Por Coelho Neto (1890)
Eram inúmeras as roseiras encostadas a espeques, filas de caladios diversos, begônias, cravos, magnólias, gardênias, dálias, uma araucária esguia, várias palmeiras ornamentais e quatro figuras de louça, sobre pilastras, figurando as estações. A Primavera era uma graciosa e linda rapariga que sorria toucada de flores, pisando flores; o Outono era um ceifeiro moço com uma paveia de trigo aos pés, a foice ao ombro, os olhos no céu, satisfeito e feliz; o Estio era outra donzela, formosa e jocunda, que festejava uma borboleta pousada no seu ombro nu e o Inverno, metido entre árvores, era um velho tristonho, barbado e ferrenho, curvado sobre um cajado, com o gabão muito enrolado em volta do corpo magro e transido.
Sobre as figuras simbólicas as opiniões divergiram: Crebillon gabou-as com entusiasmo, Ruy Vaz achou-as "pulhas". Ao fundo, formando um bosque aceitoso, velhas árvores frondosas faziam sombra a uma barra fixa e a um trapézio.
— Temos aqui a ginástica, a educação física. Ao sair do banho uma flexão, uma sereia, depois o almoço, o trabalho... uma delícia, heim? Isto é sempre melhor do que o pardieiro da rua Formosa, confessem.
— Ora! — exclamaram os três. Contra o muro era o galinheiro, parte coberto, parte ao tempo, cercado de arame, com os poleiros caiados e um tanque para os palmípedes; ao lado a casa do cão coberta de zinco e, bem ao centro do jardim, o aviário de arame em forma graciosa de chalé com o seu repuxo que era, ao mesmo tempo, bebedouro. Crebillon, colhendo uma rosa e fincando-a na botoeira, disse, passeando um olhar pelo jardim:
— Isto não dispensa um jardineiro, o João de Deus não pode cuidar ao mesmo tempo do fogão e das flores...
— Naturalmente.
— Não pode, repetiu pensativo. Vou ver um homem que entenda de plantas, até porque pretendo ter as minhas orquídeas e os meus tinhorões de escolha. Não podemos dispensar o jardineiro Vou ver também se arranjo um cão das ilhas, são os melhores para os quintais: não há ladrão que lhes escape. Tive um que, certa noite, tendo um patife penetrado em minha casa, quando foi para saltar o muro, o animal atirou-se-lhe às pernas.
— E matou-o!? — perguntou Anselmo.
— Não, mas pregou-lhe um susto que o desgraçado esteve muito tempo entre a vida e a morte.
— Quem te disse?
— Ninguém, eu imagino. Era um cão! Vou ver se encontro um igual para aqui. Para o galinheiro uma meia dúzia de galinhas de raça, uns gansos de Tolosa ou de Emdben, uns patos mandarins, uns perus. Para o aviário mando vir aves do Norte: mutuns, guarás, garças, jacamins; não, jacamins para o galinheiro. À tarde vem a gente aqui para fora no seu paletó branco saborear o café, ouvindo os gaturamos e as patativas, os gansos, os galos e gozando o perfume das flores. Que tal?
— É magnífico!
— E podem vocês trabalhar à vontade. Aqui nada falta: têm, de um lado Santa Teresa e do outro lado o esplêndido panorama da cidade. Não é aquela rua acanhada e sórdida, com aquele silvar constante de locomotivas e com aquela mulher sempre a rezingar e aqueles quintais imundos e aquela gente tresandando a suor e a cachaça, nada disso. Aqui a vizinhança é nobre, gente da élite. Vocês podem julgar pelas casas — e ajuntou com mistério: Já que toquei neste ponto, devo dizer que a moralidade aqui deve ser escrupulosamente observada: nada de escândalos, isto é um bairro de respeito.
— Vê-se logo.
— Bem, vamos agora lá acima.
Tornaram pelo mesmo caminho e, atravessando a sala de jantar e o corredor, subiram por uma larga escada iluminada por uma clarabóia, alcançando o pavimento superior. Não eram quartos, eram salões e todos com janelas. O da frente, que tinha o teto de estuque e dourado, abria para a sacada as suas quatro janelas. O soalho encerado, reluzia. Eram oito quartos, oito imensidades admiráveis e dois salões. Ruy Vaz chegou a aventurar que não seria mau estabelecer-se ali dentro uma linha de bondes para facilidade da comunicação entre os aposentos, um elevador para a ascensão e um telefone para uso interno. Era o infinito. Crebillon, modesto, escolheu o menor quarto, ao fundo, com duas janelas para o jardim e larga vista da montanha e de grande parte da cidade e do mar, muito azul coalhado de barcos, sem falar nos fundos das casas vizinhas: jardins, terraços e janelas que deixavam entrever interiores faustosos — câmaras, gabinetes, salas de jantar. Foi nesse aposento que se decidiu fazer a mudança no dia seguinte, mas logo surgiu uma dificuldade: não havia dinheiro para as carroças.
— Eu mando as andorinhas, disse o generoso Crebillon. Quantas?
— Uma e meia.
— Uma e meia? Duas, homem; duas andorinhas. Que mais?
— Mais nada.
— E vocês já escolheram os aposentos?
— Já. Anselmo e Ruy Vaz haviam tomado, para trabalhar, a sala da frente do pavimento superior e dois quartos incomensuráveis. Toledo ficou com a sala central e um quarto contíguo.
— Mas, com o que temos, esta casa vai ficar como um deserto com pequeninos oásis, disse Ruy Vaz.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.