Por Eça de Queirós (1912)
Cristóvão, logo de pé, tirou humildemente o seu barrete. E vendo aquele forma enorme, esguedelhada, negra, na claridade da tarde, os dois arqueiros, estacando, retesavam o arco, uma das damas deu um grito. A liteira parara, e de entre as cortinas uma dama muito velha, envolta em peles, espreitou, pondo ante os olhos a mão, coberta com um guante de caça. Mas Cristóvão, humildemente, caíra de joelhos. Então a dama deu uma ordem: - e um escudeiro, rudemente, mandou aproximar o homem enorme. Ele veio por entre os cavaleiros, cujas altas lanças direitas, nas selas, não lhe chegavam aos ombros largos. E pelas cortinas da liteira, descerradas, a velha dama, outra mais nova e pálida, e uma criança loura como um anjo, olhavam com espanto. Cristóvão caiu de joelhos junto da liteira. E como lhe perguntassem a que terra senhorial pertencia, e porque andava só nos caminhos, Cristóvão, na sua simplicidade, só pode murmurar que vinha de além e tinha fome. A dama mais nova palpou a sua escarcela – e a criança gritou: “É o gigante que servia Roldão!” Em roda os cavaleiros riram com respeito. E subitamente o pequeno fidalgo, sentado sobre os joelhos da velha, pediu, com um lindo mimo, para ter ele também um gigante, que o seguisse, com uma clava. A velha sorria. E, sem hesitar, deu ordem aos cavaleiros para que trouxessem Cristóvão. Com um gesto foi mandado marchar ao lado das bagagens. E de novo os guizos dos machos tilintaram, e a comitiva seguia lentamente. O Sol descera. Os escudeiros acenderam os archotes. E a cada instante, de entre as cortinas da liteira, aparecia a cabeça loura da criança que espreitava, queria ver se vinha o seu gigante. E Cristóvão soube, pelos estribeiros, que aqueles eram os senhores do castelo de Riba Dona, que ficava para além, das lagoas.
Bem depressa, no alto de uma colina, entre os grandes bosques que desciam para o vale, surgira, as altas torres. Na mais alta ardia uma chama, que se torcia ao vento. Longas buzinas soaram. E à entrada da ponte levadiça, apareceram tochas inumeráveis, que os escudeiros erguiam alto.
O intendente, o senescal, dois frades com hábito, outros cavaleiros esperavam no pátio. Nas janelas ogivais brilhavam claridades. E o sino da capela repicava alegremente. Um escudeiro, cuja barba branca caía sobre um corpete de couro branca, recebeu nos braços a criança loura, que as damas cortejavam, mergulhando nas suas longas saias de cauda, orladas de peles. Um tapete fora desenrolado sobre a vasta escadaria. Os cães latiam alegremente. E sob a grande porta, que sustentava um escudo de armas, uma camareira esperava, com um jarro de prata na mão, enquanto outras ao lado tinham uma bacia que rebrilhava, e uma branca toalha fina. A cauda enorme da velha que levava a criança pela mão, desapareceu sob o alto portão. Os estribeiros levavam os cavalos à rédea, outros recolhiam as lanças. E os cavaleiros, cujas esporas retiniam sobre os lajedos do pátio, contavam ao intendente a ao padre como a jornada fora boa, com a ajuda do Senhor, sem encontro de touros, nem de lobisomens.
Mas, no entanto, todos os criados cercaram Cristóvão, com espanto. Ele torcia o seu barrete nas mãos, humildemente. Os pajens riam da sua grenha hirsuta, da imensidade dos seus pés cheios de terra. Os mesmos cozinheiros tinham corrido, para o admirar. Os cães, assustados, latiam.
Mas um pajem veio correndo chamar Cristóvão à sala de armas: - e através de um corredor abobadado, por onde ele tinha de caminhar todo vergado, e de portas de carvalho que mal podia passar, levou-o a uma sala que era grande como a nave de uma igreja. Pelas paredes estavam encostados molhos de lanças. Das traves do teto pendiam bandeiras, e ao fundo, numa vasta chaminé, ardiam troncos de árvores, a que os cavaleiros, de pé, aqueciam as mãos. Uma cortina ergueu-se e as duas damas apareceram coma criança no meio delas, e seguidas dos pajens, que traziam tochas de cera.
O pequeno Senhor do castelo (porque seu pai morrera, havia dois anos, na guerra do rei da Ocitânia) tinha feito seis anos pelo Natal, e era tão delicado e louro, que pareceu a Cristóvão o Menino Jesus que havia no altar da capela. Mas, desde criança, fora educado para ser um cavaleiro forte: todas as manhãs lhe esfregavam os lábios com um pedaço de ouro bento, para que suas falas fossem honestas e brilhantes; a sua roupa era secada ao lume sobre o fio de uma grande espada, para que crescesse forte e amigo das armas; e trazia ao pescoço uma pedaço do Santo Lenho, para que o seu coração se enchesse de amor do Céu. O seu encanto fora sempre ouvir as histórias dos Paladinos. De noite sonhava com Roldão, e estendia os braços para empunhar a grande trompa que soara em Roncesvales. E desejava libertar damas presas em torres, domar dragões e ser servido por um gigante armado de uma clava.
E ali o tinha, o seu gigante, maior de que todos aqueles de que ouvira falar, nos serões de Inverno, aos trovadores de passavam esmolando, ou aos peregrinos que tinham visto as maravilhas da Terra Santa. Direito, a mãozinha assente na cinta, o olhar rebrilhante, estava diante de Cristóvão – que sorria, com a vasta face barbuda toda pendida e enternecida para ele. Então, erguendo o dedo para o alto, onde estava o ombro de Cristóvão, disse muito sério:
— Quero subir lá cima.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.