Por Eça de Queirós (1925)
O poeta Alvaro — que era elle mesmo, Arthur, -— pobre e sublime, fanatisava e possuia a linda, a doce duqueza de S. Romualdo — que era Ella, a senhora do vestido de xadrez. O duque, um caçador obtuso e brutal, com avós até aos visigodos — a que o valente Theodosio servira de modelo —t insultava o poeta, arremessando-lhe a luva branca n'um sarau de m.ascaras. Batiam-se de madrugada n'um cemi terio, depois d'um monologo, em que, á maneira de Hamlet, Alvaro, tomando craneos nas mãos, meditava sobre a Morte ; ferido, o Poeta ia morrer no regaço da duqueza, que corria, vestida de branco, d'entre os renques de cyprestes. O drama passava-se, ora n'um castelo junto a Cintra, ora n'um vago palacio, nas proximidades da rua do Ouro! Em torno da acção moviam-se numerosos personagens subalternos, uns, fidalgos vis e embrutecidos, outros, plebeus invariavel mente nobres e eloquentes. Todo o drama era assim um desabafo amoroso e uma propaganda revolucionaria ; elle sentia-o e parecia-lhe habil e profundo pôr na sua obra todos os lyrismos da sua paixão por DIZa e lançar ao povo, ao mesmo tempo, os amantes d'uma Marselheza. Ella choraria, comprehenderia quanto um ardente peito democratico ama melhor que um resequido coração de barão. Por outro lado, o grande Damião approvaria o drama. Servindo o seu amor, serviria a democracia ! E enthusiasmado pela sua idéa, começou ardentemente a trabalhar.
Foi um periodo muito exaltado, de certo o mais feliz da sua vida. Compunha o papel d'Alvaro do tudo o que sentia em si de mais sentimental, quando pensava n'Ella e de mais revoltado, quando pisava linhaça no almofariz da pharmacia ; deu á duqueza todas as graças, todas as dedicações, encheu-a de reminiscencias de Julieta, de Carlota, de Lelia, da Dama dag Camelias ; accumulou no duque o pro saismo, materialidades que o indignavam nos burguezes d'Oliveira : um dos seus fidalgos era o Vasco, para quem a poesia consistia na habilidade em fazer acrosticos ! E pulava pelo quarto, esfregando as mãos, radioso, quando achava réplicas eloquentes para algum dos seus plebeus. Não duvidava então de que o seu drama faria um escandalo social I Relia-o, extasiado ; e ia olhar-se ao espelho, como admirando na expressão das suas feições o egplendor das suas faculdades !
Isolou-se. Não appareceu durante muito tempo na Corcovada — onde ag tacadas, o cheiro do petroleo, as pilherias libertinas do Rabecaz lhe papeciam odiosas, depois da frequentação ideal dos seus personagens e da pompa dos seus dialogos. Da Pharmacia corria para casa, sentindo-se prodigiosamente feliz apenas penetrava n'aquolla atmosphera especial do quarto, onde lhe parecia errar, como ether, todo o ideal que se exhalava das folhas do seu man uscripto.
As tias queixavam-se agora do menino, que passava todas as suas horas aferrolhado em cima :
—E eu que pensava que nos havia de servir de companhia ! — dizia a Ricardina com azedume. —É como se não houvesse um homem em casa.
Ás vezes mandava a Sabina acima, escutar no corredor « se sentia o menino Ella voltava desconsolada, dizendo que andava aos pulos pelo quarto, fa]lando só.
—É como o Padre Manuel Fernandes, quando andava a decorar o sermão. Que desproposito ! Que desproposito ! — respondia Ricardina.
E muito chocada, com um carão sombrio, ia picando vivamente a meia com as longas agulhas. Parecia-lhes, a ambas, que o menino não tinha amizade á familia» ; sentiam por instincto que elle procurava nos livros e nos papeis distracções melhores do que aquelles serões pacatos ; e isto augmentava a antiga desconsolação de o verem tão indifferente aos interesses da casa e da fazenda. —F, como um estranho, é como ter um hospede dizia Ricardina.
Elle descia sempre tarde para o almoço, tendo velado toda a noite sobre o manuscripto.
— Ai ! estás hoje amarello como um desenterrado Isto até te faz mal . . . Pois não era m.elhor passares as tuas noites a dormir muito regaladamente . . .
— Era melhor, era, Mas então ? Sio gostos — dizia elle rindo.
— Moço concentradissimo — affirmou o Vasco, ao domingo, quando o viu abalar depois d'engulir as torradas. — Na pharmacia não dá palavra. ilacs faz o seu serviço com intelligencia Que eu não o perco d'olho,
— Macambusio, macambusio — disse Ricardina indignada.
Sabina, essa, achava-o apenas triste b.
— Porquê ? porquê ? Não lhe falta nada — res pondia Ricardin.a. — Pois não é verdade, D. Galathea ? É um mono. Ao jantar não se lhe ouve a voz ! Depois do chá : é boa-nüite e lá abala para o buraco . . .
— Ai, eu não gosto de gente assim — dizia D. Galathea com tedio,
— Mas moço de bem, moço de bem — costumava resumir o Vasco.
Emfim, um dia, Arthur terminou a copia do seu
quinto acto e foi um momento delicioso, aquelle em que escreveu, tode commovido, na primeira pagina branca :
AMORES DE POETA
DRAMA EM CINCO ACTOS
POR
ARTHUR CORVELLO
Alli estava, acabado !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.