Por Camilo Castelo Branco (1862)
Francisco José de Sousa, marido dela, era um português que enriquecera no Brasil. Tinham viajado longo tempo; e como Francisco José de Sousa tivesse ido do Minho e as saudades da Pátria o não deixassem nunca, escolhera o Porto para residência.
O fino trato, aliado à opulência, estimulou invejas, caprichos, competências e ódios mesmo na sociedade portuense. De todas esta más paixões surdiu um bom resultado: aumentou o número dos bailes, entraram em emulação as equipagens, enriqueceram as modistas, acudiram os jornalistas a fazer acta, qual delas mais encomiástica, dos bailes profusos e luxuosos; o Porto, enfim, poliu-se mais em dois anos que nos nove séculos de vida que a mitologia, vulgarmente chamada história portuguesa, lhe dá.
Estava designada a noite dum baile em casa de Rita Emilia, quando os convidados receberam aviso da súbita doença de Francisco José de Sousa.
Correram amigos e indiferentes a visitar o enfermo. Fui entre os segundos: achei-o prostrado e taciturno; e não vi a esposa ao pé do leito, nem na antecâmara. Perguntavam por ela as pessoas mais familiares; mas a brasileira não recebia sequer as amigas íntimas.
Grande mistério, grande burburinho, a curiosidade em ânsias, a maledicência espionando, a calúnia imaginosa a segredar por praças, e salas, e botequins, desaforadas conjecturas. Andou pois a difamação explicando às cegas, por vários modos, a enfermidade moral de Francisco de Sousa e a misteriosa ausência de D. Rita.
Quinze dias depois fecharam-se as portas e janelas da casa do brasileiro, e os criados, quase todos despedidos, disseram que os amos tinham ido viajar.
Aqui é que a curiosidade ia dando um estouro. Houve aí bisbilhoteria ilustre que se encanzinou de raiva por não poder esquadrinhar o segredo desta saída, a qual, de força, devia ter um escândalo por causa, escândalo que a hipocrisia pudera abafar ardilosamente.
Havia nesta casa uma menina de dezesseis anos, órfã, muito rica, pupila do brasileiro e filha doutro, que morrera no Brasil, quando andava em liquidação.
Mariana acompanhara-os na misteriosa saída do Porto: soube-se, porém, que, ao passarem em Braga, a órfã entrara nas Ursulinas, mosteiro de educação.
Esta menina era a terceira mulher rica do baile.
Sabido isto, respirou um pouco a maledicência. Já os arpéus da hipótese achavam duro onde morder. Acordaram, portanto, em conciliábulo, algumas famílias honestas, que Mariana fora encontrada em flagrante desprezo do seu pudor e, por isso, enclausurada no mosteiro bracarense.
Toda a gente ia ter com o Dr. Anselmo Sanches para evidenciar a conjectura.
IV
Era o doutor amigo íntimo da família, pertencia ao conselho tutelar da órfã, curava dos negócios litigiosos do brasileiro e podia muito na casa, dominando a vontade do dono, que se fiava dele, mais seguro que em si próprio. Trinta e oito anos teria Anselmo. Em conta o haviam de homem exemplar em todas as qualidades boas, excepto na jurisprudência, em que era ignorante mais que o ordinário. Isso, porém, não lhe danificava o bom nome. Os seus muitos apologistas, se duvidavam dar-lhe procuração para os representar no foro, sobejamente o indemnizavam, confiando-lhes mulheres, filhas e - o que mais é no Porto - o dinheiro.
Tinha o Dr. Sanches uma cara mais que feliz para se fazer benquisto. Nunca fechava a boca. O queixo inferior, pedindo sempre, servia-o às maravilhas, quando parecia escutar com dor os escândalos que os oradores encartados da Assembléia Portuense9 expectavam do peito sujo, onde a asma senil desafogava pela detracção injuriosa. Se a vítima era senhora casada, o doutor abanava um pouco a cabeça, punha os olhos no tecto, e dizia: “Vão-se os costumes...” Se o escândalo recitava as gargalhadas gosmentas do auditório, Anselmo sorria por complacência e murmurava: “É remarcável o deboche em que está o grande mundo!” (O celerado conspurcava a língua pátria!). Não consentia ele que se erguesse voz a desculpar imoralidades, se raro sucedia algum confrade, por sestro de contradição, indulgenciar fraquezas ordinárias, em verdura de anos, ou obrigadas por circunstâncias especiais.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.