Por Camilo Castelo Branco (1862)
Entendem cordatos fisiologistas que o amor, em certos casos, é uma depravação do nervo óptico. A imagem objectiva, que fere o órgão visual no estado patológico, adquire atributos fictícios. A alma recebe a impressão quimérica tal como sensório lha transmite, e com ela se identifica a ponto de revesti-la de qualidades e excelências que a mais esmerada natureza denega às suas criaturas dilectas. Os certos casos em que acima de modifica a generalidade da definição vêm a ser aqueles em que o bom senso não pode atinar com o porquê dalgumas simpatias esquisitas, extravagantes e estúpidas que nos enchem de espanto, quando nos não fazem estoirar de inveja.
E tanto mais se prova a referida depravação do nervo que preside às funções da vista quanto a alma da pessoa enferma, vítima de sua ilusão, nos parece propensa ao belo, talhada para o sublime e opulentada de dons e méritos que o mais digno homem requestaria com orgulho.
Se me desarmam deste convencimento, cimentado em doze anos de experi6encia e observações, não sei como hei-de explicar o amor de D. Rita Emília ao Dr. Anselmo Sanches.
Defendo-a desta vergonha como defenderia o réu dum crime extremamente execrável. A alucinação, a doença dos nervos, a demência, enfim, explicam o crime, e deviam no máximo das vezes absolver a mãe que mata seu filho, o filho que mata seu pai e a mulher que se dá em alma e corpo aos Anselmos Sanches.
Posto isto, dispensam a história das repugnantes conjecturas, que então fiz, sobre o inarrável mistério dos amores de Rita e Anselmo. Indulte-se a infeliz em nome da depravação do nervo óptico, em nome da física e da patologia, em nome da caridade evangélica, em nome de tudo que move à lástima, à piedade e ao perdão.
Rita amava Sanches: aceitou o facto consumado. Ora Francisco José de Sousa, ileso da enfermidade visual de sua mulher, via o doutor, qual a natureza o fabricara, feio, canhestro, mazorral, abrutado, refractário aos dardos do deus de Gnido. Embalde se cansaria a malquerença insinuando ao brasileiro com cartas anónimas - expediente em voga, e creio mesmo que inventado no Porto - a suspeita de que sua mulher encarava no doutor com olhos menos ajuizados que os dele marido.
E a suspeita era já de si tão absurda que não houve no Porto alma de sobra danada que denegrisse, até rebentar o escândalo, a virtude conjugal de Rita.
D. Margarida Carvalhosa disse-me um dia :
- Vou contar-lhe uma enjoativa novidade, Sr. Silvestre. Prepare-se para rebater um ataque de inveja.
- De inveja, minha querida senhora? Vai Vossa Excelência dizer-me que mimoseou o mais feliz dos mortais com o seu coração?... Invejo, realmente invejo...
- Cale-se. Não se trata de mim: é um escândalo.
- Ah!... disse-me Vossa Excelência logo que era um escândalo: ser-me-ia impossível associar o nome de Vossa Excelência a um escândalo. Trata-se de Guilherme do Amaral? Do barão de Bouças? De Cecília? De João José Dias?
- Não, senhor. Trata-se daquela Rita brasileira de quem o Sr. Silvestre disse que andavam enamorados os anjos.
- E os demónios, minha senhora! Diga, diga, que eu interesso-me em aspirar todos os aromas que rescendem das essências angélicas.
Margarida Carvalhosa descompôs-se a rir e continuou:
- Pois o aroma da tal essência angélica está sendo um aroma de arruda, meu caro poeta.
- Arruda, minha senhora?! Queira explicar-se.
- Rita deixou de ser a cara-metade de seu marido e passou inteira para o Dr. Anselmo Sanches.
- Calúnia torpe! - exclamei com sincero espanto.
Margarida Carvalhosa tange a campainha, sorrindo com irónica piedade da minha boa-fé.
- Venha cá, Josefa - disse ela à criada, que entrava.
- Repare se a mamã está por aqui perto...
A criada disse que a senhora baronesa estava no jardim.
- Conte - prosseguiu Margarida - diante deste senhor, sem acanhamento nem receio, o que me contou a respeito da brasileira.
E, voltando-se para mim, ajuntou:
- Esta criada hesitava; mas, animada pela ama, disse com visível repugnância:
- A brasileira... Então que quer Vossa Excelência que eu conte?
- Como se chamava o amante da sua ama? - disse Margarida.
- Era o Sr. Dr. Anselmo.
- Como soube você que ela amava o Dr. Anselmo?
- Como soube? Soube-o porque eu era a criada do quarto da senhora.
- Aquilo é muito significativo, Sr. Silvestre - disse, sorrindo com gentil malícia, a filha do barão, e acrescentou voltada para a moça: - E como tem você a certeza?
- Ora essa! A senhora não sabe?! Eu sabia tudo. De mim só se escondia ele. Até ela, quando o doutor começava a querer seduzir a pupila do Sr. Sousa, chorava muito e desabafava só comigo.
- Conte lá essa história da sedução da pupila. Como era isso? - disse eu.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.