Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Pois quê?! -perguntei eu com a respiração abafada. - Que disse ela?!
- Levantou as mãos, ajuntou-as sobre o seio postas em oração; depois, caiu em joelhos, ia cair, quando eu, ajoelhado também, a recebi, a desfalecer.
- Não disse nada, portanto!... E desfaleceu sinceramente?
- Fazes-me essa pergunta como quem conheceu a mulher...
- respondeu Afonso. - Asseveras-me que te estou contando factos ignorados?
- Pois eu podia saber o que se passou na estalagem de Barcelinhos?! - repliquei. - Eu ignoro dessa mulher tudo, menos o que toda a gente sabia. Vi Palmira em Lisboa contigo... mas, se tu crês que um homem, acostumado a fazer romances, é uma espécie de naturalista, que só com um osso recompõe um animal desconhecido, admite-me que eu tenha adivinhado a alma inteira de Teodora com os poucos, mas característicos, traços que me deste do seu carácter. Autorizado, pois, pela tua pergunta, afoito-me a dizer que o desmaio da amazona foi menos de teatral, porque nem sequer foi precedido da inevitável interjeição. Assim que me disseste, Afonso, que ela não desentranhou do intimo seio um estrídulo ah!, entendi que Teodora era mais artificial que o próprio artificio, mais teatral que o mesmo teatro.
- A narrativa - redarguiu Afonso de Teive - vai perdendo a seriedade que demandava o caso. Cansaço ou enojo, dir-te-ei que me sinto já constrangido nestas memórias. Achome um pouco identificado com a minha vida passada; repassei o Letes interposto, e olho com saudades para as margens que deixei. Se, como diz o Dante, nada há aí mais triste que recordar na miséria os tempos felizes, é pelo menos nauseabundo recordar em tempos felizes vergonhosas misérias. Todavia, como já agora inexorável romancista, me não dispensam o remate deste longo prólogo do capítulo final do meu livro - livro que eu chamaria Amor de Salvação -, concluirei a história e irei depois purificar meus lábios no rosto de meus filhos.
"Teodora - continuou Afonso -, quando quis abrir os olhos, arrancou-se dos meus braços, exclamando: "Repele-me, que eu sou indigna de ti. Agora reconheço a minha miséria, agora que te vejo, ó anjo da minha infância, que eu deixei fugir para o seio da mulher digna, da mulher pura, da criatura perfeita para quem tu nasceste!"
- Há aí muito estilo - interrompi. - A mulher compunha! Vê-se que leu e aproveitou. O deputado de Braga é que tinha olho de D. João de Maraña para as mulheres de letras. E depois?
- Eu venci o espaço que ela deixara recuando e abracei-a. Neste movimento senti nas faces o contacto dos caracóis desfeitos. Osculei-a na fronte...
- Gosto - atalhei - do comedimento honesto da palavra... Osculei-a... Sim, senhor... Assim é que um pai de oito filhos conta a história dos seus beijos. E ela também te osculou?
- Sofregamente, doidamente, segurando-me a face pelos cabelos.
- Isso também é de rigor teatral. A mulher conhecia a cena! Perdoa as interrupções. De propósito as faço para te dar azo a inspirares fôlego novo, visto que já te afadiga o conto. E vai depois...
- Rebentou-me a bolhões do peito a eloquência da paixão. Era uma alma virgem que se abria. Abria-se um tesouro intacto de onde nem sequer tirara uma palavra para mentir a outra mulher. Ela entrecortava-me, sorvendo-me as expressões dos lábios, ou abafando-mas no seio palpitante e ardente como o arquejar estuoso do vulcão. Este lance febril, de minutos no viver de meu espirito, absorvera uma hora, segundo a vida do tempo...
- E depois - acudi eu - começaram a tratar de assuntos circunspectos com discreta serenidade.
- Contou-me ela que o marido, com ar de tirano tolo...
- A frase é dela, tirano tolo? - perguntei.
- É. Desgostar-me-ia o tom zombeteiro com que ela me falava do pobre homem, se eu não estivesse...
- Corrompido - conclui. - Querias dizer isto?
- Era isso verdadeiramente. Dizia, pois, ela que o marido lhe falava em correspondências de Lisboa, mordendo o beiço, ou esgaravatando nos pavilhões dos ouvidos, costume dele, quando os ciúmes lhe faziam prurido nas orelhas.
- Disse-to assim ela? - interrompi com a mais ingénua irritação.
- Disse-mo assim, com pouca diferença, meses depois, quando eu estava mais corrompido que ela para provocá-la às originalidades da sua veia sarcástica: do que me confesso em opróbrio meu. Delineámos o nosso futuro. Foi ela quem o programou.
Iríamos para longe. Propôs Lisboa, ou Madrid, ou Paris. Quis Lisboa, no intento de requerer divórcio. A fuga teria execução antes de oito dias. Eu ficaria em Barcelos, disfarçado, oculto durante o dia. A meia-noite apearia a um oitavo de légua de Tibães.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.