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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Eu julgo que o país faz bem e exprimiu com tempo e com firmeza o seu desejo de paz, porque, abandonando-se às suas próprias inspirações e aspirações, Lord Beaconsfield declararia a guerra amanhã: o seu ódio à Rússia e à raça eslava só é igualado pela sua paixão pela raça semítica e pelas nações arábicas: ama, além disso, na política, o elemento dramático e brilhante: tem o temperamento batalhador e militante que ele outrora atribuiu ao seu herói Tancredo: tem-se colocado como um antagonista histórico do czar, o que lisonjeia o seu orgulho de judeu e de plebeu: além disso, sendo um perfeito cortesão, desejaria dar à rainha Vitória o presente que mais a encantaria – uma guerra em favor da Turquia. Porque a pessoa que no reino é mais anti-russa, mais pró-turca, mais fanática da política tradicional, da aliança otomana, mais zelosa dos chamados interesses britânicos e mais pronta à guerra, é a rainha. E tem-no mostrado ultimamente de um modo tão saliente que causa alguma surpresa e muita tristeza aos que estão acostumados a vê-la observar, religiosamente, as regras mais exactas da abstenção constitucional. Em primeiro lugar a rainha publicou ultimamente um «panfleto contra a Rússia»: e eu me explico: o Sr. Theodore Martin está imprimindo uma biografia do príncipe Alberto, cujos elementos e documentos são fornecidos pela rainha: a rainha é, de facto, a colaboradora essencial deste trabalho: há páginas que estão tão profundamente impregnadas das suas opiniões, das suas simpatias, direi mesmo das suas afeições, que parece que o nome de Theodore Martin é apenas um pseudónimo literário sob o qual se oculta a rainha Vitória: ora justamente o terceiro tomo desta biografia acaba de ser publicado, e refere-se ao período da vida do príncipe no tempo da Guerra da Crimeia: as cartas do príncipe transcritas, os seus discursos, as suas opiniões, a reprodução das suas conversações, sobretudo a história da sua influência na política inglesa desse tempo, mostram que ele tinha a maior simpatia pela guerra contra a Rússia e que concorreu poderosamente para a sua realização: o volume inteiro é a apologia prolongada desta simpatia, e a rainha, por intermédio do Sr. Martin, revestindo-se das opiniões do seu marido, e fazendo, neste momento, a sua glorificação, dá claramente ao país a expressão das suas opiniões pessoais. Diz-se mesmo que, depois de um dos últimos conselhos de ministros, em que Lord Derby e Lord Salisbury tinham energicamente advogado uma política de abstenção, a rainha disse a Lord Beaconsfield, dando-lhe este terceiro volume da Vida do Príncipe Alberto:

– Peça aos seus colegas que desejam a paz que leiam este livro: têm muito que aprender aqui.

De facto o volume é um ataque terrível contra a Rússia, contra a falsidade tortuosa da sua política, a instabilidade desonesta das suas promessas e a intensidade das suas ambições.

Mas a maior demonstração da rainha em favor da guerra, foi a sua recente visita a Lord Beaconsfield: não uma visita particular, mas oficial, em cerimónia, como rainha de Inglaterra e imperatriz das Índias. Semelhante honra é tão extraordinária, tão contrária aos hábitos da corte e aos costumes da rainha, que, ao saber tal, todo o reino ficou mudo de espanto. O imperador do Brasil, o imperador da Rússia, a imperatriz da Áustria, todos os príncipes herdeiros e todas as coroas europeias têm vindo a Inglaterra, e a rainha nunca lhes fez uma visita: é inútil dizer que nunca a fez a um lorde de Inglaterra nem a nenhum dos seus primeiros-ministros, nem mesmo a Lord Granville, por quem ela tem a maior simpatia pessoal. Portanto, a sua cerimoniosa jornada a Hughender Manor, propriedade e residência castelã de Lord Beaconsfield, deu origem às interpretações mais fantásticas e aos boatos mais insensatos; mas a verdade é (e todas as pessoas razoáveis o compreendem) que a rainha, fazendo uma tal honra ao ministro que mais advoga a guerra, quis manifestar que lhe dava todo o seu apoio e que estava com ele na mais perfeita comunidade de vistas e talvez de decisões. Mas que importa toda esta manobra de ministros e da rainha se a Inglaterra quer o contrário? E quando o forte John Bull exprimir resolutamente a sua vontade, os altos personagens do ministério e da corte têm de obedecer como os bois obedecem ao carreiro.

Da guerra não há senão notícias mais ou menos incertas: assim não creio que se deva dar muito crédito ao espantoso boato de que Suleiman Paxá apareceu inesperadamente em Constantinopla à testa de dez mil homens, para fazer uma revolução, derrubar o Governo, exonerar o sultão e criar uma ditadura militar sob o nome do ex-sultão Murad, destinada a continuar a guerra até à última extremidade. Suleiman Paxá, é certo, pertence ao partido fanático, é uma espécie de general softa, inimigo das reformas europeias, ciumento das velhas tradições otomanas, hostil ao estrangeiro e à sua influencia: mas, por isso mesmo, creio, bastante patriota para não querer complicar a guerra estrangeira com uma revolta interior, e pôr à testa do Governo homens de quem a Europa desconfia, neste momento em que o seu país mais precisa a benevolência e a confiança da Europa.

E o mais crível é que a ele fosse a Constantinopla organizar um exército que defenda o caminho para a capital no caso que Andrinopla fosse tomada ou torneada.

(continua...)

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