Por Lima Barreto (1921)
Não encontrei nenhum fragmento desses dois afamados colaboradores da original seção do Jornal; mas deparei – alguma coisa interessante.
Na edição de 11 de julho de 1879, há um apedido que tem esse sugestivo título: “Uma excelentíssima touca”. Na gíria do tempo, “touca” era bebedeira. Começava assim:
“Sábado, à noite, já por tarde, entrou pela confeitaria de a Rua Gonçalves Dias, alguém que possui a ‘rara virtude’ de andar abrigado nestes tempos de inverno.”
Dizia mais adiante, referindo-se a esse alguém: “... o caixeiro esquivou-se a servir o ‘potentado’. Levando-o à porta, que logo cuidadosamente fechou sobre os excelentíssimos calcanhares do ‘alegre’ vulto da situação.”
Terminando pedia o imperador carregasse mais o seu luto e assinava: “A nação envergonhada”.
Quem seria o da “touca”? Em todo o caso pode-se dizer que, se de todo os costumes não mudaram, hoje não haveria quem se lembrasse dos apedidos, para tratar de semelhante coisa. Ainda bem...
Há um outro apedido que tem por título – “Um camas”. E de 12 de outubro do mesmo ano que o antecedente.
O início é este:
“Só anda cícero e miserável que pela segunda vez vem com o seu debique”, etc., etc.
Este é do gênero feroz e acaba com o seguinte desafio bem “guaiamu”161: “Eu estou defronte de Santa Efigênia, já vistes, caveira.”
Bem juntinho a esse apedido, “nagoa”162 ou “santa-rita”, desse “solicitador” capoeira, há este outro cheio de delicadeza e blandícia. Ironia da paginação... Vejam só:
“As experiências com o curare. – Acreditando na imparcialidade do Senhor doutor Nuno de Andrade, julgo que a melhor e mais proveitosa maneira de discutir é com os fatos em presença; por isso convido Sua Senhoria para vir ao museu verificá-los e discuti-los, certo de que achará o mais cordial acolhimento da minha parte e do doutor
Jobert. Doutor Lacerda Filho.”
Abre isto, disse eu cá com os meus botões; este doutor Nuno de Andrade tem tido muitos “avatares”! Sabia-o financeiro, economista; em 1878, ele se dava a discussões toxicológicas ou coisas semelhante; quem sabe se ele não é mesmo médico?
Procurei Os Fastos do Museu Nacional, do doutor J. B. de Lacerda, para ver se me punha ao par da questão; mas nada encontrei; a não ser que o doutor Jobert era um boêmio. Isto diz tanta coisa que...
Contudo, neles, vem narrada uma anedota muito curiosa que, apesar de nada ter com o caso, não me escuso ao prazer de repeti-la aqui. Agassiz , em 1864, com a presença do imperador, fez uma conferência, tendo tido uma assistência imensa e até de damas de sociedade que, naquele tempo, se interessavam pela glaciação, pelos blocos erráticos e as moraines alpinas. Terminada a conferência, o grande naturalista pediu aos circunstantes que indicassem as suas dúvidas, pois ele as explanaria.
Nisto levanta-se um doutor Carvalho, professor de terapêutica da Faculdade de Medicina, e, desabridamente, começa a dizer que aquilo tudo eram velharias; ele sabia todas aquelas coisas, etc., etc.
O imperador retira-se e é seguido pelos outros convidados. Carvalho, porém, continua a esbravejar.
Diz o senhor doutor Lacerda que o terapeuta Carvalho pregava do alto de sua cátedra que o Pão de Açúcar tinha um sistema nervoso ganglionário, também impressões e sentimentos que ele não podia externar; e outras coisas mais curiosas.
Ao que parece, este doutor Carvalho nunca empregou nos outros a terapêutica que ele ensinava. É bem de crer que, em um ano se o fizesse, ele teria despovoado o Rio de Janeiro...
E se são assim cômicos e sugestivos os apedidos que encontrei nos retalhos do Jornal que me foram dados, não são muito menos os anúncios que neles achei.
Guardei os que tratavam de escravos. Vejamos. Secundino da Cunha, um leiloeiro do tempo, devidamente autorizado, em 20 de janeiro de 1868, anunciava vender, além de móveis, piano, jóias e trem de cozinha, quinze escravos “de ambos os sexos, todos boas peças”.
Chamava especialmente “a atenção para os escravos, por ser esta uma ocasião que raras vezes aparece, e mesmo sendo reconhecida a probidade de todos os escravos do Senhor Freitas, é a razão por que são recomendados, em todos eles tem mucamas prendadas, cozinheiras, oficiais de oficio e ganhadores”.
O grifo é meu; mas tudo, inclusive a redação, é do anúncio. Não parece que isto se passou há dois mil anos? Pois não foi. Uma tal licitação se efetuou, em 29 de 1aneiro de 1868, há cinquenta anos e meses, na cidade do Rio de Janeiro, quarta-feira, na residência do senhor Tomás Francisco de Freitas, à Rua dos Andradas 48, sobrado. O senhor Freitas ia para a Europa tratar de sua saúde. Deus o tenha em sua santa paz!
Há outro semelhante, mas o leiloeiro é um senhor A. F. Casais. No mesmo mês e ano, porém, a 21, ao correr do martelo, “venderia diversos escravos, com ofícios e prendas”, etc., etc.
(continua...)
BARRETO, Lima. Vida urbana. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2171 . Acesso em: 8 maio 2026.