Por Coelho Neto (1890)
Deixaram o monstro, menos João de Deus que ficou encarregado de fechar os registros, e passaram a examinar a cozinha, também ladrilhada até meia parede. Duas grandes pias defrontavam-se.
— Aqui tem os seus domínios, mestre João de Deus, disse Crebillon. O negro ouvia comovido, de olhos baixos. Você tem boné e avental?
— Não, senhor.
— Pois é preciso mandar fazer.
— Certamente, concordaram unânimes os do segundo andar.
— Isto não é cozinha para mangas de camisa. E é preciso trazê-la sempre muito asseada, entendeu?
— Sim, senhor.
— Bem. Vamos agora ver o banheiro, meus amigos. Vocês vão ver! Eu acho perigoso...
— Perigoso!? — exclamou Anselmo.
— Sim, isto é: não para mim, porque sei nadar.
— Também eu, disse Anselmo. — E eu, ajuntou Toledo.
— Mas tu não sabes, Ruy Vaz?
— Eu? Não sei.
— Pois meu caro, aceita o meu conselho: não entres no banheiro sem salvavidas — é como a bacia do Prata, meu amigo, vais ver. Vamos.
Seguiram e João de Deus, já exausto, continuava a torcer os registros. do fogão monstruoso.
Impressionados pelas palavras de Crebillon, os rapazes atravessaram um estreito paço de mármore alguergado e pararam diante de uma porta branca.
— É aqui! — disse Crebillon, com profundo respeito e, lentamente, foi impelindo a porta como se quisesse dar, aos poucos, a impressão magnífica da maravilha. Os rapazes invadiram o recinto e houve um significativo silêncio.
Também de mármore enxadrezado era todo o piso e o vasto aquário, largo e profundo, com uma calha à altura de dois metros, duas torneiras de cobre e a rosácea imensa, no teto de ripas embrechadas. Duas maçanetas de louça matizada giravam na parede marmórea para a distribuição das águas altas. Três janelas, com persianas, coavam uma luz serena e o frescor das lajes e das águas ocultas espalhavam-se no ambiente, dando uma sensação regalada de inverno.
Tudo era branco e o asseio casava-se com o conforto. A beleza era geral, não havia que criticar. Os cabides, de nítido metal, reluziam e, a um canto, fechada, uma caixa lustrosa de quando em quando interrompia o silêncio com um burburinho.
Crebillon quis mostrar a perfeição daquela utilíssima dependência, mas para que não lhe sucedesse sair, como da cozinha, com as roupas encharcadas, bradou pelo africano que acudiu à pressa parando à porta, fascinado pelo fulgor dos muros alvos.
— João de Deus, distorce-me uma daquelas bolas... Mas toma cuidado com a água que vem por ai abaixo.
O negro, alongando o braço com grande medo, pôs-se a torcer a maçaneta. Houve um ronco estupendo, um ronco de tromba em mares largos e logo, da altíssima calha, um gorgolão de água despenhou-se impetuosamente, espalhando uma névoa sutil. Crebillon, apesar da voz formidável que o distinguia, valendo-lhe a antonomásia de Stentor, teve de bradar para que fosse ouvido, tão fragoroso era o rolar das águas soltas pela beiçorra da calha, caindo estrondosamente nas lajes.
— Vêem vocês? Parece Paulo Afonso. E os três concordaram assombrados. Agora a outra, João.
O negro, aterrado, deu volta à outra maçaneta e foi um desabar de chuva como no dilúvio.
A mania das águas alucinava o abolicionista que entrou a urrar, sapateando, brandindo a bengala:
— Abre agora as torneiras, João!... As torneiras!
Mas o negro não ouvia, via apenas a boca imensa, o ar furibundo e os gestos desabalados de Crebillon. Aproximou-se curvado e o abolicionista bramiu:
— Abre as torneiras, com todos os diabos!
E quando, por todos os vazadouros, a água volumosa, correu inundando o aquário, Crebillon pôs-se a afagar a pêra e parecia o próprio Deus olhando satisfeito e vingado a queda dos golfões tremendos que alhanaram o mundo, com remissão apenas da família do patriarca e das espécies recolhidas na arca.
O aquário transbordava quando Crebillon avançou muito grave e deu um safanão à corrente do escoadouro enquanto João, de olhos apertados, ia fechando as torneiras e torcendo as maçanetas. Ficaram apenas gotas lentejando e as águas, como depois de aplacada a cólera do Altíssimo no cataclismo universal, começaram a baixar afunilando-se à altura da válvula. Houve um sorvo por fim e o banheiro ficou, de novo, vazio e resplandecente, extasiando o grupo.
— Então!? — indagou o presidente encarando os rapazes.
— É uma delicia! Sim, senhor!
— Não há melhor no Rio, afirmo! E todos menearam a cabeça, concordando. Vamos agora ao jardim.
Desceram por uma escada de granito e, chegando ao ar livre, à claridade límpida do sol, que luzia quente, lançaram os olhos pelos canteiros relvados, de graciosas formas geométricas sobre o saibro branco e rútilo das aléias.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.