Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
No século décimo nono, em um dos dois anos, em 1822, enfim, uma dúzia (nem tanto) de francesas sem peças de artilharia, nem espingargas, nem espadas, e apenas com tesoura e agulhas fundaram suave e naturalmente, e sem oposição nem protestos, a França Antártica na cidade do Rio de Janeiro.
A França Antártica é a Rua do Ouvidor desde a Primeiro de Março até a Praça de S. Francisco de Paula.
Honra e glória, pois, às modistas francesas que na sua hégira de 1821 a 1822 se acolheram àquele oásis, àquela predestinada Rua do Ouvidor, da qual fizeram pequena, mas feiticeira filha de Paris, e donde, sob o cetro da Moda, puderam logo em 1822 alçar o grito - Vive la France! grito ainda hoje eletricamente correspondido até pelo finadíssimo, mas perpétuo, redivivo urso de Mr. Cassemajou.
CAPÍTULO 11
Como empreendo viagem pela Rua do Ouvidor com os meus leitores por companheiros obrigados e começo a viajar pelo primeiro quarteirão, onde se verifica que a rua vaidosa é coxa; lamentam-se a Praia e a Praça do Mercado e louvam-se as Igrejas da Santa Cruz dos Militares e da Lapa dos Mascates. Como além da Rua de Primeiro de Março (ex-Direita) entra-se na Rua do Ouvidor legítima e fidalga, a qual tem ar perfeitamente emblemáticas ao lado direito casa de modista, e ao esquerdo charutaria. Faz-se menção à confeitaria do Carceller, onde se encontra, ceando, o célebre Chalaça, e conta-se como ali (lá no tempo do Sr. Guimarães) se organizou na sala de cima um ministério, comendo-se empadinhas e croquets. Finalmente contempla-se a atual Loja da América e da China, casa n.º 40, onde Evaristo Ferreira da Veiga (o grande patriota) aprendeu a ler, e onde anos depois floresceram ou dulcificaram-se as senhoras Paracatus, que foram no seu tempo as mais famosas doceiras da cidade do Rio de Janeiro.
Deixei no capítulo antecedente a Rua do Ouvidor entrada em sua nova era, a do reinado da Moda de Paris, e agora, pois que seria tão enfadonho para os meus leitores, como dificílimo para mim acompanhar par e passo o desenvolvimento e riqueza, que ela foi tendo, prefiro fazer com os meus leitores uma viagem do princípio ao fim da mesma rua com o propósito de considerar e lembrar seus edifícios notáveis e suas casas dignas de distinção por interessantes recordações.
Natural e forçosamente hei de ser cicerone amolador e muito deficiente; amolador por gênio, deficiente por ignorância de muitas coisas que mereciam ser mencionadas e que a nossa geral incúria vai deixando cair no esquecimento.
Entretanto, as tradições, as anedotas, os fatos curiosos, ainda sem importância na história política da nação, a lembrança de antigos costumes dão vida local, interesse, enfeites e graça às Memórias das cidades, de seus palácios, de suas ruas, etc.
Eia, pois, a viajar! não temos necessidade de levar malas, nem capas, nem provisões de boca, nem prevenção alguma: acharemos em caminho, e à mão todos os recursos imagináveis e a viagem é segura, agradável, riquíssima de variados panoramas, e apenas sujeita a freqüentes ventos contrários no encontro de importunos amoladores ainda mais teimosos do que eu.
Encetemos a viagem.
Em que pese à Rua do Ouvidor; fidalga nova, começaremos a viajar pelo seu primeiro quarteirão, que principia - à direita da Praia do Mercado, e à esquerda na quina com a Rua do Mercado, e acaba abrindo-se na Rua Primeiro de Março (antiga Direita).
A fidalga tem em pouco esse quarteirão, onde em vez de brilhantes, ouro, sedas, flores, bonecas, tetéias, perfumarias, etc., etc., há somente armarinhos vulgares, carne-seca, lombo de porco e toucinho, tudo enfim plebeu, e além disso a vaidosa se revolta com o conhecimento público de sua perna direita mais comprida do que a esquerda, sendo ela por conseqüência coxa.
Embora, porém, a Rua do Ouvidor repute o seu primeiro quarteirão simples e desestimado anexo, espécie de parente bastardo que a família fidalga repugna, embora tenha pretensões a começar legítima Rua do Ouvidor donde primitiva e predestinadamente nascera, sendo Desvio, nós que não temos que respeitar essas vaidades viajaremos pelo quarteirão plebeu.
A Rua do Ouvidor; se desama tanto o seu anexo, deveria ter há mais tempo requerido à ilustríssima câmara que lhe desse nome especial, tornando-o rua independente: eu creio que seria fácil obter providência tão transcendente; porque não tenho notícia de bispo que crismasse tantos católicos, como a ilustríssima tem crismado ruas da cidade do Rio de Janeiro. A ilustríssima como que fundou direito à herança de ruas em favor de defuntos; morrendo algum cidadão ilustre e portanto seu parente em tratamento, dá logo cevada ao finado em crisma de rua.
Ainda nessa prática ao menos se manifesta - gratidão nacional -; mas além dos defuntos, não o tributo de cevada, doce amor porém aos vivos multiplica de tal modo a crisma das ruas, a dá e muitos novos nomes tão desconhecidos, que tenho para mim que o primeiro e longo estudo dos novos vereadores será aprender as denominações das ruas, e inteirar-se dos pontos e dos bairros, onde elas se estendem ou se encurtam.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.