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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Seria difícil decidir qual das duas empresas, confiadas aos dois jovens chefes, era mais árdua e arriscada. É verdade que Itajiba tinha de combater um inimigo que por sua civilização, recursos e estratégia era muito superior aos selvagens que comandava; mas em compensação tinha ele a dupla vantagem de conhecer os países e o inimigo a que ia levar a guerra; seus costumes, manhas e tática. Inimá, pelo contrário, posto que a certos respeitos sua tarefa fosse menos espinhosa, pois ia debelar um povo da mesma índole e costumes, ou talvez mais rude e inculto que os próprios Chavantes, tinha de embrenhar-se por sertões desconhecidos em busca de um inimigo errante sem saber ao certo onde encontrá-lo.

Itajiba tangeu suas canoas pelo Tocantins acima, enquanto o curso do rio se mostrou favorável a essa navegação; mas quando as cachoeiras e corredeiras, pedras e baixios que obstruem o curso superior do rio, começaram a tornar penível e morosa a sua marcha, pôs pé em terra com toda a sua gente na margem esquerda, amarrou fortemente as canoas no recôncavo de uma lagoa formada pelo transbordamento das águas do rio e escondida entre espessas florestas, e por trilhos desviados, que lhe eram conhecidos , marchou ao sul em direção a Vila Boa. Em seu caminho teve diversos encontros com algumas hordas de Coroados e de outros povos selvagens, bateu algumas que tentaram hostilizá-lo, e entre outras porém, que o receberam como amigo, angariou aliados, que reforçaram a sua falange com mais de cem combatentes. Assaltando e saqueando as fazendas e estabelecimentos dos brancos que encontrava em seu caminho, prosseguiu em sua marcha vitoriosa levando por toda a parte onde passava o terror e a devastação.

Bem depressa chegou a Vila Boa a notícia das correrias e devastações dos índios Chavantes pelas terras do Alto Tocantins, e imediatamente tratou-se ali de organizar uma formidável bandeira, que sem mais demora partiu a opor um dique aos progressos daquela temerosa horda, que se precipitava como uma torrente impetuosa sobre as regiões do norte, talando os campos e exercendo incalculáveis estragos e horríveis matanças. Itajiba bem compreendeu que os seus selvagens guerreiros, por intrépidos e valentes que fossem, não poderiam sustentar por muito tempo a pé firme um combate contra as forças dos homens civilizados, e que com suas flechas e tacapes não lhes seria possível fazer face às descargas dos arcabuzes inimigos sem sofrerem grandes estragos e reveses. Assim pois evitou sempre empenhar-se em um combate formal com o inimigo, mas por meio de bem dirigidas guerrilhas, de escaramuças passageiras, de contínuas emboscadas e surpresas foi caindo sobre eles e causando incessantemente em suas fileiras perdas consideráveis. Ora ao atravessarem uma selva, uma chuva de flechas descia como por encanto sobre as cabeças dos soldados goianos, que atônitos ouviam somente os alaridos selváticos dos inimigos, sem que lhes pudessem ver o rosto; quando de carabina armada olhavam para todos os lados em procura dos selvagens, já estes tinham-se escoado subtil e silenciosamente pelas brenhas deixando o chão juncado de cadáveres inimigos. Ora pelo silêncio e escuridão da noite setas inflamadas, sem saber-se donde partiam, baixavam como meteoros ardentes sobre os abarracamentos dos Goianos; a desordem, a confusão, o susto reinavam no acampamento, e súbito uma chusma de guerreiros selvagens entrava por ele de roldão, espalhava o terror, o estrago e a morte, e sem dar aos adversários tempo de reagir, desaparecia de pronto a favor das trevas como uma coorte de duendes por entre a escuridão da noite. Outras vezes com mais audácia ainda na volta de um caminho uma nuvem de selvagens dava de surpresa sobre os Goianos, passava de voata pelas suas fileiras disparando um chuveiro de flechas, e velozes na carreira a competir com o veado ou com a ema desapareciam de novo na amplidão dos desertos. Os Goianos, fatigados por um fim de perseguir um inimigo que se furtava a seus golpes como fantasmas, e que como o vento parecia fugirlhes das mãos, vendo suas fileiras de dia em dia diminuírem-se consideravelmente destroçadas por flechas disparadas por mãos quase invisíveis, assentaram que seria uma louca temeridade avançarem mais pelos sertões, e regressaram a marchas precipitadas diante das hordas de Itajiba, que prosseguiu desassombrado em sua marcha de devastações e pilhagens.

Bem pesava ao coração de Itajiba mover tão crua e devastadora guerra a seus compatriotas, sem que se desse motivo algum que aos olhos de sua consciência o justificasse de tais excessos e atrocidades.

Mas a torrente da fatalidade o arrebatava e não lhe era mais possível recuar. As solenes promessas feitas ao chefe dos Chavantes, seu ardente amor pela filha do cacique, e talvez também projetos de dominação, que já começavam a despontar-lhe no espírito, e para os quais os acontecimentos pareciam rapidamente impeli-lo, eram motivos poderosos que o faziam prosseguir sem hesitar na carreira encetada.

(continua...)

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