Por Eça de Queirós (1900)
- Pois sim, Barrolo! Mas você na Ribeirinha e na Murtosa tem de pagar as contribuições que eles mandarem. E nesses concelhos tem de agüentar as autoridades que eles nomearem. E goza para lá de estradas se eles lhas fizerem. E vende o carro de pão e a pipa de vinho com mais ou menos proveito, segundo as leis que eles votarem... E assim tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem manda é quem lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em VilaClara, agora para o S. Miguel, aumenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguém quer, porque mataram lá o carrasco, que ainda lá aparece... E o Cavaleiro, esse, como parceiro, vive de graça neste belo palácio de S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...
Barrolo atirou um chut, de mão espalmada, abafando o vozeirão do Titó, com medo que as regalias do Cavaleiro, assim proclamadas, renovassem as fúrias de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, atento ao João Gouveia, que, enterrado no canapé depois da sangria, novamente contava o seu assombro, ao encontrar no chafariz, em Vila-Clara, o rapazola do Gago com o recado da grande festa na Torre:
- E cheguei a desconfiar que realmente você desse festa, quando bateram as nove, depois asnove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da D. Casimira!... Bem, pensei, também recebeu recado e abalou para a Torre! Por fim, apenas ele apareceu, de carapuço e de jaqueta, percebi que fora troça do Sr. D. Gonçalo...
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:
- De carapuço e jaqueta? O Titó andava nessa noite de carapuço e de jaqueta?...
Mas bruscamente Barrolo, da funda janela, lançou para dentro, para a sala, um brado de pavor:
- Oh! rapazes! Santo Deus! Aí vêm as Lousadas! João Gouveia saltou do canapé, como numperigo, reabotoando arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Titó e o Barrolo que recuavam, no terror de serem apercebidos através dos vidros largos; até Padre Soeiro, prudente, abandonou o seu recanto onde corria os óculos pela Gazeta do Porto. E todos, dentre a fenda das cortinas, como soldados na fresta de uma cidadela, espreitavam o largo, que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da Cordoaria. Do lado da rua das Pegas, as duas Lousadas, muito esgalgadas, muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos, ambas com guarda-sóis de xadrezinho desbotado, avançavam, estirando pelo largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Lousadas! Secas, escuras e gariulas como cigarras, desde longos anos, em Oliveira, eram elas as esquadrinhadoras de todas as vidas, as espalhadoras de todas as maledicências, as tecedeiras de todas as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nódoa, pecha, bule rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janela entreaberta, poeira a um canto, vulto a uma esquina, chapéu estreado na missa, bolo encomendado nas Matildes, que os seus quatro olhinhos furantes de azeviche sujo não descortinassem - e que a sua solta língua, entre os dentes ralos, não comentasse com malícia estridente! Delas surdiam todas as cartas anônimas que infestavam o Distrito; as pessoas devotas consideravam como penitências essas visitas em que elas durante horas galravam, abanando os braços escanifrados; e sempre por onde elas passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e receio. Mas quem ousaria rechaçar as duas manas Lousadas? Eram filhas do decrépito e venerando general Lousada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois duma castidade tão rígida, tão antiga e tão ressequida, e por elas tão espaventosamente alardeada - que o Marcolino dO INDEPENDENTE as alcunhara de Duas Mil Virgens.
- Não vêm para cá! - trovejou o Titó, com imenso alívio.
Com efeito no meio do largo, rente à grade que circunda o antigo relógio de sol, as duas manas paradas erguiam o bico escuro, farejando e espiando a Igrejinha de S. Mateus onde o sino lançara um repique de batizado.
- Oh, com os diabos, que é para cá!
As Lousadas, decididas, investiam contra o portão dos Cunhais! Então foi um pânico! As gordas pernas do Barrolo, fugindo, abalaram, quase derrubaram sobre os contadores os potes bojudos da Índia. Gonçalo bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava com desespero o seu chapéu-coco. Só o Titó, que as abominava e a quem elas chamavam o Polifemo, retirou com serenidade, abrigando o Padre Soeiro sob o seu braço forte. E já o bando espavorido se arremessara sobre o reposteiro - quando Gracinha apareceu, com um fresco vestido de sedinha cor de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:
- Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a doce senhora ameaçada:
- As Lousadas!
- Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a mão que ela lhes abandonou, esmorecida. A sineta do portão tilintara, temerosa! E a fila acavalada, onde Padre Soeiro rebolava a reboque, enfiou para a Livraria que o Barrolo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspiração:
- Esconde as sangrias!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.