Por Eça de Queirós (1925)
Mas então, nos dias seguintes, tomou-o uma lassidão, como que a saudade d'um mundo superior perdido, de gloriosas intimidades para gunpre cor tadas. Mesmo no seu amor pela desconhecida da Estação d'Ovar, sentia agora uma diminuição, como se durante o seu trabalho ella se tivesse pouco a pouco esvaído da sua alma, n'aquelles longos fluxos de lyrismo. A Lisboa real já não o fascinava tanto. Era como uma visão que empallidecia — desde que pintara uma Lisboa dramatica, com cores tão intensas. Relia a todo o momento o manuscripto, mas as as scenas melhores, agora, pareciam-lhe frias, e foi sem fé que escreveu ao Damião, contando-lhe o enredo, pedindo-lhe como um serviço, a elle e á « Idéa democratica que lhe alcançasse a representação dos Amores de Poeta, em D. Maria ou no Gymnasio. E para elle fazer idéa da fórma do estylo, remettia-lhe copia da grande scena entre Alvaro e a Duqueza, n'um parque, em Cintra.
Semanas passaram e a resposta do Damião não veio. Enfastiava-o então ter al]i o manuscripto sobre a mesa, sem tirar d'elle um proveito directo em applausog ou dinheiro. Uma noite, não se conteve : correu á Corcovada com o seu drama debaixo do paletot, a procurar o Rabecaz.
Installaram-se no cubiculo, com uma garrafa de genebra. Ás primeiras scenas amorosas, lyricas como um duetto d'opera, o Rabecaz, oscillando a cabeça, d'olho cerrado, murmurou apenas :
— Está catita, está catita.
Mas o insulto no sarau de mascaras, a apostroPhe do duque : Quem ousar erguer 08 olhos sequer para a duqueza de S. Romualdo, póde enconunendar a mortalha ! o duello no cemiterio, as declamações da agonia, levantaram o Rabecaz. Atirou um murro á mesa :
— Com mil diabos r isso é a Oousa de mais effcito que tem apparecido em Lisboa ! Vem a casa abaixo. Irra, que está d'arromba ! É arranjar empreza.rio ! Parabens, seu diabo ! Você tem o diabo no corpc !
Approvou com furor que Arthur tivesse escripto ao Damião.
—- Que isso, mal se souber em Lisboa, todos os emprezarios é mais a mim, mais a mim ! Está d'arromba ! Irra !
Arthur, commovido, pagou a ceia. E Rabccaz fez planos tremendos : apenas o amigo Arthur recebesse
a. primeira chêta, mandava-lhe um vale do correio e elle ia a Lisboa. E ainda tinha amigos em Lisboa, elle, e haviam de lhe offerecer uma coroa ! Irra ! Que havia de aquelle Matta vir abaixo, com uma ceia formidavel ! Chainpagne e pequenas ! Irra !
Arthur entrou em casa, n'uma excitação absurda ; agora, aquecido por aquella admiração do Rabecaz, o seu drama apparecia-lhe com um esplendor imprevisto e não duvidava do « successo Pediria dinheiro adiantado ao emprezario, iria elle mesmo dirigir os ensaios ! . . .
Áquella idéa, o coração batia-lhe, no delirio d'uma esperança. Via-se já entrando no palco, ves tido de preto, muito olhado pelas actrizes ; de certo alguma se namoraria d'elle: seria um parenthesis carnal no seu grande amor á Petrarca . . . Até que uma noite, deante d'uma multidão immobilisada no santo respeito da Arte, ás ultimas arcadas da or chestra, erguer-se-ia devagar o panno ; Ella lá estava n'um camarote, com diamantes no collo nú, e choraria . . a dÔce creatura choraria, vendo o poeta morrer ! — Mas não, tontinha, eu aqui estou, vivo, amante, captivo ! E toda esta gloria é como um tapete que to estendo, para pousares em cima os pézinhos subtis e breves que te hão-de levar aos rendez-vous do divino peccado na plateia, n'um estridor de ovações, sob o brilho do gaz, a cidade acclamava-o ! Lenços de renda, pelos camarotes, en-
xugavam rostos mimosos ! . . . Onde se encontraria depois com Ella ? N 'um recanto contemplativo ? Na frescura das ramagens molhadas onde os frousfrous das azas se misturam ao gotejar das nascentes E toda a gua vida lhe apparecia assim, ideal e vibrante, com doçuras d'egloga e brilhos de triumpho : os Esmaltes e Joias, publicados, tornarse-iam as estrop.hes amadas das almas ternas ; a sua Ode á Liberdade faria empallidecer os conservadores e preoccuparia o governo ; poderia talvez chegar a uma alta situação no Estado ; vi veria gloriosamente, discutido nos jornaes, n a um primeiro andar d 'hotel caro, com um robe-de-chambre de velludo, tendo aos pés um cão de S. Bernardo. E aquillo passava-se longe, n'um lugar que devia ser Lisboa, n'uma seintillação d'apotheose !
Abafava : abriu a janella. Uma esplendida noite de Julho enchia o espaço ; estrellas sem fim rebrilhavam ; os quintaes, as hortas, dormiam : d'aquella natureza estendida em baixo, parecia sahir a respiração d'um ser consciente, adormecido ; um cheiro morno subia das telhas escaldadas e nas folhagens muito saturadas de sol, no bafo espesso, cheio da ardencia do dia torrido, a evaporação dos tanques fazia passar halitos frescos ; peios pomares, ao lado, a agua das regas murmurava na sombra, dôcemente ; errava um aroma de clematites e das flores dos feijoaes,
— Que bella noite ! — disse alto.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.