Por Eça de Queirós (1900)
Ana, e esconde tenebrosamente dos seus amigos estes privilégios gloriosos?...
- Sem contar - gritou o Barrolo deliciosamente divertido - que lhe passeia à trela os cãezinhosfelpudos!
- Sem contar que lhe passeia à trela os cãezinhos felpudos! - ecoou cavamente Gonçalo. Responda, meu ilustre amigo!
O Titó remexeu o vasto corpo dentro do cadeirão, recolheu as botas de tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão aquecera. E depois de encarar Gonçalo, intensamente, com um esforço de sagacidade que mais o afogueou:
- Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...
O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembléia, no Gago, na Torre, eles berravam, em questões de Política, o nome do Sanches Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que aludir o Sr. Titó à sua intimidade ilustre! Ao menos para evitar que ele, ou os amigos, diante do Sr. Titó que comia as torradas da Feitosa, tratassem o Sanches Lucena como um trapo!
O Titó despegou do cadeirão. E afundando as mãos nos bolsos da quinzena de alpaca, sacudindo desinteressadamente os ombros:
- Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o conheço há quatro ou cincomeses, mas acho que é sério, que sabe as coisas... Agora, lá nas Câmaras...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam os méritos do Sr. Sanches Lucena - mas os segredos do Sr. Titó Vilalobos! E o escudeiro novo, avançando as suíças ruivas por uma fenda do reposteiro, anunciou que o Sr. Administrador de Vila-Clara procurava S. Exa....
Barrolo largou logo a terrina de tabaco:
- O Sr. João Gouveia! Que entre! Bravo! Temos cá toda a rapaziada de Vila-Clara!
E Titó, da janela onde se refugiara, lançou o vozeirão, mais troante, abafando a importuna conversa do Sanches e da Feitosa:
- Viemos ambos! Por sinal numa traquitana infame... Até se nos desferrou uma das pilecas etivemos de parar na Vendinha. Não se perdeu tempo, que há agora lá um vinhinho branco que é daqui da ponta fina!...
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrolo e Gonçalo a passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
Até aqui o Sr. Padre Soeiro lhe atiçava uma caneca valente, apesar do Pecado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho na testa, do chapéu e do calor - e abotoado na sobrecasaca preta, de calças pretas, de luvas pretas. Sem fôlego, apertou silenciosamente pela sala as mãos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o canapé, implorando ao amigo Barrolo a caridade duma bebidinha fresca!
- Estive para entrar no café Mônaco. Mas refleti que nesta grandiosa casa dos Barrolos asbebidas são de mais confiança.
- Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
- Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o indecente calor de Oliveira:
- Mas há gente que gosta! Lá o meu chefe, o Sr. Governador Civil, escolhe sempre a hora docalor para passear a cavalo. Ainda hoje... Na repartição até o meio-dia; depois, cavalo à porta; e larga até a estrada de Ramilde, que é uma África... Não sei como lhe não fervem os miolos!
- Oh! - acudiu Gonçalo - é muito simples. Se ele os não tem!
O Administrador saudou gravemente:
- Já cá faltava com a sua ferroadazinha o Sr. Gonçalo Mendes Ramires! Não comecemos, não comecemos... Este seu cunhado, Barrolo, é bicho indomesticável! Sempre reponta!
O bom Barrolo gaguejou, constrangido, que Gonçalinho em Política não dispensava a piada...
- Pois olhe! - declarou o Administrador, sacudindo o dedo para Gonçalo. - Esse Sr. André Cavaleiro, que não tem miolos, ainda esta manhã na Repartição gabou com imensa simpatia os miolos do Sr. Gonçalo Mendes Ramires!...
E Gonçalo, muito sério:
- Também não faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser perfeitamente absurdo só lherestava que me considerasse um asno!
- Perdão! - gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a sobrecasaca, paracomodidade da contenda.
Barrolo acudiu, aflito, carregando nos ombros do Gouveia - para o sossegar e o repor no canapé:
- Não, meninos, não! Política, não! E então essa maçada do Cavaleiro... Vamos ao que importa.Você janta conosco, João Gouveia?
- Não, obrigado. Já prometi jantar com o Cavaleiro. Temos lá o Inácio Vilhena. Vai ler um artigoque escreveu para o Boletim de Guimarães sobre umas fôrmas de fabricar ossos de mártires, descobertas nas obras do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Sra. D. Graça, bem? Quem eu não avistava havia meses era o Sr. Padre Soeiro. Nunca aparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre viçoso. Oh, Sr. Padre Soeiro, qual é o seu segredo para toda essa meninice?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.