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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Meses antes, em 10 de novembro do ano anterior, na Rua da Alfândega nº 100, sobrado, alguém comprava escravos, de dezoito a trinta e seis anos, para serem libertos e assentar praça. Estávamos em plena guerra do Paraguai; e os patriotas que não queriam ir lá morrer, davam substitutos que iam combater o Lopez, por eles.

O substituto era sempre encontrado em um escravo, liberto provisoriamente, o homem do anúncio fazia um estoque deles, como se faz hoje com o açúcar, o arroz, etc., e esperava a alta de preço... Era um peculiar profit de guerre daquela época. Cada uma tem o seu...

Enfim, a nossa guerra ainda libertou; mas, os americanos que declararam guerra ao México, em 1837, arrebataram-lhe o Texas, e, nele, restabeleceram a escravatura que já havia sido abolida, não será muito pior? Não espero resposta.

Volto para os meus papéis velhos... Até já.

Brás Cubas, Rio, 22-8-1918.

COMO BUDISTAS...

Tenho tanto que escrever, sobre coisas tão interessantes, que, agora, o tratar dessa notícia de polícia de São Paulo, eu me arrependo. Tinha de falar do Sol de Portugal. do José Vieira; tinha de falar desse extraordinário discurso do senhor doutor Ildefonso Albano, deputado federal.

Há tanta coisa tão interessante, num e noutro livro, que eu me reservo para dizer tudo o que de bom encontrei neles, mais tarde.

O que me absorve agora o pensamento é este caso dessa pobre moça que matou o marido em São Paulo. É essa moça que, como todas as moças, não tem experiência da vida e são levadas a julgá-la da maneira mais infame que os charlatães a receitam.

Ela pensou que seu marido fosse um homem; ele, quando ela o conheceu direito, não passava de um caçador de dotes.

Todos nós, inclusive eu, malgré tout , estamos arriscados a casar com “moça rica”; mas de que nós não estamos ameaçados é de sermos maus para essas moças.

O que há nisto tudo é a combinação do nosso espírito muito brasileiro de acreditar que o “doutor” é tudo e a crença universal do dinheiro.

Essa moça não se casaria com esse moço, se não o visse armado de um “anel”; ela não daria seu corpo se a ambiência social não dissesse que, com a tal carta, ele valia muitas coisas.

E ele não iria procurá-la, se não estivesse armado do que a bobagem dos jornais chama “pergaminho”.

Houve um mútuo engano. Ele procurou enganar a mulher com o título que o Belisário Pena diz ser científico; ela procurou enganá-lo com aquilo com que os homens enriquecem.

Mas, todos os dois se esqueceram que entre mulher e marido não há furtos. Está no Código Penal.

Entre os dois só deve haver a máxima lealdade. Todos os dois devem entrar na sociedade conjugal com a máxima boa vontade e admiração um pelo outro. O que não pode continuar, é que se faça da mulher, escada para subir.

Nós temos direito de ter ambições. Eu mesmo quero morrer em Veneza, para ver se ainda lá encontro a minha grande paixão – Desdêmona . O que eu não posso compreender, é que um homem ambicioso, transforme a sua mulher, o seu maior amigo, a sua própria filha, em instrumento da sua ambição.

Todos esses entes são sagrados; para todos eles, o nosso amor e a nossa piedade devem ser coisa muito pouca.

Quando a gente se quer bater, tem muitos homens por diante; e não precisa procurá-los em sua própria casa.

A vida, apesar de não poder ser uma felicidade, deve ser uma coisa heróica.

E não há homem que tenha esse sentimento de heroísmo que não o deseje encontrar nas mulheres escolhidas.

A mulher não é instrumento de ambição; a mulher é um consolo e um conforto para os nossos vícios e as nossas desgraças.

Já fui muitas vezes jurado; já sofri muito por causa disso; mas, se eu fosse escolhido, para o júri de da .Julieta Melilo, eu a absolveria.

Absolvia, minha senhora, porque não gosto desses seres cheios de títulos, que não amam a mulher a quem eles deviam amor.

Como eu sou budista, o que eu quero é o esquecimento da vida; e não mais tratarei de semelhante caso.

A.B.C., Rio, 31-8-1918.

O CHEFE POLÍTICO E O SEU ELEITOR

Seu doutor, eu vim incomodá-lo; mas precisava muito ficar bem com minha consciência.

– Que há?

– Eu não voto no doutor Rui. – Como você vai votar no Epitácio ?

– Nem num nem noutro.

– Você está ficando indisciplinado; não é mais o correligionário disciplinado de antigamente. Que diabo foi isso?

– Eu não tenho sido companheiro para você?

– Sim senhor. Devo ao doutor todos os obséquios desta vida, pelo que lhe sou muito agradecido. Foi o doutor que abaixo de Deus, salvou a Marocas, minha mulher, sem cobrar nada... Quando foi o enterro do meu filho Dodoca, o doutor me ajudou muito...

– Isso tudo não vem ao caso. Falemos...

– Não; vem sim, doutor! Quero que o senhor não pense que sou mal agradecido.

Se estou empregado, devo ao doutor e...

(continua...)

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