Por Eça de Queirós (1900)
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou ela para uma banqueta do corredor, num esforço desesperado, a pesada salva - com que as Lousadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a cidade, e mais alta que a Torre de S. Mateus, uma história pavorosa de "vinhaça e bebedeira". Depois, ofegando, relanceou no espelho o penteado. E direita como numa arena, com a temeridade simples e risonha dos antigos Ramires, esperou a arremetida das manas terríveis.
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã à casa da tia Arminda Vilegas, que na véspera, ao tomar (como costumava todos os sábados) o seu banho aos pés, se escaldara e recolhera à cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões de Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acácias do Terreiro da Louça, pensando na sua Novela abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do Capítulo II que o tentava e que o assustava-o encontro de Lourenço Ramires com Lopo de Baião, o Bastardo, no vale fatal de Canta-Pedra. E recolhia aos Cunhais (porque prometera ao Barrolo uma trotada a cavalo, até o Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo enevoado) quando, na rua das Velas, avistou o Tabelião Guedes, que saia da confeitaria das Matildes com um grosso embrulho de pastéis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua - enquanto o Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de verniz, descobria, numa cortesia imensa, a calva, emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabelo grisalho que lhe valera a alcunha de "Guedes Popa":
- Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapéu! Como está? Sempre fero e moço. Aindabem!... Falou com o meu Padre Soeiro? O Pereira da Riosa, por fim, só vem à cidade na quartafeira...
Sim! Sim! O Sr. Padre Soeiro passara pelo cartório, para avisar e ele apresentava os parabéns a S. Exa. pelo seu novo rendeiro...
- Homem muito competente, o Pereira! Já há vinte anos que o conheço... E olhe V. Exa. apropriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro dela, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que ele tem plantado! Homem muito competente... E V. Exa. com demora?
- Dois ou três dias... Não se atura este calor de Oliveira. Hoje, felizmente, refrescou. E que há denovo? Como vai a política? O amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, bem?
Subitamente o Tabelião, com o seu embrulho de doces conchegado ao colete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, numa indignação que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabeludas, a face rapada, toda a testa até as abas do chapéu branco orlado de fumo negro:
- E quem o não há de ser, Sr. Gonçalo Mendes Ramires? Quem o não há de ser?... Pois esteúltimo escândalo!
Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, sérios:
- Que escândalo?
O Tabelião recuou. Pois S. Exa. não sabia da última prepotência do Governador Civil, do Sr. André Cavaleiro?
- O quê, caro amigo?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou, para exclamar:
- A transferência do Noronha!... A transferência do desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, também obesa, de buço carregado, toda a estalar em ricas e rugidoras sedas de missa, arrastando severamente pela mão um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes porque o digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada das Matildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ela entrar, o fecho da porta envidraçada. Depois, num alvoroço:
- O amigo Guedes naturalmente vai para casa. É o meu caminho. Andamos e conversamos...Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?
- O Ricardo Noronha... V. Exa. conhece. O pagador das Obras Públicas!
- Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido arbitrariamente?
Na rua das Brocas por onde desciam, no silêncio, e solidão das lojas cerradas, a cólera do Guedes ressoou, mais solta:
- Infamemente, Sr. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para Almodôvar, para osconfins do Alentejo!... Para uma terra sem recursos, sem distrações, sem famílias!...
Parara, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradíssimo! E sem Política, absolutamente sem Política. Nem dos Históricos, nem dos Regeneradores. Só da família, das três irmãs que sustentava, três flores... E homem estimadíssimo na cidade, cheio de prendas! Um talento imenso para a música!... Ah! o Sr. Gonçalo Ramires não sabia? Pois compunha ao piano coisas lindas! Depois precioso para reuniões, para anos. Era ele quem organizava sempre em Oliveira as representações de curiosos...
- Porque, como ensaiador, creia V. Exa. que não há outro, mesmo na capital... Não há outro! E,zás, de repente, para Almodôvar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só o piano!...
Veja V. Exa. só o transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.