Por Eça de Queirós (1912)
O seu aio ergueu-o nos braços, mas não chegava àquela altura. As damas riam; os cavaleiros também, metendo os dedos entre os fios das barbas. Então Cristóvão agarrou delicadamente na criança, e pousou-a no seu grande ombro. Lá no alto, a criança sorria, vendo todos embaixo, tão pequenos, junto dos joelhos do gigante. Espicaçou o ombro de Cristóvão, gritou: “Caminha!” E Cristóvão marchou, através da sala. Para passar, a criança afastava as bandeiras que pendiam. Os seus olhos, cheios de orgulho, reluziam como estrelas, mas a mãe inquieta erguia as mãos, chamava: “Ruperto! Ruperto!” – E o aio, todo erguido na ponta dos pés, estendia os braços para as alturas de Cristóvão, para receber Ruperto que se atirara de lá, rindo e sem medo.
Então a dama velha deu suas ordens ao senescal. Cristóvão foi levado às cozinhas – onde os pajens, os criados, correram para ver Cristóvão, sentado no chão, com uma bacia de barro nos joelhos, cheia de vinho, esfarelar dentro grandes broas, que um criadito lhe trazia, ajoujado.
Deitado, nessa noite, numa velha cavalariça abandonada, Cristóvão sentiu uma grande paz, e como um calor que o envolvia, vindo menos da palha fresca em que jazia do que do sentimento vago de que alguém o estimava, o queria, necessitava dele. era aquela criança tão linda, tão nobre, com os seus longos cabelos de ouro. E toda a noite sonhou que uma criança assim, cujos cabelos louros caindo sobre a camisa branca o envolviam num brilho de ouro, vinha desde a ponta dos seus pés, caminhava ao comprido do seu corpo, como por uma estrada desigual que galga montes e vales: os seus pezinhos mal pousavam; e chegada junto da sua face, a criança parava, e debruçada sobre os seus grandes olhos, parecia contemplar dois lagos tranqüilos e claros como espelhos. Depois no mesmo silêncio, e caminhando sobre o seu corpo, recuava até a ponta dos seus pés, de onde se elevava para o ar, resvalando num raio obliquo da Lua, que entrava por uma fenda.
Ao primeiro albor da madrugada, antes que a buzina das sentinelas anunciasse o dia, Cristóvão, saindo por uma porta aberta, foi rondar em torno do castelo. Nunca ele vira construções tão magníficas. Uma longa muralha envolvia toda a colina. Os nenúfares cresciam na água dos fossos. E para além eram arvoredos, terras de cultura, por onde um rio, coberto àquela hora de névoa, serpeava por entre grandes choupos.
Desde tanto tempo havia paz naqueles feudos senhoriais, que a erva crescia nas fendas da ponte levadiça. A forca patibular, sob a clemência da damas que governavam, tinha as vigas apodrecidas e verdes de musgo. E sobre o torreão erguiase uma lança, com um morrião espetado, e uma cabaça. significando que ali se dava hospitalidade a cavaleiros e peregrinos. As torres, de telhados agudos, eram inumeráveis, tendo todas bandeiras ou flâmulas, vermelhas e verdes, que esvoaçavam na brisa. Dragões, debruçados das ameias, vomitavam a água das chuvas. E em cada janela ogival, com brasões nas vidraças, havia um vaso escarlate, onde crescia uma açucena.
Dentro das muralhas, tudo era magnífico. Os lajedos dos pátios, polidos como os de uma igreja, eram cercados de uma bordadura de terra onde cresciam roseiras. O poço era encimado por um pombal que terminava por uma imagem de S. Marcos, onde as pombas vinham pousar, beijando-se sobre o seu grande livro aberto. Por trás da negra torre isolada, que servia de tesouro e de arquivo, havia um jardim em flor: e aos lados a um coberto para o jogo da bola, uma aléia para o jogo da lança.
E na tranqüilidade daquele solar de damas, alheias a coisas de guerra, respeitadas nas longas léguas dos arredores, as sentinelas, sobre as ameias, jogavam os dados, ou dormiam como frades repletos.
Cristóvão pasmava destas maravilhas, quando um pajem o chamou à presença de um intendente. Numa sala abobadada, sentado numa vasta cadeira de carvalho lavrado, diante de uma mesa coberta de rolos de pergaminhos, de in-fólios com armas estampadas, o intendente marcou a Cristóvão as suas obrigações, que consistiriam em acompanhar o Senhor sempre que ele saísse, a pé, ao lado do seu ginete, e armado de um clava. Depois um homem, um corcunda entrou, e trepando vivamente a uma cadeira mediu Cristóvão com um côvado de madeira, desde a cabeça aos pés, e saiu, recuando e saudando, com um molho de tesouras e de agulheiros tinindo à cinta.
Quando o fato que ele assim medira ficou pronto, Cristóvão recebeu ordem para talhar uma maça um tronco de árvore, e, vestido, acompanhar o Senhor, que ia visitar a suas florestas: e enquanto o esperava, na clara manhã de Agosto, Cristóvão não cessava de se mirar na água clara da cisterna, pasmado das bragas de pano às listas azuis e vermelhas, que lhe cobriam as pernas, e do gibão vermelho e azul, que lhe cobria o peito, tendo bordadas as armas da senhoria.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.