Por Bernardo Guimarães (1869)
Na aurora seguinte o sol, surgindo por cima das florestas que sombreiam as margens do Tocantins, iluminava uma das mais curiosas e animadas cenas da vida selvática. Uma chusma de ligeiras pirogas entulhadas de guerreiros seminus, de tez bronzeada e aspecto sinistro, ao som estrugidor de rudes cantos de guerra e ao ruído das inúbias e maracás, vogavam lentamente contra a corrente do rio. As águas ao bater compassado de uma multidão de remos marulhavam cintilando como escamas de ouro aos esplêndidos raios do sol matinal, e ao sopro das brisas os vistosos cocares tremulavam sobre a fronte dos guerreiros como filas de coqueiros balançando seus leques sobre o veio trêmulo da torrente. Por outro lado e em direção oposta a falange formidável de Inimá, depois de ter transposto o rio em canoas, desfilava ao longo da margem oposta entoando belicosas pocemas de sangue e vingança, e ia mais abaixo engolfar-se e sumir-se na espessura da floresta como jibóia monstruosa que em sinuosos giros se esgueira a esconder-se pelas moitas do matagal.
Sobre um tope mais elevado da ribanceira Guaraciaba sozinha, encostada a um tronco, tinha os olhos tristemente fitos sobre as pirogas, que lá iam resvalando pela superfície dourada das águas, principalmente sobre aquela em que Itajiba, em pé junto à proa, lançava também olhares repassados de tristeza e de saudade sobre aquelas margens e sobre a virgem da floresta, que ia abandonar por tão longo tempo, oh! e quem sabe se para sempre! Ela as contemplou até de todo se sumirem nas derradeiras voltas do rio, e quando não viu mais do que as águas a correrem monótonas e as selvas a sussurrarem tristemente ao longo das ribanceiras solitárias, seus olhos se arrasaram de pranto; com as mãos e com as negras madeixas abafou soluços e lágrimas que lhe inundavam o seio, caiu desalentada sobre a relva, e chorou, chorou muito e por muito tempo.
Guaraciaba sentia pela primeira vez essa profunda opressão da alma, essa cruel e pungente desolação, que se chama saudade. Pensava nos tristes e silenciosos dias que iam suceder àqueles tão cheios de vida, de alegria e de amor que passara junto de Itajiba; pensava nos azares que este ia afrontar em uma guerra longínqua e perigosa, e cuidava morrer de angústia e desalento.
Andiara, que solícito a observava, correu a ela e procurou levantá-la de seu doloroso abatimento com palavras de consolação e de esperança:
— Não chores, filha de minha alma; dizia-lhe Andiara levantando-a nos braços e arredando-lhe do moreno rosto a nuvem de cabelos negros, que ela ensopava em lágrimas. O tempo corre veloz, e bem cedo verás essas pirogas, que ainda há pouco além se sumiram, de novo ali surgirem vitoriosas e carregadas de troféus trazendo-te aos braços o teu Itajiba coberto de glória, a solicitar de teu pai o único e formoso galardão a que aspira por seus brilhantes e heróicos feitos. Crême, ó formosa e digna filha de Oriçanga, Tupá por vezes permite que a meus olhos se dissipem as trevas carregadas que envolvem os caminhos do futuro, e deixa-me decifrar os destinos dos homens e das coisas nos dias que têm de vir. A vitória marchará sempre ao lado de Itajiba, e os mais brilhantes sucessos coroarão seus valorosos esforços no campo das pelejas. Ele voltará ufano e glorioso, e cheio de heroísmo, de lealdade e de amor, virá depor a teus pés os ricos troféus a cuja conquista correra só para tornar-se digno de teu amor, ó a mais bela e a mais ditosa das virgens da floresta. Ele voltará, e unido para sempre a ti pelos laços do mais leal e puro amor será aclamado chefe pela nação inteira, que o aplaudirá cheia de respeito e de admiração, e em vós e em vossos filhos se perpetuará uma invencível e gloriosa raça de heróis, que por largo tempo presidirá aos destinos da valente e poderosa nação dos Chavantes.
Estas palavras, que Andiara proferia com convicção profética, sempre conseguiram acalmar um pouco as angústias que oprimiam o espírito de Guaraciaba. Andiara a conduziu para a cabana de seu pai, onde este por seu turno procurou consolá-la com carícias e com palavras de amor e de esperança.
Quanto a Inimá, por que razão Guaraciaba não desejaria o próspero sucesso de sua empresa e a sua feliz volta às tabas de seus antepassados? Por que não lançaria ela um olhar de despedida sobre um guerreiro que lá ia afrontar a morte entranhando-se no meio de inimigos ferozes só para se tornar digno dela e do seu amor? Oh! Por certo Guaraciaba tinha alma muito boa e generosa para querer a sua ruína e não desejar o seu próspero regresso; mas profundamente ocupada com Itajiba, sua alma tinha poucos pensamentos para Inimá e sua expedição.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.