Por Gregório de Matos (1696)
Diz, que Cristina jurou,
que se vos não levantara,
vós dizeis, que alguém tomara,
levar, o que ela levou:
e eu, que tão perplexo estou
entre crer, e duvidar,
quero levar, e apostar,
que tal não levou Cristina,
porque se acabe a contina
de alguém tomara levar.
Se vos põem algum defeito,
costumais logo dizer:
isso vi eu suceder
em tal parte a tal sujeito:
dai ao demo esse conceito,
que a alheia imperfeição
é triste consolação;
porque o amigo, ou parente
é como vós tão doente,
ficais vós acaso são?
Não vos mova a desairado
o mal daquele, e defeito:
tratai vós de andar direito,
e ande o mundo corcovado:
o mau exemplo estampado
no bronze, jaspe, ou história
o seu fim, e a sua glória
não é para se imitar,
senão para o desterrar
pelo escarmento a memória.
Vós toda a falta inquiris.
e em a chegando a saber
em vez de a aborrecer,
correntemente a seguis:
se a vossa má sorte quis,
que fôsseis, do que é pior
um perpétuo imitador,
e tendes habilidade
para imitar a maldade,
não é a virtude melhor?
E se o alheio se não
tomais por vossa desculpa,
quando vo-la dão em culpa,
até isso é imitação:
desculpai-vos co'a razão,
se a tendes para emprendê-lo,
se não calá-lo, e sofrê-lo,
porque geralmente dito,
do pecado, e do delito
a desculpa é não fazê-lo.
Verbi gratia uma senhora
cativa do coadjutor,
que nos trabalhos de amor
hoje é vossa coadjutora:
porque a bateis cada hora
com tanto afã, e canseira
no pasto, praia, e ladeira,
para que heis de publicar,
que vos não deixa parar,
porque é grande bolideira?
Este excesso tão insano
será acaso menos grave,
para que menos agrave,
porque o mesmo fez Fulano?
não: que fora entonces Ihano
poderdes herege arder,
porque Lutero o quis ser:
poderdes ser um Mafoma,
poderdes ser um Sodoma,
tendo, a quem vos parecer.
Ter sucedido o delito,
haver-se feito o pecado,
não faz, que esteja acabado
seu rencor, ou já prescrito:
antes um, e outro aflito
co'a pena, que se lhe pôs
pelo seu delito atroz,
faz a esses, que imitáveis
homens irremediáveis,
e incorrigível a vós.
Este amoroso vexame
vos dá um amigo, e aplica,
que não queirais não, que implica,
que vos censure, e vos ame:
antes, porque o mundo aclame
o zelo, com que me atrevo,
vendo, que nada relevo,
a quem devo obrigações,
vos mostro nestas razões,
que assim pago, o que vos devo.
À NEGRA MARGARIDA, QUE ACARIAVA HUM MULATO CHAMANDOLHE SENHOR
COM DEMAZIADA PERMISSÃO DELLE.
Carina, que acariais
aquele Senhor José
ontem tanga de guiné,
hoje Senhor de Cascais:
vós, e outras catingas mais,
outros cães, e outras cadelas
amais tanto as parentelas,
que imagina o vosso amor,
que em chamando ao cão Senhor
Ihe dourais suas mazelas.
Longe vá o mau agouro;
tirai-vos desse furor,
que o negro não toma cor,
e menos tomará ouro:
quem nasceu de negro couro,
sempre a pintura o respeita
tanto, que nunca o enfeita
de outra cor, pois fora aborto,
é, como quem nasceu torto,
que tarde, ou nunca endireita.
A nenhum cão chamais tal,
Senhor ao cão? isso não:
que o Senhor é perfeição,
e o cão é perro neutral:
do dilúvio universal
a esta parte, que é
desde o tempo de Noé,
gerou Cão filho maldito
negros de Guiné, e Egito,
que os brancos gerou Jafé.
Gerou o maldito Cão
não só negros negregados,
mas como amaldiçoados
sujeitos à escravidão:
ficou todo o canzarrão
sujeito a ser nosso servo
por maldito, e por protervo;
e o forro, que inchar se quer,
não pode deixar de ser
dos nossos cativos nervo.
Os que no direito expertos
penetram termos tão finos,
bem sabem, que os libertinos
distam muito dos libertos:
se há brancos tão inexpertos,
que dão benignos, ou bravos
alforrias por agravos:
os que destes são nascidos,
por libertinos são tidos,
porém são filhos de escravos.
O filho da minha escrava,
e dos meus vizinhos velhos,
que eu vejo pelos artelhos,
que ontem soltaram da trava;
porque tanto se deprava
com tal brio, e pundonor,
que quer Ihe chamem Senhor:
se consta o seu senhorio
de um bananal regadio,
que cavou com seu suor!
E se são justos os brios
daqueles, que escravos têm,
nisso a mor baixeza vêm,
pois têm por servos seu tios:
e se algum com desvarios
diz, que o ter por natural
sangue de branco o faz tal,
nisso a condenar-se vêm,
porque se o branco faz bem,
como o negro não faz mal?
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.