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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

Brás Cubas, Rio, 15-8-1918.

VELHO APEDIDOS E VELHOS ANÚNCIOS

É sempre de interesse achar-se, por este ou aquele modo, um velho Jornal do Comércio, mesmo um retalho velho dele. Imagino como o Félix Pacheco158, que lhe está escrevendo a história, há de ter tido, com a sua paciência, a sua sagacidade e a sua penetração de artista e historiador, deliciosos momentos ao encontrar tal ou qual artigo, notícias ou mesmo um simples anúncio! Espero bem viver até 1921, para ler a história do velho órgão que o seu atual diretor está escrevendo. Pelo que mostrou o ano passado, pelo que disse das origens do quase centenário quotidiano, nós podemos calcular que coisa interessante não vai ser a vida passada do Jornal narrada por Félix Pacheco.

Acudiu-me isso, porque, há meses, um bom velho da minha vizinhança, apaixonado pela leitura de jornais, deu-me uma porção de retalhos de vários jornais e de épocas diversas. Entre eles, havia muitos folhetins do Jornal que contavam quarenta anos e mais.

Esse bom velho, “Seu” Chiquinho, como era conhecido familiarmente, parece que me deu tais relíquias em testamento, pois veio a morrer pouco depois, no Hospital da Ordem Terceira, isolado dos seus, no meio de enfermeiras indiferentes e, sem, ao menos, ter a presença dos seus queridos folhetins e retalhos de jornais que ele colecionava a mais de quarenta anos

Não pude descobrir quem eram os autores dos folhetins que ele me ofertou, pois estavam todos assinados com pseudônimos. Naquele tempo, conforme sei, bem ou mal, pela tradição pouco autorizada, os homens mais da moda nesse negócio de folhetins eram: Augusto de Castro, Zaluar, César Muzzio e, creio, o próprio velho Luís de Castro.

Tentei ler os que recebi, mas não pude. Não há nada que envelheça tão depressa como o que chamamos ainda nos jornais – humorismo, leveza, graça, etc. Todos os retalhos que recebi deviam ter no seu tempo essas pretensões e como tal serem estimados, mas eu os achei soporíferos. Não sei o que tem o tal gênero folhetim de tão estritamente atual, do momento, do minuto em que é escrito que, passado esse fugace instante, rançam logo e perdem todo o sabor. Considerem que eu já fiz, faço e farei folhetins... Mas...

É gênero que procura sempre o fato ou o acontecimento mais em voga, aquele que mais interessa a futilidade de todos e deve ser cheio de alusões às pessoas e coisas efêmeras, para que o sucesso o bafeje. Não podem os rodapés prescindir do vulgar dia a dia, não se podem alçar para mais adiante, nem para mais atrás. É ali! É o elefante do

Franck Brown ou a chegada da missão do reino de Sião.159

Quem, daqui a trinta anos, se lembrará do tal elefante do grande Hu- Hep-Tu, embaixador de um reino da Indochina? Ninguém terá mais interesse por tais curiosidades e muito menos pelas reflexões que eles procuram neste ou naquele.

Ainda quando os seus autores vivem, nós insensivelmente ligamos os folhetins a eles e podemos lê-los; mas, mortos como estavam os autores daqueles que me deram, e quase esquecidos, os rodapés de há quarenta anos não tinham mais nenhuma sedução e eram impenetráveis.

Entretanto, a dádiva do velho “Seu” Chiquinho não deixou de dar-me prazer. E sabem onde o fui encontrar? Nos apedidos e anúncios que havia nas costas dos humorados, dos velhos e famosos jornalistas daqueles anos.

Sempre gostei dos apedidos. Dizem ser coisa peculiar ao Brasil, especialmente ao Rio de Janeiro. Seja usança boa ou má, o certo é que é coisa original, por isso gosto deles.

Desejei muito encontrar nos retalhos de que venho tratando, algum do famoso “Mal das Vinhas” ou do não menos famoso Príncipe Ubá II, d’África.

Quisera muito ver um deste último, porquanto, segundo me contaram, não se pode imaginar coisa mais sem sentido e estapafúrdia. O seu processo de publicá-los é digno de lembrança e registro. Ele, o Príncipe Ubá, escrevia tiras sobre tiras e, depois, colocava-as uma em seguida à outra. Fazia uma espécie de bobina e levava o rolo ao balcão do Jornal. “Quanto é?” perguntava. O empregado calculava e respondia, suponhamos: “Quarenta mil réis”. O príncipe que não tinha esse dinheiro nas algibeiras, tratava de diminuir a “extensão” do artigo. Pedia uma tesoura, cortava uma boa parte, assinava de novo e de novo perguntava: “Quando é?” “Vinte e cinco mil-réis”, respondiam. Não possuindo o fidalgo africano semelhante quantia, amputava a “tripa” mais outra vez, uma outra terceira, até o preço do “a pedido” chegar aos quatro ou cinco mil-réis que tinha nos bolsos. Apunha a assinatura, sem se incomodar com o sentido, com a conclusão a que queria chegar com o seu escrito, e lá se ia para o Largo da Sé contar prosas às pretas minas que o respeitavam e veneravam, sempre de bengala e chapéu-de-chuva e solenemente coberto com a sua cartola cor de cinza.

(continua...)

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