Por Camilo Castelo Branco (1862)
Era para ver como o inexorável Sanches se enfurecia em invectidas contra Pedro, que passava diariamente duas vezes em tal rua, para inquietar a moça incauta! Chegava a chorar no apuro do sentimental, que prodigamente consumia, descrevendo os funestos resultados da sedução. Menos perdoaria a Martinho, que, impudico e sacrílego, ousava ir aos domingos, à missa do meio-dia, aos Congregados ou Clérigos, para ver pelas costas a mulher do seu vizinho Januário, depois de ter sujado a fama da mulher do seu vizinho Timóteo! E, em seguida, punha em miúdos a história do descrédito daquelas senhoras, casadas com seus amigos, e havia risadas à conta dos maridos, e ficavam todos sabendo o que até então ignoravam. Momentos depois, se lhe pediam novidades, o doutor respondia que não só se abstinha de indagar a vida alheia, mas até quisera, se pudesse, cerrar ouvidos às histórias torpes que todos os dias germinavam da corrupção do corpo social.
Francisco José de Sousa prezava no doutro o que muitos chamavam sobejidão de escrúpulos. Parecialhe, a ele, brasileiro, vilã e torpe a incessante detracção em que entretinham os saraus algumas dezenas de velhos, de cuja língua a palavra licenciosa dos bordéis saia mais nojenta do que é em si. Anselmo, para não cair no desagrado do seu amo, dizia que o mal não era a sátira, mas sim o estragamento dos costumes que a autorizava. Escusando os velhos, acrescentava que as cãs eram um pouco intolerantes; porém, inofensivas.
Simpatize o leitor com o Dr. Anselmo, para que se não diga que a virtude é mal vista como a verdade nua.
V
9 Ao tempo que Silvestre da Silva escrevia esta impertinência contra a Assembléia Portuense, tinha esta sociedade uma sala privativa de alguns indivíduos, que se divertiam contando passagens da vida alheia, em linguagem acomodada aos assuntos. Os sócios desta congregação, chamada “Palheiro”, eram pessoas respeitáveis, maiores de cinquenta anos, qualificadas na jerarquia eclesiástica, no comércio nobilitado e na magistratura, sendo o principal elemento do Palheiro negociantes aposentados, vindos do Brasil. A razão de chamar-se “Palheiro” àquela reunião não a sei. Conjecturalmente diziam alguns etimologistas que palheiro derivava de palha, querendo concluir que o pensamento de quem dera o nome à coisa fora significar o alimento natural dos sócios reunidos naquele ponto do edifício. Acho muito violenta e sobremaneira desatenciosa a hipótese. Os cavalheiros, ofendidos com tal interpretação, eram pessoas que tinham boas lembranças, propósitos salgados e instrução variada para enfeitar as desgraciosidades da maledicência. Estas qualidades intelectivas não se nutrem com palha, penso eu.
Conquanto não fosse extremamente agradável ouvir um sexagenário a discorrer em termos lúbricos acerca das suas libertinagens de rapaz, eu tenho mais que muito para mim que o sal ático dos eufemismos havia de encobrir a impudicícia da ideia.
O que havia de menos louvável nas sessões daqueles cavalheiros era a obrigação que reciprocamente se impunham de esmiuçarem os pormenores das desonras meio veladas para os contarem de modo que a difamação pudesse dali sair a desenrolar o sudário das chagas sociais à luz do sol. Quando os relatores não tinham que expender, era permitida a calúnia para gastar o tempo: quer-me parecer que este artigo dos estatutos do Palheiro não merece louvores. Homens a escorregarem à sepultura, uns entrajados com as severas vestes da religião de Cristo, outros com o peito honrado por cruzes e crachás, outros com numerosa posteridade de filhos e netos, não davam de si boa prova indo para ali afiar a linguagem do impudor, decretar a publicidade de desgraças, que não precisavam da infâmia pública para o serem, e inventar escândalos para aligeirar os tédios da noite.
O que tinham de mais humano aqueles sujeitos era comerem muito biscoito de Valongo e forragearem nos tabuleiros às mãos-cheias para levarem à família. Isto, que não parece bonito, era a coisa de mais sainete e folia que os velhinhos faziam na assembléia.
O tempo foi matando uns e espalhando os outros, de modo que o Palheiro, à falta de concorrentes dignos, ficou devoluto, à espera que a geração nova passe da torpeza militante para as pacíficas recordações de suas façanhas.
No espaço de três meses, a contar da violenta introdução de Mariana nas Ursulinas de Braga, saiu a lume o tenebroso mistério; mas sem estrondo, porque andava muita gente apostada a encobrir Anselmo Sanches para não ter de proclamar a infâmia do apostólico varão, que tinham santificado.
Eu hei-de abreviar em poucas páginas o que sei. Não me posso ver muito tempo encharcado nesta lama, onde me atirou um dos empurrões da sorte. Lama por toda a parte onde me impeliu o coração e a cabeça! Toda a gente se goza dalgumas paragens risonhas; a todo o peregrino da vida é dado assomar de barrancos resvaladiços às chãs pitorescas, e descansar, e esforçar-se aí para se afrontar de novo com as fadigas da jornada. Eu, de mim, nào tive o que têm todos. Onde quer que parei, resvalei num atascadeiro. Quando os acicates do amor me arremessavam às aventuras do coração, ia-me esbarrar com tolas ou devassas, ou desgraçadas tais como Marcolina. Se era a razão que me induzia com os seus cálculos egoístas a tomar o meu quinhão daquilo que o vulgo chama senso comum, já sabem que consequências eu vou tirando das minhas racionais primícias. Vi três mulheres à luz serena do raciocínio. Saiu-me parva a primeira, a ponto de me obrigar, sendo eu em extremo delicado, a perguntar-lhe se gostava de caldo de repolho. A segunda, para me humilhar e abater o orgulho, deu-me em Josino um rival preferido. Esta terceira, a Mariana dos olhos doces e jeitos de inocência lorpa, vão agora saber no que deu.
VI
Grandes considerações!
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.