Por Machado de Assis (1872)
ERA JÁ sobre tarde quando a carta chegou às mãos da viúva. Viana descera à chácara, enquanto a irmã dividia a atenção entre os gracejos do filho e o seu próprio pensamento. O menino enchia toda a sala com a sua pessoa; as travessuras dele não eram enfadonhas. Lívia não o contemplava só com os olhos de mãe; via nele como que o elo de outro entre uma quimera desfeita e uma quimera realizada. Tais eram as suas reflexões quando a mucama lhe veio trazer a carta de Félix. Entregou-lha e saiu.
Lívia estremeceu; a letra do sobrescrito revelava o estado febril da mão que o escrevera. Abriu rapidamente a carta e leu-a.
Quando Luís, numa das suas voltas, se chegou à mãe, achou-a com os olhos cravados no chão, trêmula e pálida. Chamou por ela inutilmente. Agarrou-lhe as mãos e a moça pareceu acordar de um letargo.
— Que tem, mamãe? perguntou o menino afagando-a com voz lacrimosa. Lívia não respondera a princípio. A voz da criança chamou-a enfim à realidade. Olhou vagamente à roda da sala, e como se a pouco e pouco lhe voltasse a consciência, dirigiu lentamente os olhos à carta fatal. Tinha-a ainda entre as mãos. Releu-a com ansiedade levantou-se arrebatadamente, deu alguns passos e de novo se deixou cair na cadeira. O menino correu à porta assustado. O tio entrava nesse momento.
— Que é? disse Viana vendo o ar assustado do menino, e as feições decompostas da irmã.
Lívia entregou-lhe a carta.
A carta dizia assim:
Lívia
O que vou fazer é indigno, bem o sei; mas é ainda mais cruel do que indigno. O nosso casamento é fatalmente impossível. Não tens nenhuma culpa direta nem indireta na minha resolução. Esta carta, que me condena, será a tua cabal defesa. Adeus. Quando Viana acabou de ler este estranho e misterioso documento, ficou tão pálido como a irmã. Não compreendia nada do que se passava; indignava-o, todavia, o procedimento de Félix. Sufocou a cólera a ver se evitava a explosão da viúva. Olharam-se ambos silenciosamente alguns instantes; o menino tinha-se aproximado e segurava uma das mãos da mãe, olhando para o tio como se esperasse dele alguma explicação.
— Recusa, disse enfim Viana, e nenhuma explicação nos dá do seu procedimento. O ato é tão indigno que não te deve mortificar; quando um homem dá este triste documento da sua lealdade, penso que a mulher que o ama pode dar graças a Deus de o não ter acompanhado até o altar. Espero que penses como eu...
Viana não pôde acabar. As lágrimas, tanto tempo sustidas, romperam enfim dos olhos da viúva, impetuosas e amargas. A dor, de tão concentrada que fora a princípio, fez-se violenta e explosiva; mas o organismo estava tão abalado por tantas comoções, que a infeliz moça perdeu os sentidos.
Quando ela voltou a si era noite; achou-se no seu próprio leito, tendo ao pé de si o irmão e um médico.
O médico falou-lhe e ela respondeu sem saber o que dizia nem o que ouvia. A febre era intensa, mas o médico esperava que no dia seguinte cedesse à energia do remédio que lhe ia aplicar.
Viana ficou só com a irmã, e procurou distraí-la do sucesso da tarde, tarefa inútil porque a viúva não pensava nele; o olhar vago indicava que ainda se não havia feito luz no seu espírito. As vezes contraía os sobrolhos e fitava o olhar no espaço como se estivesse a recordar-se. Numa dessas vezes volveu os olhos pelo quarto parecendo procurar alguém. A ausência de Félix de todo lhe alumiou o espírito.
Deu um grito abafado e desatou a chorar.
Acorreu o irmão, com palavras de brandura e conselho, dizendo-lhe que nem tudo estava perdido, e que era possível remediar o mal. Lívia não prestava fé a essas vãs consolações; estava entregue ao seu desespero. Abafada com soluços, lavada em lágrimas, soltava gritos de angústia, e convulsivamente se revolvia no leito.
Viana teve medo desse grave estado e mandou chamar o médico. Quando este chegou, já a doente havia sossegado; mas, com as lágrimas, tinha-se ido a razão. O delírio durou toda a noite e parte da manhã seguinte. De tarde a febre declinou um pouco e a doente adormeceu.
Só no dia seguinte, quando o abatimento veio substituir a exaltação, pôde a moça refletir no recente infortúnio. Debalde perguntava a si mesma a causa daquele súbito rompimento do noivo, nada lho explicava. Algum mistério haveria, alguma razão aparentemente legítimas porque à viúva nada lhe dizia o coração que fosse contrário à lealdade de Félix.
Contou-lhe o irmão que havia ido à casa do médico, e não o encontrara, nem lá lhe quiseram dizer para onde fora. Agora, depois de maduro exame, pensava em ir pedir-lhe uma explicação do procedimento.
Lívia desaprovou-lhe a resolução,
— Mas, disse Viana, não podemos ficar assim...
— Podemos, interrompeu a viúva; enquanto estou doente a explicação será natural para os outros. Quando me levantar da cama direi que eu mesma desfiz o casamento. Achaste-me sempre singular; é provável que os outros me vejam com iguais olhos; e tudo se explicará da melhor maneira.
— Mas a explicação dele...
— A explicação dele não é precisa.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.