Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

O regedor descobriu de longe a cabeça e saiu ao encontro de Fernão, que o recebeu com o agrado dos antigos fidalgos.

- Que é feito de ti, compadre, que te não vejo há cem anos? - disse o velho.- Desde que te fizeram regedor, acho que não cuidas senão em fabricar deputados e comer os salpicões dos recrutas passados pela malha! Anda lá, meu homem, que em tempos melhores havias de ganhar o posto de capitão-mor, que jeito para comer os saudosos lombos tens tu. Então que é feito, rapaz!, quem é aqueloutro? Se me não engano, é o Eleutério do Romão.

- Para servir a V. Exª - disse Eleutério com três mesuras de cabeça exageradas. - Sou eu para servir a V. Exª.

Fernão inclinou um olhar irónico sobre o ombro da filha e disse com um tal represo frouxo de riso:

- Aqui tens o marido da morgadinha da Fervença.

Mafalda escassamente lançou um olhar ao sujeito e baixou os olhos com um gesto de notável comoção.

E o regedor, tirando a carta da algibeira, disse:

- Eu queria consultar o meu Ex.mo Compadre a troco de uma carta que nem eu nem meu compadre Eleutério entendemos. Agente, como o outro que diz, o que sabe é de lavoura, e mal assina o seu nome. O caso é este: aqui o compadre achou no correio esta carta prá mulher. Teve lá seus arrepios, e abriu-a. Começamos a ler, mas nem pra trás nem pra diante. As palavras parecem portuguesas, acho eu; mas nós não sabemos o que elas rezam. Se o Sr. Compadre fizesse o favor de ler isto...

Fernão de Teive ia a tomar a carta já aberta da mão do regedor, quando sentiu extraordinário peso no braço esquerdo, olhou em sobressalto e viu Mafalda a desmaiar, com o rosto banhado de suor. Chamou-o ela, expedindo uns agudos soluços, quis em vão pendurar-se do pescoço do pai. Tomou-a o velho nos braços com tremente ansiedade e transportou-a para dentro de uma loja, pedindo a brados um facultativo.

O regedor e Eleutério seguiram Fernão, aflitos do sucesso. Na mão do regedor estava ainda a carta. O velho, sem atinar com o motivo do acidente, olhou maquinalmente para o papel e teve um repelão intuitivo, sem ainda o compreender.

Tirou com desabrimento a carta da mão do compadre, examinou-a pela luneta, leu as primeiras linhas, desviou os olhos, meditou, lançou de arremesso o papel ao chão e disse:

- Deixem-me... não sei o que é... Vão embora...

Os homens iam a sair, quando ele os chamou com frenesi, pediu a carta e desfê-la em pedacinhos, exclamando:

- Isto não é nada, nada vale, podem ir com Deus.

Eleutério estava assombrado, e o compadre abria e fechava a boca em sinal do seu espanto e compaixão. Em boa-fé, o regedor acreditou atacado de demência o velho, ao ver a filha em transes de morte. Afastaram-se em consultas, dando cada qual a sua razão do caso, bem que Eleutério ia mediocremente satisfeito da rasgadura da carta.

Quando recobrou o alento, Mafalda levou as mãos ao rosto do pai e murmurou muito carinhosa:

- Perdoe-me, por quem é! Perdoe esta fraqueza da sua infeliz filha!

- Pobre anjo! - balbuciou o velho. - Que hás-de tu fazer-lhe? Deus mandou-te aquele desengano... Recebe-o tu, reportada e humilde, de suas divinas mãos. Precisavas disto, para enfim te convenceres.

Mafalda pediu ao pai que a levasse ao primeiro templo aberto. Ajoelhou ao altar do Senhor dos Aflitos, chorou, e viu as lágrimas do velho ajoelhado à beira dela. Ergueu-se com pacifico semblante e disse:

- Estou melhor, meu pai. Deus não falta aos infelizes sem culpa, nem mesmo aos culpados... Também orei pelo primo Afonso.

- Eu não orei - disse o pai -, mas rasguei o documento da sua infâmia.

XV

Afonso de Teive contava os dias, e, no último dia, a hora é instantes em que devia receber carta de Teodora. Esperou uma semana em alvoroço, e já ao décimo dia a malograda esperança o atormentava. A incerteza da recepção aliviava-o por momentos; outros, porém, sobrevinham em que ele se considerava desconsiderado pela caprichosa ou vingativa mulher. O mais graduado oráculo do seu conselho. D. José de Noronha, racionalmente opinava que a mulher autora de tais canas por força devia responder; e do silencio concluiu que se transviara a resposta enviada. Chegou a confirmação desta hipótese na seguinte pergunta de Teodora: Instantemente te rogo que no primeiro correio me digas se me escreveste.

Sobejam-me razões para conjecturá-lo. Estou em ânsias. Esta incerteza martirizame mais que o teu desprezo. Responde-me depressa. Dirige a tua resposta - pedida com lágrimas - para Barcelos. Calculo o dia em que ela deve ali estar. frei pessoa/mente recebê-la.

T. P.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3536373839...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →