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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Ó senhores! — exclamou Crebillon, não se incomodem com a casa. Pois eu não disse que vou escolher a mobília? Então! Até não sei se seria melhor que vocês vendessem os cacarecos. Em todo caso eu trato primeiro lá de baixo: sala de visitas, sala de jantar, vestíbulo, os dois quartos, depois subo. Vão ver como isto fica um brinco. Que é do João de Deus? Ó João de Deus!

O discreto africano estava no corredor e tanto que ouviu o berro do abolicionista correu com a toalha inseparável, que era o travesseiro em que repousava a cabeça, a rodilha com que saía ao ganho e o lenço com que enxugava o suor abundante do seu carão de azeviche.

— João, veja hoje mesmo o boné e o avental, porque amanhã começa o seu trabalho. Vou mandar vir a bateria da cozinha e a louça. E olhe lá! Nada de assobios aqui, ouviu?

— Sim, senhor, murmurou o negro, de olhos baixos.

— Estamos então combinados; amanhã, não é verdade?

— Sim, amanhã!

— Mandas as andorinhas? — perguntou Ruy Vaz.

— Está visto: duas?

— Duas.

— E quanto ao senhor João de Deus fica conosco por... Pensou, alisando a pêra, com os olhos nos bicos dos sapatos, erguendo altivamente a cabeça fulva, ajustou: sessenta mil réis, que dizes?

O negro encolheu os ombros e Ruy Vaz, afagando-o, disse:

— É um achado, meu amigo. Nos tempos que correm, sessenta mil réis, casa e comida... uh!

— E podes escolher um quarto lá em baixo, João. Tens um magnífico, perto da sala de jantar. Queres?

O negro sorriu enlevado.

— Bem, estamos tratados. Vamos.

Desceram. Crebillon trancou as portas e ganharam a rua. Havia gente pelas janelas das casas vizinhas e Crebillon, ufano, repetiu, acendendo um charuto:

— Vai ficar um brinco, garanto.

Chegando ao começo da rua de Santo Amaro, despediu-se; "tinha de ir à casa de um velho parente, na Gávea". Os futuros palacianos, sempre seguidos de João de Deus, desceram para a cidade, a pé, sem almoço, sob uma soalheira cáustica.

CAPÍTULO VIII

No dia seguinte, às quatro da manhã, todos de pé e alegres começaram a encaixotar os livros e, às nove, pararam à porta as duas andorinhas. Dona Ana, avisada pelo filho, quis embargar a mudança, mas os carregadores não atendiam e, placidamente, iam descendo os trastes que ficaram folgados nas duas imensas carroças.

João de Deus já se preparava para tomar um lugar à boléia, quando o Toledo apareceu com o esqueleto embrulhado num lençol, confiando-o ao negro para que o levasse cuidadosamente. O africano, que não via com bons olhos aquele despojo de finado, fez uma careta significativa, entendendo que era melhor escondêlo no bojo de um dos transportes, mesmo para que a polícia, alarmada, não fosse acompanhando a mudança na suspeita de um crime. O anatomista, porém, convenceu-o com palavras brandas:

— Não, João, tem paciência!... Não quero perder o esqueleto. Na carroça, com os solavancos, pode haver fratura de algum osso e lá se vai o meu precioso manequim. Tem paciência, leva-o contigo. Isto é a minha enxada, João. Isto é que me há de dar o pão para a boca. Toma cuidado, meu velho.

O negro submeteu-se e, enrolado o esqueleto, lá foi ele para a boléia muito rijo e, com a ossada sobre as pernas, parecia, mal comparando, o Anúbis egípcio com uma múmia ao colo.

Na sala deserta, por onde voavam esparsas folhas de papel garatujadas, reuniu-se o conselho para resolver se deviam despedir-se da viúva ou sair sobranceiramente sem palavra. Anselmo opinou pela retirada sobranceira. Ruy Vaz, porém, grato aos antigos acepipes, grato aos passados tempos de fartura e paz, quis levar à viúva os seus agradecimentos e, como o Toledo concordasse, houve maioria e os três desceram e foram bater à porta da sala de jantar, mas Dona Ana rugiu furente: "Que fossem para o diabo!", e ganiu uma praga cruel.

Seguiram, então, apartando-se daquela casa sem adeus. Da rua lançaram um saudoso olhar à sacada e viram Vidinha, com o rosto formoso encostado à vidraça, seguindo-os com um olhar de melancolia. De repente, porém, João irrompeu, de cigarro à boca, franziu a cara numa careta e sacudiu um gesto vil.

— Peralta! — disse baixinho o Toledo mas Anselmo, indignado, com os olhos relampejantes, pálido de fúria, estacou ameaçador:

— Eu vou quebrar a cara daquele patife!...

— Estás louco, homem? Vamo-nos embora! E o João dançava na sacada com acenos indecorosos e caretas horripilantes.

(continua...)

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