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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Todavia em suas correrias Itajiba procurava sempre poupar o mais que fosse possível o sangue de seus inimigos, e coibia quanto podia o feroz canibalismo de suas tropas avezadas ao roubo, ao incêndio e à carnagem. Sem encontrar mais estorvo algum em sua marcha Itajiba, precedido pelo terror e a consternação, foi avançando até as imediações de Vila Boa. De uma eminência ele descortinou ao longe os serros áridos e escalvados que rodeiam o berço de seu nascimento; o coração se lhe apertou de angústia ao contemplar aqueles sítios, onde tão risonha e prazenteira se deslizara a aurora de sua vida, e que ele agora vinha ameaçar e cercar de terror e consternação; sentiu sua alma esmagada sob o peso de uma cruel e sombria tristeza ao lembrar-se que estava para sempre exilado do país de sua infância, que ele tinha tingido no sangue inocente de um infeliz amigo; parecia-lhe que a sombra de Reinaldo, surgindo por sobre os horizontes longínquos, exprobrava-lhe seu horroroso crime, e o expelia daqueles lugares com dolorosos gritos e maldições, e o remorso lhe ralava o coração.

Itajiba refletiu longa e profundamente. Tinha às suas ordens uma multidão de combatentes ainda engrossada pelo grande número de prisioneiros que arrancara aos vencidos, e estes munidos já de armas de fogo tomadas aos Goianos, em cujo uso e manejo ia adestrando os selvagens. Podia pois tentar com bastante probabilidade de sucesso um assalto sobre Vila Boa. Mas o horror instintivo que o desviava daqueles lugares paralisou a sua marcha.

Também por outro lado via que a empresa não deixava de ser arriscada, e sendo malsucedida nulificaria todos os sucessos até ali obtidos. Itajiba julgou que já tinha feito bastante para glória sua e para proveito e lustre da nação a que tinha ligado o seu destino, e resolveu portanto o regresso da expedição que comandava. Além de todos estes motivos, outro talvez mais forte atuava em seu espírito, e acelerou a sua volta. No meio de tantos perigos e fadigas, Itajiba nunca esquecera a sua querida Guaraciaba, e seu amor não deixava de inspirar-lhe cuidados e receios; Inimá, cuja expedição provavelmente estaria mais cedo terminada, poderia já ter voltado triunfante e orgulhoso, e Itajiba sentia estremecer-lhe o coração pensando no que poderia ter acontecido em sua ausência no arraial dos Chavantes.

CAPÍTULO III

O REGRESSO

Já seis longas luas tinham-se volvido depois que os dois corpos de guerreiros chavantes comandados por Itajiba e Inimá haviam partido a levar a guerra a países remotos, e nenhuma notícia ainda havia deles; já era tempo entretanto para estarem de volta.

Oriçanga, Guaraciaba, Andiara e toda a tribo esperavam todos os dias com impaciência ou novas ou o regresso dos expedicionários, qualquer que fosse o resultado das duas empresas.

Guaraciaba passava quase todo o dia assentada sobre o tope da ribanceira, donde tinha visto desaparecerem a seus olhos as canoas de Itajiba, e ali entretendo as longas e enfadonhas horas da ausência em alguns dos seus trabalhos favoritos volvia continuamente os olhos pelo esteiro do rio a ver se na última volta alguma canoa trazia o seu amado, ou pelo menos novas dele. Outras vezes tomando uma leve canoinha, que ela mesma remava, sulcava as águas acima com alguma de suas companheiras, e lá ia até onde sem perigo podia avançar, a ver se encontrava com a flotilha de Itajiba, e voltava triste e resignada para esperar ainda.

Um dia enfim, estando na barranca no sítio do costume, ouviu ao longe e para a parte superior do rio um estranho e grande estrondo. A princípio pensou que seriam trovões; mas o céu estava sereno, e a atmosfera tranqüila nenhum indício dava de tempestade. O estrondo se repetiu uma e mais vezes avizinhandose cada vez mais. Não podendo atinar com a causa daquele ruído, Guaraciaba sentiu seu coração alvorotar-se entre o pavor e a esperança, entre o receio e o prazer; mas esse estado ansioso de incerteza durou poucos momentos.

As canoas de Itajiba despontavam enfim como um bando de aves aquáticas velozmente vogando à mercê da torrente. Itajiba tinha armado grande número de seus soldados com arcabuzes tomados aos vencidos, e os adestrava no uso e manejo dessas armas; ao aproximar-se das tabas mandou de propósito fazer repetidas descargas a fim de surpreender e assombrar os selvagens com aquele espetáculo inteiramente novo e estranho para eles, e assim vieram descendo as canoas ao som de salvas atroadoras, que reboavam de eco em eco pelas curvas ribanceiras com grande pasmo dos Chavantes, que apinhados pelas praias respondiam com selváticos alaridos ao ribombo dos arcabuzes.

Toda a tribo, homens e mulheres, velhos e crianças, correu alvorotada para a beira do rio; a volta vitoriosa de Itajiba com aquele aparato para eles prodigioso de detonações de armas que imitavam o trovão e vomitavam fumo e fogo, os encheu de assombro e da mais alta admiração pelo jovem chefe, que começavam a considerar como um homem superior ao resto da humanidade, como um enviado de Tupá, como bem dissera o inspirado Andiara.

(continua...)

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