Por Camilo Castelo Branco (1864)
Lida a pergunta, Afonso abancou para responder. Posta a primeira palavra, ergueuse de salto. Chamou o criado da cavalariça. Mandou pensar os cavalos para jornada longa. Sentou-se a escrever a D. José de Noronha. Cuidou seguidamente dos aprestos para a partida; e, duas horas antes da saída do correio, galopava na estrada do Porto. A meia jornada fraquearam os cavalos. Afonso fez remonta em Coimbra, sem discutir o preço de novas cavalgaduras, e chegou a Barcelos duas horas primeiro que o correio.
Quando apeou na estalagem de Barcelinhos, encostou a cabeça esvaída à borda de um leito e adormeceu. Rompia a manhã. A mim me contou ele que, dormindo uma hora, acordara transido do horror de um sonho. Vira Teodora em trajes de bacante, revolteando umas valsas lúbricas, e atirando-se ébria, e torpe de impudicícia, aos braços de um homem. Era um sonho; mas ao despertar, Afonso sentia abrir-se-lhe o coração a golpes de arrependimento. A prostração era invencível: adormeceu outra vez, e sonhou que via sua mãe agonizante nos braços de Mafalda. Acordou espavorido; ergueu-se arrancando a mãos frenéticas aquela imagem da fronte; o arrependimento era já lançada de remorso. Abriu o relógio: viu que era ainda tempo de fugir... Diz ele que fugiria...ai!, eu não creio que ele fugisse, não! Chamara o criado para arrear os cavalos... eis que, ao cimo da rua, soa tropel de ferraduras, e faz-se rápida paragem à porta, da estalagem.
Afonso descora, vai de encontro às vidraças, e vê apear a morgada. O quarto dele era contíguo à sala comum. Já Afonso lhe ouvira os passos escada acima, e logo a voz ordenando ao lacaio que amantasse os cavalos e fosse receber as suas ordens. Foi ele manso e manso espreitar pela fechadura. Respirava em arquejos ao avizinhar-se da porta. Curvou-se, inspirando sôfrego o ar que lhe saia a sacões do peito.
Viu-a. Estava com o braço esquerdo encostado à mesa central da sala, e a face reclinada para a mão. Com a direita chibatava, como alheada do que fazia, o pó acamado no roçagante vestido de casimira verde-escuro. Verde era o véu do chapéu, que, momentos depois, ela tirou com rápido movimento e rojou ao longo da mesa. Levou ambas as mãos às fontes, afastando os anéis dos cabelos, que se encaracolavam rosto abaixo até às espáduas. Demorou-se momentos naquela postura. Ergueu-se impaciente e passeou de um a outro lado da casa, vibrando o chicote, e tirando com força pelo trancelim de ouro do relógio. Volveu a sentar-se, com o rosto voltado em cheio contra a porta, de onde Afonso a observava. "Poucos traços lhe vi então das feições menineiras com que a deixara", me disse ele. "Da menina admirável o que ela ainda tinha era o ar angélico; mas a beleza da mulher deslumbrava as reminiscências da criança."
Venceu Afonso os ímpetos que o empuxavam para abrir a porta. Esperou, sem saber o quê; esperava o desencantamento, esperava o dom da palavra retraído ao coração.
Entrou um lacaio, que ela mandou logo ao correio com um bilhete ali escrito a lápis. Desde este momento, Afonso já sabia o que esperava: queria vê-la aflita com a falta da carta. No intervalo, Teodora chamou o criado da hospedaria e pediu café, O criado, ouvidas as ordens, dirigiu-se ao quarto de Afonso; este viu-o e afastou-se.
Aberta a porta subtilmente, perguntou o criado se Sua Excelência queria almoçar. Afonso respondeu com um aceno negativo. Fechada a porta, perguntou Teodora:
- Quem é que está naquele quarto?
- Não sei, fidalga - respondeu o moço. Afonso repôs-se à fechadura.
Chegou o lacaio.
- Trazes? - exclamou ela como assustada.
- Não há, minha senhora.
- Não?! -bradou ela batendo o pé. - É impossível! É impossível! Deve lá estar uma carta!...
- Saberá V. Exª que eu lia lista primeiro, depois fui dentro perguntar ao homem que dá as canas - disse o lacaio, e saiu.
- Inferno! - clamou ela estortegando os dedos que estalavam nas articulações. - Maldita eu seja, que tão aviltada me tomei!
Sentou-se a arfar e a chorar, e logo depois levantou os pulsos comprimindo as fontes.
Pôs depois as mão enclavinhadas junto dos lábios, encostou a barba ao pólex da mão esquerda, abaixou a cabeça e meditou.
Entrava o criado com a bandeja. Teodora, estremecendo como atemorizada, relanceou os olhos sobre o criado e disse-lhe com desabrimento:
- Deixa ficar. Cá me sirvo, O lacaio que almoce e aparelhe.
Neste momento, Afonso abriu a porta e disse com a voz convulsa:
- Um passageiro pede uma chávena do café de V. Exª.
O leitor já sabe, por todos os romances, por todos os dramas e por todos os actos da vida real, semelhantes, muito ou pouco, a este, o que Teodora fez. Um ah! ou dois é o nariz de cera para todas as surpresas. fabricadas desde Homero, ou mais de longe.
Adão, quando viu Eva, devia dizer-lhe Ah! A Eva, quando viu a serpente, se não fugiu, eu vou jurar, sem menoscabo do historiador Moisés, que, mais ou menos nervosa, exclamou: Ah! A interjeição é coeva do homem, que nasceu cheio de espantos.
Espanto, porém, igual ao da morgada, se o houve, foi o meu, quando Afonso me disse que Teodora não expediu do seio interjeição nenhuma, nem ah! sequer.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.