Por Machado de Assis (1872)
— Pois bem, continuou Batista. Estamos nesse caso. Ela é extremamente caprichosa, e mais ainda que caprichosa, é amante de cousas d'arte. Há dias fui achá-la aborrecida. Interroguei-a; nada me quis dizer. Pela conversa adiante falou-me duas ou três vezes numa gravura que vira na Rua do Ouvidor, e que o dono vendera quando ela lá voltou, disposta a comprá-la. O assunto era o mais ortodoxo possível: a lsraelita Betsabé no banho e o rei Davi a espreitá-la do seu eirado. Não lhe parece galante? A gravura creio que era finíssima; mas tinha, além disso, um merecimento para a pessoa de quem lhe fato: é que a figura de Betsabé era a cópia exata das suas feições. Vaidade de moça bonita. Mostrava-se tão desconsolada quando falava naquilo, que facilmente percebi não ser outro o motivo do aborrecimento em que a fui encontrar.
— E então?
— Fiz o que faria qualquer outro. Era necessário que a todo o transe ela possuísse um exemplar da gravura. Fui procurá-lo, e não achei. Gastei dous longos dias nessas pesquisas, e quando voltei à casa dela não tive remédio senão tirar-lhe a última esperança. Ela apertou-me afetuosamente as mãos, e agradeceu-me o trabalho, dizendo me que era mais uma prova de amor que lhe dava; concluiu, porém, tudo isso com um suspiro. Eu não me atrevo a dizer ao senhor o que quer dizer um suspiro neste caso; aquele suspiro era uma insistência do desejo.
— Parece que sim, disse Félix que já adivinhara o final da exposição.
— Dir-me-á o senhor? continuou Batista, que eu devia aproveitar o paquete que partiu ontem e mandar vir da Europa a gravura. Não duvidaria fazê-lo, e ela esperaria de boa vontade; mas quem pode afirmar que o meu amor dure até à volta do paquete? Tive então uma idéia salvadora.
—Ah!
— Voltei à loja onde ela vira a gravura e inquiri do dono da casa quem lhe havia comprado. Depois de algum trabalho de memória disse-me que fora o senhor. A princípio hesitei se devia importuná-lo. O pedido não seria indiscreto em qualquer outra ocasião; mas, quando o senhor está para tomar um estado moral, rogar-lhe que me ajude a enxugar as lágrimas de uma bela pecadora, é mais que indiscrição, é atrevimento. Hesitei, a voz da razão era mais fraca que a do pecado, e venceu o pecado.
Luís Batista calou-se, esperando a resposta do médico. Houve um largo silêncio. Levantaram-se da mesa e foram para a sala, sem que Félix desse a resposta. Luís Batista foi o primeiro que tornou ao assunto.
— Não me pode fazer o que lhe peço? disse ele.
— Tenho estado a perguntar a mim mesmo se me é lícito fazê-lo, respondeu Félix sorrindo, e se ao entrar nas fileiras do matrimônio devo ajudar a deserção de um camarada.
Luís Batista estava naquele dia singularmente falador. A simples observação do médico deu azo a um largo discurso a respeito do regímen matrimonial. Era meio-dia; Félix estava já fatigado da visita e da palestra. Aproveitou um interstício para dizer:
— Em suma, tem grande desejo de possuir a gravura?
— Queria que ma cedesse.
— Faço-lhe presente dela.
— Eu não desejava de nenhum modo prejudicá-lo, disse Batista; há de consentir então que eu lhe faça um presente de noivado.
Félix não respondeu; foi buscar a disputada gravura e trouxe-lha. Luís Batista não pôde
reter um grito de surpresa. A figura de Betsabé, dizia ele, parecia realmente uma cópia da sua dama. A dama era talvez mais formosa do que a cópia.
Foi nesse momento que trouxeram ao médico uma carta, entregue pelo correio. Félix abriu-a distraidamente, mas tanto que lhe leu o conteúdo ficou muito pálido e encostou-se a uma cadeira. Com a mão trêmula aproximou o papel dos olhos, enquanto os dentes mordiam os lábios até deitar sangue. Luís Batista aproximou-se rapidamente de Félix e perguntou-lhe o que tinha.
— Nada, disse o médico, uma vertigem apenas... Há de dar-me licença, preciso estar só. O hóspede curvou-se, sorriu e saiu.
Félix encerrou-se no seu quarto. Do que lá se passou ninguém de casa soube: algum rumor se ouvia de quando em quando, mas abafado, e uma ou outra exclamação vaga e solta. Eram quatro horas quando o médico saiu à sala.
O tempo tinha melhorado. O sol reaparecera entre duas nuvens, dando de chapa nas árvores molhadas de chuva e nos telhados que escorriam um resto de água. Dissera-se que a natureza queria fazer outro contraste ao inverso do da manhã, porque, se a tarde sorria alegre, o homem dava sinais de tempestade interior. Tinha os olhos vermelhos, a boca contraída, os cabelos em desordem. Saiu com passo vacilante. De quando em quando, colhia o alento com a expressão de quem lhe custa respirar. Um escravo, a que ele deu algumas ordem, reparou no estado do senhor, e perguntou-lhe se estava doente. Félix respondeu secamente que não. O escravo abanou a cabeça e saiu.
Félix escreveu em seguida uma carta que sobrescritou para a viúva. Vestiu-se depois. Não tardou que lhe parasse um carro à porta. Meteu-se nele e mandou tocar para a cidade.
CAPÍTULO XXI / ÚLTIMO GOLPE
(continua...)
ASSIS, Machado de. Ressurreição. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1872.