Por Eça de Queirós (1912)
Bem depressa o Senhor apareceu montado num potro branco, com plumas brancas na gorra, sob a qual caíam os seus cabelos louros. Um aio, ao seu lado, levava o falcão no punho. E dois cavaleiros seguiam, de lança alta. Vendo Cristóvão, o menino gritou de alegria: e três vezes fez correr o potro, que se espantava, em torno de Cristóvão imóvel, com a sua maça no ombro. Depois, atravessando a ponte levadiça, correu pelo caminho largo, voltando-se na sela, airoso e vivo, para ver Cristóvão, que trotava com as suas vastas passadas, a longa guedelha ao vento. Pelas portas dos casebres, os vilões do castelo ajoelhavam à passagem do Senhor, que lhes atirava moedas de cobre, da sua escarcela; depois, em grupo, com os braços estendidos, ficavam a olhar o gigante que corria atrás.
Ao fim do passeio, tendo parado numa clareira onde se erguia uma torre, o
menino não quis montar no potro, mas voltar ao castelo, cavalgando Cristóvão. Debalde o aio, com um joelho em terra, o potro pelas rédeas, lhe pediu para montar. Com o olhar vivo, ele disse só: “Mas quero!” E, suspirando, o velho aio ajudou-o a trepar até ao pescoço de Cristóvão, onde ele montou, com as suas esporas fixadas no peito de couro.
Então a sua alegria foi extrema. Era como se estivesse no alto de uma torre que caminhasse. Ora o fazia parar para apanhar as mais altas flores dos medronheiros, que atirava ao chão; ora queria espreitar os ninhos; ora, espicaçando o peito de Cristóvão, corria agarrado aos seus cabelos, como as rédeas de um ginete. E assim voltou ao castelo, onde a mãe e a avó, na grande varanda de pedra, apertavam as mãos, entre inquietas e agradadas, ao ver assim o menino cavalgar o gigante, como nos contos dos menestréis.
E desde esse dia a melhor alegria do menino foi cavalgar Cristóvão. Eram então grandes correrias em torno às muralhas, ou em volta dos fossos, por vezes mais longe, até a floresta, Cristóvão sempre trotando, o menino sempre rindo. E assim pouco a pouco o menino se afeiçoara a Cristóvão, como um cavalo que o compreendia, o fazia rir, com corcovos violentos, ou passos largos e ondulados, como os de um vasto dromedário. Cristóvão também, pouco a pouco, se dera de todo o coração à criança. Quando o sentia sobre os ombros, toda a sua face se alumiava. Por mais fortemente que lhes puxasse os cabelos, só sentia a carícia das suas mãos. Para o fazer rir, relinchava como um corcel de guerra; ou fingia medo, não queria avançar, e as esporas do menino rasgavam o couro do seu tabardo. Nos dias em que chovia e o menino não saía do castelo, todo o dia Cristóvão rondava tristemente pelos pátios, com a melancolia da sua ociosidade: e de noite não recolhia à sua estrebaria, com os olhos na janela onde luzia a luz que alumiava o menino.
Por vezes, porém, o menino queria que Cristóvão viesse assistir ao seu jantar: - e então dois pajens abriam mais largos os grandes reposteiros de tapeçaria para que Cristóvão penetrasse na vasta sala, onde o teto era pintado de azul, e salpicado de flores que brilhavam como recortadas em ouro. Imóvel a um canto, ele contemplava o menino, que se sentava ao lado da avó, numa cadeira de alto espaldar como a dela. Por trás, o seu aio tomava os pratos da mão do escudeiro. Sobre a mesa, coberta de linho fino, retiniam os copos de prata. Os bufetes vergavam ao peso das baixelas. Uma grande fogueira bailava na chaminé, onde estava representado o cerco de Antioquia: - e sobre os poleiros de ferro polido, os falcões afiavam o bico.
Mas, por vezes, o menino queria Cristóvão mais perto. Então a mãe, resignada, fazia um gesto seco: - e Cristóvão, muito humilde, assustado dos esplendores senhoriais, vinha, vergando os ombros, com o seu barrete na mão. O menino queria-o de joelhos, com as mãos no chão, e batia-lhe nas costas, estendia-lhe pedaços de carne, que ele comia com ruído para o divertir mais,
Outras vezes, à noite, um pajem vinha buscar Cristóvão às cozinhas, e entrava na grande sala, onde ardia uma fogueira na chaminé. Sentada na sua cadeira, a avó tinha um livro de horas aberto nos joelhos, com o menino ao lado. Defronte a mãe fazia tapeçaria. E um trovador, ao pé, sentado num escabelo, contava um longo romance de cavalaria e de amor. Era sempre um paladino de armas negras, uma dama encerrada nalguma alta torre, um gigante guardando a porta de um castelo encantado. O menino exclamava:
— Também tenho um gigante!
E fazia então erguer Cristóvão, que parecia monstruoso, com os grossos joelhos vivamente alumiados pela chama dos trocos ardendo, a cabeça quase perdida na sombra das altas vigas. O frade erguia as pálpebras dormentes; a dama ficava com a longa agulha suspensa sobre a tapeçaria; e todos, olhando Cristóvão, sentiam mais real e viva a longa história de fadas e cavaleiros. Depois os escudeiros serviam bolos secos, e as grandes canecas do hipocraz.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.