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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Mas a ilustríssima ainda não tornou em rua nova o anexo da Rua do Ouvidor; e portanto viajemos por ele.

Da ponta do pé da perna mais comprida da vaidosa fidalga, vemos parte da Praia do Mercado, e pelo portão fronteiro penetram nossos olhos um pouco no interior da Praça do Mercado.

Nem a praia nem a praça pertencem à Rua do Ouvidor; mas é impossível deixar de considerálas de passagem.

A Praça do Mercado está longe de ser condigna da capital do Império: acanhadíssima, úmida, malpoliciada, às vezes toda cheiro de maresia, de aves amontoadas e de hortaliças já deterioradas, é lugar desagradável em vez de ser atrativo. O peixe expõe-se em tabuleiros sobre ruazinha sempre alagada, e pequenos tanques de peixes vivos faltam absolutamente.

A Praia do Mercado é ainda pior, e penso que faço grande favor em não demonstrar o meu juízo.

Ao menos, porém, há ali, na praça e na praia, fiscais agentes e guardas-fiscais, que uma de duas, ou não a fiscalizam, ou a praça e a praia seriam infiscalizáveis focos de peste do Rio de Janeiro.

E no entanto, além de utilíssima e imprescindível instituição, como é, a Praça do Mercado aumentada, desenvolvida, aprimorada, igual a de outras grandes capitais do mundo civilizado, podia ser no Rio de Janeiro lugar atrativo, e até ornamentador da cidade.

Mas... viajemos enfim pelo primeiro quarteirão... ou anexo da Rua do Ouvidor.

Paciência, bela fidalga!

Aqui, nem ao menos posso indicar qual foi a casa tradicional donde saiu a maçã mandada ao inconfidente Coronel Freire de Andrade por sua dedicada irmã.

Aqui predominam os armazéns de carne-seca e toucinho; a Rua do Ouvidor; porém, que é filosofia, deve lembrar que a carne-seca é no Brasil a primeira representante da filosofia positiva, porque é a principal alimentadora do povo, e eu posso em consciência afirmar que uma manta de carne é muito mais útil do que a manta mais rica de lã de camelo.

E, paciência outra vez, fidalga vaidosa!

É no desestimado anexo que se acham os dois edifícios mais notáveis da Rua do Ouvidor; a Igreja da Lapa dos Mascates, e por sua parte lateral a Igreja da Santa Cruz dos Militares.

Não quero prolongar este capítulo, ou demorar a viagem, copiando a descrição arquitetônica das duas igrejas, que me foi oferecida por autoridade competente; mas é certo que a da Santa Cruz dos Militares não tem ainda superior no Rio de Janeiro sob o ponto de vista da arquitetura; e a da Lapa dos Mascates, embora pequena e encantadora em estreitas ruas, merece a atenção dos homens da arte.

Esta última igreja depois dos consideráveis melhoramentos, que ultimamente recebeu de piedosos e dignos benfeitores, teve novos sinos vindos de Portugal (creio eu) que repicam a preceito, executando alegros de óperas de Offenback.

A escolha dos tais alegros não foi feliz; aqueles, porém, que tanto badalaram contra essa irreligiosidade, posto que tenham razão, esquecem que nas grandes e solenes festas das nossas igrejas até se anunciavam os nomes das cantarinas do teatro, que iam cantar este e aquele solo de música absoluta e exclusivamente do gênero das óperas italianas.

E eis-nos chegados à Rua Primeiro de Março, com a qual nada temos que ver, e, portanto, atravessemo-la, mas com todo o cuidado, meus leitores e companheiros de viagem, porque os bondes e carros, carrinhos e carroças nem permitem que pestaneje o cidadão pedestre, que nesse ponto tem de atravessar a rua ex-Direita.

Oh! agora sim, agora começa legítima a Rua do Ouvidor fidalga, vaidosa e começa até simbólica (pelo menos atualmente), porque tem nas suas duas quinas com a Primeiro de Março, do lado direito casa de francesa modista, e do esquerdo casa de charutos, de cigarros e cachimbos, de modo que enquanto dali para gozo e encanto das senhoras range a tesoura, retalhando veludos, cetins e sedas, defronte há para os homens, para os pais e maridos sovinas ou de fracos recursos pecuniários a consolação de ficar fumando.

A charutaria, à que me refiro, acaba até de explorar os desastres do império otomano na guerra com a Rússia, fazendo boa importação de fumo turco, e quem sabe se de cachimbos de ulemás e de bachás.

Mísera Turquia!... em desmesurado infortúnio priva-se até de seu fumo e dos seus cachimbos monumentais. Ai!... que não exporte (ao menos para o Brasil) as odaliscas e as escravas dos seus serralos!...

Até a Rua do Carmo à esquerda, e o beco ou travessa das Cancelas à direita, só conheço duas casas de notabilidades, pois que não me é possível marcar uma terceira, aquela em que morreu ou penou Perpétua Mineira, se realmente houve ali Perpétua Mineira: se houve, a sua casa era do lado esquerdo.

A primeira das duas casas memoráveis e ainda hoje famosa principiou a sê-lo, em 1824, como confeitaria do Carceller.

(continua...)

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