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#Romances#Literatura Brasileira

Helena

Por Machado de Assis (1876)

Melchior franziu a testa; a fisionomia, de ordinário meiga, tornou-se severa, como a consciência dele. O padre tinha uma das mãos de Helena entre as suas; deixou-a insensivelmente cair. Entre os dois estabeleceu-se um silêncio que os acabrunhava e que não ousavam romper; como subjugados por um mistério, receava cada um deles que o outro lho lesse na fronte; instintivamente desviaram os olhos.

Melchior foi o primeiro que voltou a si. A reflexão corrigiu a espontaneidade, e o padre reassumiu o gesto usual, com essa dissimulação que é um dever, quando a sinceridade é um perigo.

Vamos lá, disse ele; ninguém pode decidir o que há de fazer amanhã; Deus escreve as páginas do nosso destino; nós não fazemos mais que transcrevê-las na terra.

É verdade! confirmou ela com um gesto de cabeça, e sem erguer os olhos.

Amanhã, continuou o padre, o acaso, — isso a que os incrédulos chamam acaso, e que é a deliberação da vontade infinita, — lhe apontará um homem digno da senhora, e seu coração lhe dirá: é este; e o suspiro desalentado de hoje converter-se-á num olhar de graças ao céu. Ora, o que eu lhe peço, o que eu desejo, é que se apresse tanto que eu possa casá-los...

Oh! mas não vai morrer amanhã, interrompeu Helena.

Estou velho, minha filha; estes cabelos brancos são já neve desse mar polar para onde navegamos todos. Conto sessenta anos. A morte pode colher-me um dia próximo...

Vamos almoçar, disse Helena sorrindo.

Saíram da sacristia, atravessaram a capela, e penetraram na chácara. Na ocasião em que iam transpor a porta da capela, viram Mendonça entrar em casa. Melchior estacou e olhou para Helena. Esta ia como acabrunhada e absorta. O gesto do padre, quando ela lhe declarou que não se casaria talvez nunca, ficara-lhe gravado na memória, como um enigma, que talvez receava decifrar. Poucos minutos eram passados; contudo, ela pôde refletir, e coligir os elementos de uma resolução. Detendo-se, com o padre, à porta da capela, viu também entrar Mendonça. Os olhos da moça e do padre interrogaram-se de novo, mas desta vez nenhum deles os desviou.

Vê aquele homem? perguntou Helena. Parece-lhe que seria bom marido?

Excelente, decerto, disse vivamente Melchior; caráter, educação, sentimentos.

Tem ainda uma virtude particular: ama-me.

Sei.

Ele lho disse?

Não, mas vê-se. É sabido de todos os que freqüentam esta casa. A probabilidade do casamento é objeto de comentários, e a opinião geral é que ele se fará dentro de pouco tempo. Confessou-lhe alguma coisa?

Nada; mas os olhos da mulher amada não são menos sagazes que os dos padres amigos. Acha que devo confirmar a opinião dos outros?

Acho; consulte, porém, seu coração.

Já consultei.

Neste único instante?

Nada menos.

Deveras? disse Melchior, derramando um olhar de paternal ternura no rosto sério de Helena.

Não digo que o ame desde já; mas a afeição que ele me tem, refletirá em meu coração, e eu virei a amá-lo. O que importa saber é que é digno de mim. De todos os que me pretendessem nenhum lhe seria superior.

Ainda bem! Contudo, repare que vai contrair uma obrigação perpétua, e que um contrato destes não pode ser deliberado em poucos instantes.

Oh! nesse ponto a minha ignorância sabe mais do que a sua teologia. Que são minutos e que são meses? Paixões de largos anos, chegando ao casamento, acabam muitas vezes pela separação ou pelo ódio, quando menos pela indiferença. O amor não é mais que um instrumento de escolha; amar é eleger a criatura que há de ser companheira na vida, não é afiançar a perpétua felicidade de duas pessoas, porque essa pode esvair-se ou corromper-se. Que resta à maior parte dos casamentos, logo após os anos de paixão? Uma afeição pacífica, a estima, a intimidade. Não peço mais ao casamento, nem lhe posso dar mais do que isso.

Não gosto de tanta reflexão em tão verde idade, replicou benevolamente Melchior; todavia, encanta-me esse raciocínio que, ao cabo de tudo, pode ser verdadeiro. Mas não me desdigo; alguns minutos é pouco tempo; reflita ainda vinte e quatro horas.

Nem um instante mais, insistiu Helena. Minhas reflexões são lentas ou súbitas: ou cinco minutos ou um ano; escolha.

Pois reflita cinco minutos, replicou o padre sorrindo.

Já lá vão quatro; aproveitarei o último para lhe dizer que em nada disto falaria, se não fossem as qualidades notáveis desse moço; e para acrescentar que a ele me liga certa simpatia de gênios... é talvez a semente do amor.

Tinham chegado ao primeiro degrau da escada da varanda. Subiram e penetraram na sala de jantar, onde acharam D. Úrsula e Mendonça, este a percorrer com os olhos um jornal do dia. O almoço serviu-se imediatamente.

Padre-mestre, disse D. Úrsula, demorou-se tanto que cuidei... tivesse idéia de me arrebatar Helena.

Estive-a ouvindo de confissão, respondeu Melchior.

E pôde absolvê-la?

Decerto.

(continua...)

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