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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

A verdade é que a rainha ofendeu todo o partido católico; diz-se que a razão da sua abstenção foi o ser Lady Flora uma nova convertida e o detestar a rainha as novas convertidas. Admite as antigas famílias católicas, mas as conversões recentes são-lhe particularmente antipáticas.

Uma condessa muito ilustre e ainda mais bonita, casada com um católico, mostrava tendência ultimamente de «passar para Roma», como aqui se diz. A rainha, na última recepção, chamoua e disse-lhe simplesmente:

– Não há nada pior para uma senhora que abandonar a religião de seus pais.

Foi o bastante: a pobre condessa perdeu toda a veleidade de beijar a chinela do papa; ficou-se no protestantismo por ordem superior. Acho este caso delicioso. Uma devota – morrendo do desejo de ouvir uma boa missa cantada ou de seguir o mês de

Maria – é obrigada a contentar-se com a seca leitura da Bíblia para não desagradarás reais pessoas.

A propósito da religião, ouço dizer, mas não o garanto, que o príncipe Leopoldo, o filho mais novo da rainha, se vai fazer padre. Este moço, de uma natureza e de um temperamento diferente dos irmãos, letrado, um pouco poeta, místico e extremamente doente – daria talvez, nos tempos passados, um daqueles príncipes que edificavam um mosteiro e, na falta de um reino temporal, ali ficavam governando um pequeno povo de monges, escreviam um tratado sobre um meio de expurgar o Demónio e obtinham, pela sua parentela real, uma canonização em Roma.

As façanhas da força muscular repetem-se sob as formas mais inesperadas; depois dos sujeitos que nadam vinte léguas em doze horas; depois dos indivíduos que caminham em volta de um circo quinhentas milhas em três dias, temos agora um novo herói: o homem que valsa seis horas consecutivas. Este maganão é débil, esguio, alourado, frisado, com uns olhinhos vivos, ademanes nervosos e uma voz de grilo. Das seis da tarde à meia-noite, valsa, valsa, valsa, sem respirar mais alto, sem suar, sem se lhe desmanchar o frisado, cansando vinte, trinta, quarenta pares e bebendo, sempre a valsar, caldos pelo bico de um bule. É sublime e odioso. Na primeira hora, o espectáculo é trivial e pouco elegante porque o homem valsa pior que qualquer dançarino; na segunda hora, o facto começa a surpreender; na terceira hora, principia-se a achar extraordinário e não se vêem pelos cantos da sala, senão mulheres extenuadas que o maganão esfalfou, valsando, valsando; na quarta hora, o caso torna-se fenomenal, a cabeça anda à roda; na quinta hora, começa-se a ter ódio àquela personagem, que, com um sorriso ameno, gira, torneia, perpassa, delira, sempre à roda, sempre à roda; na sexta hora, a gente começa a ter vontade de matar o mariola: felizmente há policias; mas a impressão é terrível, e vem-se para a rua meio louco, sentindo as casas, os candeeiros, as carruagens, valsar, valsar com um sorriso doce e cabelos frisados. E um espectáculo medonho!

Agora uma notícia triste: o nosso amigo Pongo morreu, o ilustre gorilha. Foram chamados os médicos mais ilustres, mas os seus dias estavam contados pelas Parcas que se ocupam dos macacos.

Pensou-se ao princípio que o clima, a nostalgia, ou talvez o tédio o teriam morto; mas os anatomistas, que o abriram para o estudarem, mostraram que o mal que o destruiu tinha uma causa bem mais natural num macaco: dentro do estômago do ilustre Pongo acharam-se pregos, um pequeno canivete, rolhas, uma luneta, uma luva, um cabo de guarda-sol e outras curiosidades. Este avô da raça humana não tinha da escolha dos seus alimentos nem mais discernimento nem mais dignidade que um qualquer reles macaco de meia moeda o casal. Grande desilusão!

X

Londres, 21 de Dezembro [de 1877]

Londres foi ontem à noite agitada pelo espantoso boato de que a Inglaterra tinha comprado o Egipto!!! Nos teatros, nas ruas, nos clubes, nos restaurantes, dizia-se com uma satisfação um pouco estonteada: – Comprámos o Egipto! Demos um ror de milhões pelo Egipto!

Eu soube a notícia por um amigo meu, que à uma hora da noite se precipitou na minha sala; esguedelhado, com o laço da gravata branca para as costas, soprando como um monstro dos mares, atirou-se para uma poltrona ao pé do fogão e exclamou com palavras ofegantes:

– Acabou-se! Está terminada a crise! Acabámos agora mesmo de comprar o Egipto!...

Eu levantei a cabeça do meu trabalho e, dominando uma comoção violenta, perguntei com tranquilidade:

– Por quanto?

– Centenas de milhões. Um negócio óptimo. A questão do Oriente está acabada: agora que espatifem à vontade o Império Turco. Nós temos o que precisávamos – o Egipto e o canal de Suez! Constantinopla não nos serve para nada! E sem derramar uma gota de sangue!

Derramando, sim, ondas de ouro! Mas pouh!... O ouro sobra. Além disso, o rendimento do

(continua...)

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