Por Camilo Castelo Branco (1862)
Cansei-me de ouvir dizer que a segunda cidade de Portugal é um enxame de moedeiros falsos, de contrabandistas, de mercadores de negros, de exportadores de escravos e de magistrados de alquilaria. Venalidade, crueza e latrocínio são três eixos capitais sobre que roda, no entender da crítica mordente, o maquinismo social de cem mil almas.
A minha análise aprofunda mais o espírito vital do Porto.
Ali, o viver íntimo tem faces desconhecidas ao olho da polícia e da economia social. Conhecem-se as librés dos chatins de negros; discrimina-se pelo brasão o fabricante de notas falsas do outro seu colega heráldico, opulentado em roubos ao fisco; ignora-se, todavia, o mais observável e ponderoso da biografia desses vultos, que a fortuna estúpida colocou à frente dos destinos e da civilização do Porto.
Ó cidade dos livres, que é da liberdade dos teus escritores?
Se aí há homem de alma, que sacode os sapatos na testeira da riqueza bruta, que testemunho nos dá da sua independência?
O jornalismo do Porto está acorrentado às ucharias dos ricos. O jornalista por via de regra é um pobre homem, que vive do estipêndio cobrado com franciscana humildade à porta do assinante. Para os festins do fidalgo de raça era chamado o versista com as consoantes prévias do soneto na algibeira, onde não havia outra coisa. Nos tumulentos jantares do fidalgo de indústria há talher para o gazeteiro, que já deixou na estante dos caixotins a local sumarenta, inspirada pelo antegosto das viandas, que lhe arrastam na torrente a alma para o estômago.
Nota
Perdoe-me a memória de Silvestre. A calúnia, conquanto escrita em palavras cultas e penteadas, é sempre calúnia. Elegâncias da linguagem, por mais que valham na retórica, valem nada para o desconceito de quem injustamente difamam. O jornalismo do Porto teve e tem admiráveis e valentes mentenedores da honra contra classes poderosas pela infâmia nobilitada. A conta de muitos poderia escrever-se o que o finado Silvestre disse de um, nestes termos, que trasladamos dos seus manuscritos:
Havia aí uma forte alma e audaciosa inteligência, que levou a mão à máscara de alguns para lhes estampar o ferrete na testa.
O jornal brioso, que a tanto ousara, expirou à míngua de subscritores, porque os afrontados por ele iam, de porta em porta, mandar uns e pedir a outros que retratassem as moedas de cobre à receita do escritor, que as não queria para si.
O heróico moço, rodeado de inimigos até ameaçado na vida, cruzou os braços, descorçoado, e disse: “É impossível! Cuidei que teria por mim os incorruptos; mas a peste não respeitou consciência alguma.”
Num país em que o Governo atalaiasse os interesses do Estado, e o renome honrado da cidade, aquele jornal seria sustentado a expensas do tesouro; aquele jornalista seria acrescentado em bens e honras; aqueles réprobos, indigitados pelo órgão da voz pública - que é sempre a voz dos fracos e dos inermes -, seriam por seu mesmo decoro e dos poderes que os nobilitariam, obrigados a refutarem a detracção ou a despirem nas praças os arminhos com que escondem o pescoço à corda de esparto.
Doces e nobres quimeras!
O jornalista austero será sempre um ente malsinado e odioso para todos os governos. Hão-de expulsá-lo sempre do sacrário puluto das mercês, onde reina o ladrão laureado, que tem o segredo de abater ministros erguidos e exaltar ministros despenhados.
E acrescenta Silvestre da Silva:
Que outro homem há aí que se aventure a entrar na trilha daquele, que esmoreceu, afinal, diante das conveniências sociais? Serei eu...
Fez bem! Partiu o braço, querendo parar o movimento da roda. Desbaratou a melhor parte do seu Património em publicações panfletárias, que não rasgam sulco algum para as searas do futuro progresso da humanidade. Criou inimigos, que nem sequer lhe tinham lido as diatribes, nem lhe podiam perdoar pelas graças do estilo - inimigos que não sabiam ler, os piores de quantos há. É o que ele fez!
III
Tornando ao Dr. Anselmo Sanches.
Dois meses depois que fui ao baile, planeando casar-me com uma das três representantes de acções bancárias no valor de trezentos contos para cima, vi uma senhora, que devia ter sido formosa, encostada ao braço de seu marido.
Trinta e quatro anos teria ou menos; mas os precoces vincos da velhice denunciavam quarenta anos ou mais. Lá estava o fulgor dos olhos para desmentir a denúncia das rugas, fulgor embaciado de lágrimas, mas ainda vivido como clarão crepuscular quando uma barra de púrpura e ouro tinge a orla do céu. De feito, era aquela uma vida em crepúsculo da tarde; já tudo para além-túmulo era escuridade e pavor para a triste senhora.
Chamava-se Rita e era brasileira, pura carioca, linda como todas as cariocas que não tem mais de dezoito anos.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.