Por Eça de Queirós (1900)
Do seu canto, o capelão sorriu timidamente. O segredo? Poupar a Vida - não a consumindo nem com ambições nem com decepções. Ora para ele, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E fora o seu reumatismo...
Depois, corando de acanhamento, através das sentenças evangélicas que lhe escapavam:
- Mas mesmo o reumatismo não é mal perdido. Deus, que o manda, sabe por que o manda...Sofrer edifica. Porque enfim o que nós sofremos nos leva a pensar no que os outros sofrem...
- Pois olhe - volveu com alegre incredulidade o Administrador -, eu, quando tenho os meusataques de garganta, não penso na garganta dos outros! Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou regalar naquela bela sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos de sangria onde boiavam rodelinhas de limão. E todos se tentaram, todos beberam, até Padre Soeiro, para mostrar ao Sr. Antônio Vilalobos que não desdenhava o vinho, dádiva amável de Deus - pois como ensina Tibulo com verdade, apesar de gentílico, vinus facit dites animos, mollia corda dat, enrija a alma e adoça o coração.
João Gouveia, depois dum suspiro consolado, pousou na bandeja o copo que esvaziara dum trago e interpelou Gonçalo:
- Vamos a saber! Então noutro dia que história fantástica foi essa duma festa na Torre, comsenhoras, com a D. Ana Lucena?... Eu não acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado. Depois...
Mas dentre as cortinas da janela, onde acabava a sangria, Titó novamente ribombou, interpelando também o Fidalgo:
- Ó sô Gonçalo! E o que me contou há pouco o Barrolo?... Que andavas com idéias de abalar para a África?
Ao espanto de João Gouveia quase se misturou terror. Para a África?... O quê? Com um emprego para a África?...
- Não! plantar cocos! plantar cacau! plantar café! - exclamava o Barrolo, com divertidaspalmadas na coxa.
Pois Titó aprovava a idéia! Também ele, se arranjasse um capital, dez ou quinze contos, tentava a África, a traficar com o preto... E também se fosse mais pequeno, mais seco. Que homens do seu corpanzil, necessitando muito comezaina e muita vinhaça, não agüentam a África, rebentam!
- O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não carrega na aguardente; está na conta para Africanista...E sempre te digo! Carreira bem mais decente que essa outra por que tens mania, de deputado! Para quê? Para palmilhar na Arcada, para bajular Conselheiros.
Barrolo concordou, com alarido. Também não compreendia a teima de Gonçalo em ser deputado! Que maçada! Eram logo as intrigas, e as desandas nos jornais, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.
- Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um título e uma grã-cruz a tiracolo,como o Freixomil!
Gonçalo escutara, num silêncio risonho e superior, enrolando laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrolo:
- Vocês não compreendem... Vocês não conhecem a organização de Portugal. Perguntem aí aoGouveia... Portugal é uma fazenda, uma bela fazenda, possuída por uma parceria. Como vocês sabem há parcerias comerciais e parcerias rurais. Esta de Lisboa é uma parceria política, que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portugueses pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham na fazenda, ou vivem nela a olhar, como o Barrolo, e que pagam; e uns trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a parceria, que recebem e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por hábito de família, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na parceria política, o cidadão português precisa uma habilitação - ser deputado. Exatamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma habilitação - ser bacharel. Por isso procuro começar como Deputado para acabar como parceiro e governar... Não é verdade, João Gouveia?
O Administrador voltara à bandeja das sangrias, de que saboreava outro copo, agora lentamente, aos goles.
- Sim, com efeito, essa é a carreira... Candidato, Deputado, Político, Conselheiro, Ministro,Mandarim. É a carreira... E melhor que a de África. Por fim na Arcada, em Lisboa, também cresce cacau e há mais sombra!
Barrolo no entanto abraçara o ombro possante do Titó, com quem mergulhou no vão da janela, numa confraternidade de idéias, gracejando:
- Pois eu, sem ser dos tais parceiros, também mando nos bocados de Portugal que mais me interessam porque me pertencem!... E sempre queria ver que esse S. Fulgêncio, ou o Braz Victorino, ou lá os políticos do Terreiro do Paço, se metessem a dispor nas minhas terras, na Ribeirinha ou na Murtosa... Era a tiro!
Encostado à vidraça, Titó coçava a barba, impressionado:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.