Por Eça de Queirós (1912)
Assim os dias tranqüilos passavam no castelo tranqüilo. O vigia, invariavelmente, ao anunciar, com um longo toque de buzina, o nascer do Sol, içava no mastro da torre de menagem a grande bandeira de seda com as armas do Senhor. As janelas do castelo abriam-se; o sacristão varria a capela; o servo dos currais chegava, ajoujado com os seus cântaros de leite; e os pajens, cantando como pássaros que acordam, desciam correndo para o jogo de bola, ou para a liça coberta, onde o mestre de armas já experimentava as espadas, vergando as lâminas, ou examinava os ferros das lanças.
Se o tempo era claro, as damas e os meninos davam um passeio pelos altos terraços. O menino, por vezes, debruçando-se, gritava por Cristóvão, enquanto as damas respiravam o ar fresco, ou seguiam o vôo dos falcões novos, que os falcoeiros adestravam.
Ao meio dia dois trombeteiros anunciavam o jantar dos Senhores; ao portão do castelo iam-se juntando os pobres das terras senhoriais, pare receberem depois no salões estendidos o resto dos pães, ou a carcaça das aves.
Às vezes, pela tarde, um repique de pandeiretas, de guizos, anunciava a chegada de uma companhia de menestréis e jograis: um deles, com o barrete na mão, pedia permissão para dar uma representação no pátio. As damas vinham ao balcão; todos os pajens corriam, o arquivista deitava a cabeça fora da janela da torre, os cozinheiros espreitavam de entre as reixas de feno: - e no pátio os jograis, atirando bolas, dançando na corda, erguendo pesos, ou representando farsas, levantavam grandes ah!, ah! lentos e maravilhados. Quando saíam, sempre algum deles chamava Cristóvão com um gesto discreto – e fora da ponte levadiça, persuadiam-no a vir com eles, na vida livre e alegre, a percorrer castelos, visitar as feiras, entrar nas cidades, ganhar dinheiro para a velhice. Ele recusava, com um mover lento da cabeça. E eles seguiam voltando-se ainda para o ver, calculando os ganhos que teriam com a exibição daquele gigante.
Outras vezes era uma comitiva de fidalgos que chegava em visita. O pátio estava todo sonoro com o relinchar dos corcéis.Os pajens corriam azafamados. Nas janelas batiam-se as alcatifas: - e nas cozinhas, o mestre, mais afogueado e vermelho que um pimentão, preparava grandes empadões, de onde sairiam pombas vivas. Nesses dias o menino tinha orgulho em mostrar o seu gigante: e diante dos cavaleiros pasmados, Cristóvão corria em torno com o menino a cavalo no ombro. E o capelão dos hóspedes tomava sempre as medidas de Cristóvão, para relatar nas histórias.
Outras vezes, já por noite escura, ressoava às portas do castelo um trombeta de guerra. E um cavaleiro entrava, silencioso, coberto de ferro, seguido por seu escudeiro. Uma camareira corria com o gomil de água perfumada para lhe derramar nas mãos; um pajem desembaraçava-o de sua lança; outro marchava adiante, com uma tocha de cera; - e o cavaleiro, com o seu elmo na mão, sacudindo os cabelos, lançava um nome sonoro de paladino, famoso já naquelas terras. Ou então era um peregrino, que os escudeiros levavam primeiro à cozinha, onde ele alargava o seu manto diante do lume, para o secar da umidade dos caminhos. Cristóvão segurava com respeito o seu bordão, de onde pendia uma cabaça; Em breve um capelão o conduzia às damas, a quem ele contava as suas jornadas, as maravilhas do Santo Sepulcro: - e Cristóvão esperava, para lhe beijar a orla da sua esclavina, que tocara no túmulo do Senhor.
Assim os anos passavam. O menino crescia – e agora começava a ser ensinado em tudo o que respeita às coisas da caça e às coisas da guerra. Todos os dias o monteador trazia cães, para completar a matilha do Senhor: e chegavam, às costas das mulas, caixas contendo armas tauxiadas, para o menino lhes aprender o manejo. Mas, por desejo da avó, que era dada às coisas do alegre saber, o menino passava longas horas com o capelão, que lhe ensinava a conhecer as letras, os números, a traçar o seu nome num pergaminho. Pouco a pouco, o menino perdera a sua curiosidade por Cristóvão. E já por vezes passava diante dele sem lhe sorrir, ou lhe acenar com a mão, já calçadas com o guantezinho de caça.
Mas Cristóvão não vivia ocioso. Os pajens davam-lhe as armas para limpar. O sacristão, velho e trôpego, pedia-lhe para varrer a capela – e mesmo era ele quem acendia os fornos da cozinha, ou lavava a baixela suja. Depois, um dia, a avó, lendo uma história em que um gigante guardava um tesouro, quis que Cristóvão guardasse a torre onde estavam os arquivos e as arcas de dinheiro. A torre, então, foi o seu cuidado: constantemente vigiava para a limpar dos musgos ou das ervas. Todas as manhãs e todas as tardes batia as reixas das janelas esguias, para que nenhum ferro estivesse frouxo ou dessoldado. Era ele que levava o jantar, a ceia, ao arquivista, sempre debruçado sobre os seus pergaminhos. E agora dormia à porta da torre, com a grande chave de ferro toda fechada na mão. Todavia o menino, às vezes, ainda queria ser seguido por Cristóvão. Eram esses os seus dias alegres. Como um cão meio abandonado, os seus olhos simples e bons imploravam uma carícia. Mas em breve, o menino, com um gesto, o despedia: agora só se interessava por armas, por falcões, por ginetes de guerra. E Cristóvão, suspirando, com o coração pesado, ia estirar-se junto da torre, com a sua grossa chave sobre os joelhos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.