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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

- Imaginem vocês como? Com um milagre!

- Com um milagre? repetiram espantados.

- Sim, senhores.

Tinha-se entendido com um missionário, e na véspera da eleição receberam-se na freguesia cartas vindas do Céu e assinadas pela Virgem Maria, pedindo, com promessas de salvação e ameaças do Inferno, votos para o candidato do governo. De chupeta, hem?

- De mão-cheia! disseram todos. Só Amaro parecia surpreendido.

- Homem! disse o abade com ingenuidade, disso é que eu cá precisava. Eu então tenho de andar aí a estafar-me de porta em porta. - E sorrindo bondosamente: - Com o que se faz ainda alguma coisita é com o relaxe da côngrua!

- E com a confissão, disse o padre Natário. A coisa então vai pelas mulheres, mas vai segura! Da confissão tira-se grande partido.

O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:

- Mas enfim a confissão é um ato muito sério, e servir, assim para eleições...

O padre Natário, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos excitados, soltou uma palavra imprudente:

- Pois o senhor toma a confissão a sério?

Houve uma grande surpresa.

- Se tomo a confissão a sério? gritou o padre Amaro recuando a cadeira, com os olhos arregalados.

- Ora essa! exclamaram. Oh, Natário! Oh, menino!

O padre Natário exaltado queria explicar, atenuar:

- Escutem, criaturas de Deus! Eu não quero dizer que a confissão seja uma brincadeira! Irra! Eu não sou pedreiro-livre ! O que eu quero dizer é que um meio de persuasão, de saber o que se passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali... E quando é para o serviço de Deus, é uma arma. Aí está o que é - a absolvição é uma arma!

- Uma arma! exclamaram.

O abade protestava, dizendo:

- Oh, Natário! oh, filho! isso não!

O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, "tinha já um tal terror que até lhe tremiam as pernas" !

Natário irritou-se:

- Então talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de nós, pelo fato de ser padre, porque o bispo lhe impôs três vezes as mãos e porque lhe disse o accipe, tem missão direta de Deus, - é Deus mesmo para absolver? !

- Decerto! exclamaram, decerto!

E o cônego Dias disse meneando uma garfada de bages:

- Quorum remiseris peccata, remittuntur eis. É a fórmula. A fórmula é tudo, menino...

- A confissão é a essência mesma do sacerdócio, soltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando Natário. Leia Santo Inácio! Leia S. Tomás!

- Anda-me com ele! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando Amaro. - Anda-me com ele, amigo pároco! Salta-me no cachaço do ímpio!

- Oh, senhores! berrou Natário furioso com a contradição, o que eu quero é que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro: - O senhor, por exemplo, que acaba de almoçar, que comeu o seu pão torrado, tomou o seu café, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no confessionário, às vezes preocupado com negócios de família ou com faltas de dinheiro, ou com dores de cabeça, ou com dores de barriga, imagina o senhor que está ali como um Deus para absolver?

O argumento surpreendeu.

O cônego Dias, pousando o talher, ergueu os braços, e com uma solenidade cômica exclamou:

- Hereticus est! É herege!

- Hereticus est! também eu digo, rosnou o padre Amaro.

Mas a Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz-doce.

- Não falemos nessas coisas, não falemos nessas coisas, disse logo prudentemente o abade.

Vamos ao arrozinho. Gertrudes, dá cá a garrafinha do Porto!

Natário, debruçado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:

- Absolver é exercer a graça. A graça só é atributo de Deus: em nenhum autor encontro que a graça seja transmissível. Logo...

- Ponho duas objeções... gritou Amaro, com o dedo em riste, em atitude de polêmica.

- Oh filhos! oh filhos, acudiu o bom abade aflito. Deixem a sabatina, que até nem lhes sabe o arrozinho!

Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precauções clássicas:

- Mil oitocentos e quinze! dizia. Disto não se bebe todos os dias.

Para o saborear, depois de o fazer reluzir à luz na transparência dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; começaram as saúdes! A primeira foi ao abade, que murmurava: - Muita honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de satisfação.

- A Sua Santidade Pio IX! gritou então o Libaninho brandindo o cálice. Ao mártir!

Todos beberam comovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hino de Pio IX: o abade, prudente, fê-lo calar por causa do hortelão que no quintal aparava o buxo.

(continua...)

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