Por Machado de Assis (1876)
“Interrompi esta carta para receber o Dr. Fróis, que é o médico de D. Clara; veio ao meu quarto para me dizer que o estado da doente é perdido, que a morte é certa; mas que a vida pode prolongar-se ainda por muitos dias. Vê que perspectiva! Estou com raiva de mim mesmo; esses últimos dias da enferma pesam sobre mim como se fora o punho fechado do destino. Se a morte é certa, por que viver alguns dias mais? E é vida isso, ou é morrer aos goles, sem consciência do que se perde nem do que se vai ganhar?
“Está decidido; posso ir daqui a seis dias ou daqui a um mês. Será o que Deus quiser. Manda-me, entretanto, alguns livros. No meu quarto só achei um Manual de Medicina Prática. Manda-me alguma coisa que me faça lembrar o Andaraí. Tira da estante oito ou dez volumes, à tua escolha. Manda também algum trabalho de agulha teu; quero mostrá-lo à cunhada de D. Clara, a quem gabei muito os teus talentos. Se puderes desenhar alguma coisa, à pressa, o tanque, a varanda ou qualquer outro lugar, faze-o, e manda com o resto. Escreve- me longamente; conta-me tudo o que houver interessante; fala-me de ti, que é o meio de consolar minhas saudades, que são imensas, imensas como este amor que tenho à minha família toda. Vou fazer por voltar breve. Adeus, minha boa Helena; adeus, minha vida, adeus, ó mais bela e doce de todas as irmãs!
“P. S. — Reli a carta, e fiquei envergonhado do trecho a respeito da vida da doente.
Perdoa-me a ferocidade, e leva-a em conta da solidão.”
— Político inglês (1599-1658), ambicioso e despótico, acabou dominando a Inglaterra durante anos seguidos, através de atos mais ousados e tirânicos, como, por exemplo, a dissolução do Parlamento, aquele mesmo que o ajudara a subir.
— Martinho Lutero (1483-1546), monge agostiniano que protestou contra as indulgências, a autoridade do Papa, a hierarquia, o celibato dos padres, os votos monásticos, o culto dos santos, o purgatório e a missa. Deu início à Reforma, que cindiu a Igreja, no decorrer do século XVI.
CAPÍTULO XVI
Helena leu e releu a carta. Depois ficou silenciosa, a olhar para as folhas da trepadeira, que do lado de fora viera a subir pela muralha da varanda e a debruçar-se enfim do parapeito para dentro. A carta ficara aberta sobre os joelhos da moça. Mendonça, a poucos passos, olhava para esta, sem ousar falar-lhe.
Goethe escreveu um dia que a linha vertical é a lei da inteligência humana. Pode dizer-se, do mesmo modo, que a linha curva é a lei da graça feminil. Mendonça o sentiu, con- templando o busto de Helena e a casta ondulação da espádua e do seio, cobertos pela cassa fina do vestido. A moça estava um pouco inclinada. Do lugar em que ficava, Mendonça via- lhe o perfil correto e pensativo, a curva mole do braço, e a ponta indiscreta e curiosa do sapatinho raso que ela trazia. A atitude convinha à beleza melancólica de Helena. O rapaz olhava para ela sem movimento nem voz.
A tarde expirava; a cor verde do morro fronteiro ia tomando o aspecto cinzento-escuro que precede a cor fechada da noite. A própria noite desceu, e um escravo entrou na varanda a acender as duas lâmpadas que pendiam do teto. Esta circunstância acordou a moça, e bastou- lhe voltar um pouco a cabeça para ver o amigo de Estácio a alguns passos de distância.
Estava aí? perguntou Helena, estremecendo.
D. Úrsula não voltou, respondeu Mendonça com timidez; não quis interromper a leitura que a senhora fazia.
A leitura? A leitura acabou há muito tempo.
Mas também se lê de cor.
Helena lançou-lhe um olhar suspeitoso.
Não sei ler de cor, disse ela, erguendo-se e saindo da varanda.
Mendonça ficou aturdido. Que lhe dissera ele tão grave que a pudesse ofender? Repetiu as próprias palavras e não lhes achou sentido mau. Certo, porém, de que a molestara, ali ficou aborrecido de si mesmo, desejoso de lhe explicar tudo, se alguma coisa houvesse explicável. Após alguns instantes, resolveu entrar também. Entrou; Helena não estava nem na sala de jantar, nem na do jogo, onde achou D. Úrsula com o Dr. Matos e o coronel-major. Dali passou à sala de visitas. Helena não o viu entrar; estava mergulhada numa poltrona com a cabeça nas mãos. Comovido, deteve-se alguns instantes a contemplá-la; depois caminhou para ela e falou-lhe.
Helena ergueu a cabeça.
Perdoe-me, disse ele, se alguma coisa lhe disse que a magoou. Confesso que não sei o que poderia haver em minhas palavras. Ficou triste por isso?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.