Por Gregório de Matos (1696)
Eu vos retrato, Gregório,
desde a cabeça à tamanca
cum pincel esfarrapado
numa pobríssima tábua.
Tão pobre é vossa gadelha,
que nem de lêndeas é farta,
e inda que cheia de anéis,
são anéis de piaçaba.
Vossa cara é tão estreita,
tão faminta, e apertada,
que dá inveja aos Buçacos,
e que entender às Tebaidas.
Tendes dous dedos de testa,
porque da testa a fachada
quis Deus, e a vossa miséria,
que não chegue à polegada.
Os olhos dous ermitães,
que numa lôbrega estância
sempre fazem penitância
nas grutas da vossa cara.
Dous arcos quiseram ser
as sobrancelhas, mas para
os dous arcos se acabarem
até de pêlo houve faltas.
Vosso pai vos amassou,
porém com miséria tanta,
que temeu a natureza,
que algum membro vos faltara.
Deu-vos tão curto o nariz,
que parece uma migalha,
e no tempo dos catarros
para assoar-vos não basta.
Vós devíeis de ser feito
no tempo, em que a lua anda
pobríssima já de luz,
correndo a minguante quarta.
Pareceis homem meminho,
como o meminho da palma,
o mais pequeno na rua,
e o mais pobrezinho em casa.
Vamos aos vossos vestidos,
e pequenos na cassaca
com tento, porque sem tento
a leva qualquer palavra.
Anda tão rota, Senhor,
que tenho por cousa clara,
que no tribunal da Rota
de Roma está sentenciada.
A vossa grande pobreza
para perpétua lembrança
dedico a de Manuel Trapo,
que foi no mundo afamada.
AO NASCIMENTO DE HUMA MENINA QUE SE DIZIA SER FILHA DE JOAN DE
MORALEZ CASTELHANO AMIGO DO POETA FEZ SILVESTRE CARDOZO UNS
DESCONCERTADOS VERSOS, AO QUE O POETA FEZ ESTAS DÉCIMAS
Compôs Silvestre Cardoso
um poema esta manhã,
e era assunto a Moná
nascida ao Morais Famoso:
por ser o verso jocoso,
foi festejado em verdade
com toda a celebridade
e não deixei de notar,
que sendo o Pai secular
folgou co'a paternidade.
A um Pai qualquer filho enguiça
se a Mãe puta Ihe imputou
e o Morais esta aceitou
só por crédito da piça:
que como o mal se Ihe atiça
e é de tão mau navegar,
que sempre anda a bordejar:
aceitou a filha parda
por mostrar, que da mãe sarda
soube o golfo penetrar.
Pela conta da cartilha
ficou verdadeira a Mãe;
Pasquinha ficou com Pai,
e o Morais ficou com filha:
todos nós os da quadrilha
ficamos de par em par,
Pissaro a zombetear,
e eu a pasmar, e aplaudir
Morais a rir, e mais rir,
Silvestre a nos suportar.
NÃO PODIA O POETA LEVAR EM CAPELLO O CONTINUADO MENTIR DESTE
SILVESTRE CARDOZO, E POR ISSO O SACODE AGORA.
MOTE
Em qualquer risco de mar
quereis, Silvestre, ser Ema;
se a Ema no mar não rema,
como vos hei de salvar?
Sois Silvestre tão manemo,
tão cagão, e tão coitado,
que antes que branco afogado,
desejais ser negro Emo:
se ao Emo Ihe falta o remo
da pata para nadar,
quem se não há de espantar,
de ver, que um branco indiscreto
se passe de branco a preto
Em qualquer Risco de mar.
As Emas no mar não vogam,
que não são patos modernos,
os pretos não são eternos,
as aves também se afogam:
logo como assim avogam
à divindade suprema
vossos ais com tanto emblema,
e virando o papa-figo
para livrar do perigo
Quereis, Silvestre, ser Ema.
Nesta heresia tão crassa
deu Pitágoras gentil,
crendo, que a alma é tão vil,
que de um corpo a outro passa:
a vossa sim tem mais graça,
porque é asneira da gema:
senão vede o entimema,
como trocais em tal calma
em Ema o corpo, e a alma,
Se a Ema no mar não rema.
Sendo erro o transmigrar-se
(como Pitágoras disse)
a alma é grã parvoíce
alma, e corpo transmutar-se:
e se deve condenar-se
alma, e corpo transmigrar,
e vós vos possais trocar
em Ema, isso nada voga,
porque se a Ema se afoga,
Como vos heis de salvar?
AO MESMO SUGEYTO NÃO SÓ POR MENTIR MUYTO, MAS TAMBEM POR NEGAR
HUMA FORNICAÇÃO, EM QUE FOY VISTO COM HUA NEGRA.
Viu-vos o vosso Parente
numa moita fornicando,
e vós o caso negando
sois Pedro Silvestremente:
vós mentis, ou ele mente
dizendo a verdade pura:
vós estáveis na espessura,
onde a Negra vos espera,
e onde vos viram, ou era
o demo em vossa figura.
Já por vosso menoscabo
depois de injúrias tamanhas
dizem das vossas entranhas,
que é morada do diabo:
porque no cabo, ou no rabo
me dizia o coração,
que se há demo fodinchão,
havendo o tal de foder,
não podia tal fazer,
senão com vosso pismão.
Não sei, que menos torpeza
a vossa torpeza rara
acha na moita mais clara,
que na moita mais espessa:
tudo é foder à montesa,
e não tendes, que dizer,
replicar, nem defender,
que aqui foi, e não ali,
porque seja ali, ou aqui,
Silvestre, tudo é foder.
Se mudais de situação
não mais que por concluir,
em que anda sempre a mentir
vosso parente Fuão:
eu vos digo em conclusão,
que o tirardes a cassaca,
e abaixar-se-vos à taca
(como diz vosso Parente)
tudo é sinal evidente,
de que sois o autor da caca.
A PROPENÇÃO COM QUE ESTE SILVESTRE CARDOZO SEMPRE QUERIA IMITAR O
PEYOR.
Senhor Silvestre Cardoso,
só eu invejar sei bem
a inveja, que aqui vos tem
a esse membro façanhoso:
vosso Primo de invejoso
tanto o abate, e quebranta,
que isso a todos nos espanta,
pois quando a mentira encaixa,
como de falso o abaixa,
ele é, quem vo-lo levanta.
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.