun taga : O Arthur tem talento e vae por um cami nho florido — mas errado. Seja um homem, que diabo ! Atire para os estrumes de Oliveira esse ro mantismo-femea, morbido e esteril. Faça uma obra moderna — e leia Proudhon. Não lhe escrevo mais, porque o meu vizinho brasileiro começou agora, como todas as noites, a harpejar na guitarra o hymno da Carta: a execução, na bandurra, d'este trecho vil—corta-me pela raiz a critica e a prosa.» dizia ainda n'um P. S. : « Devolvo a gcena que me mandou para apreciar o estylo do drama: francamente parece-me escripto como um libretto d'opera : ha periodos que precisam urgentemente acompanhamento de flautim. Essas florescencias de linguagem (que Shakespeare elevou ao sublime, que eram n'elle a exhuberancia d'um genio bar- baro desprezando as regras, e que são historicamente explicaveis n'outros poetas mais calmos e mais conscientes da Renascença) são hoje de um mau gosto deploravel e de um ridiculo desopilante, Eu sei, sim, que é n'esse estylo que escrevem os genios que gingam pelo Chiado , Mas os genios do Chiado têm por missão historica e social fazer rir — rir d'um riso consolador e sereno : são a nossa melhor pilheria, sobretudo quando são tristes, e consbituem a unica alegria que um Destino inimigo nos mede escassamente, gota a gota : sem elles, Portugal scria o legendario Solar do Tedio. Amigo ! Avaros, poetas lyricos, duquezas sentimentaes, cemiterios, interjeições, suspiros ao luar — tudo isso é doentio. Cure-se. A peninsula iberica parece que herdou uma nevrose — que em Hespanha se tornou em genio raiado de loucura, e em Portugal degenerou em imbecilidade misturada de velhacaria. Junte a isso (para Portugal) as influencias hereditarias d'uma avaria generica, e explica muita cousa do paiz, Perdoe as observações retro sobre a sua litteratura : ellas têm o doloroso e o salutar da cirurgia, Sabe o que lhe aconselho que faça ao seu drama Como tratamento interno, xarope de Gihert ; como tratamento externo, cauterio de nitrato de prata. Amigo inalteravel, malgré touta

Damão.

Pedante Arthur, amarrotando a carta com desesperação. — E agora Não conhecia ninguem mais em Lisboa, e sentia-se como um homem no fundo d'uma cova, que olha para os altos onde se respira e se vive, sem vêr uma corda, uma escada, um braço, que se lhe estenda compassivamente ! Não o magoavam as ironias de Damião. Era a inveja ! Um pouco tambem o desprezo philogophico que elle sempre tivera, o pedante, pela poesia e pelQ estylo ! Era um theorico, enterrado em systemas abstractos, sem comprehender a paixão O que mais o enfurecia era que Damião, um camarada do Cenaculo, um democrata, que Rabia que aquelle drama era para elle o amor, o pão, a carreira, em logar de se precipitar por Lisboa, impellindo influencias amigas a abrir-lhe as portas d'um theatro — se não movesse da sua catacumba escrevendo com egoismo : Emprezarios, dizem que os ha . . .



(continua...)

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